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  • Foto do escritorJosé Alexandre F. Diniz F

A Ciência Voltou...

É isso, ótimo! Mas será que sabemos por onde começar a retomada? Nem sei bem por onde começar...Faz pouco mais de 6 meses que fiz a última postagem aqui no “Ciência, Universidade e Outras Idéias” e ainda temos muitas incertezas e muitas discussões para fazer. Aconteceu tanta coisa durante esses últimos meses desde que o (des)Governo Bolsonaro saiu do poder, quando passamos a ter uma pouco mais de tranquilidade e normalidade para trabalhar. Talvez até por isso, fiquei “congelado” diante das muitas novidades, e sentindo algo como uma “ressaca” emocional e psicológica depois de tanto estresse e tanta ansiedade que dominaram nossa sociedade em geral e, em particular nosso trabalho como professores e pesquisadores, nos últimos 4-5 anos...Mas entendo que agora seja hora de retomar as discussões, temos muita coisa para repensar e retomar. Fiquei esses dias pensando no slogan que tem sido usado em várias postagens e na mídia do CNPq, “A Ciência Voltou!” e resolvi retomar nossas discussões aqui.





Na penúltima postagem, ainda no final de 2022, coloquei que o mais urgente seria começar a pensar na reconstrução do país depois de todo o desmonte. Mas, como já sabemos, não vai ser fácil, não vai ser simples e não vai ser rápido...Temos problemas de toda sorte, e não podemos esquecer que Bolsonaro teve, de fato, quase 50% dos votos válidos; ou seja, estamos falando de milhões de pessoas que, na melhor das hipóteses, flertam com visões conservadores e da extrema direta (e isso ficou claro com os atos de 8 de janeiro, com o golpe mal-sucedido, quando tudo parecia já pacificado...). Entretanto, o fato de Bolsonaro ter sido declarado inelegível há algumas semanas pelo TSE é bastante simbólico e mostra que, apesar da ameaça que ainda paira no ar e dos problemas inerentes e subjacentes ao conservadorismo na nossa sociedade, os sistemas de controle ainda funcionam e é bem provável que voltemos a uma faixa mais “normal” de escolhas dentro do espectro político nos próximos anos. Pelo menos me deu um certo ânimo e, nesse sentido, vamos ficar na zona de conforto e pensar o que significa dizer que “a ciência voltou”.


Começando em uma escala ampla, é importante manter em mente a divisão da nossa sociedade em relação a muitos assuntos, divisão esta que envolve direta ou indiretamente a questão da ciência, da tecnologia e da inovação. Entender melhor essa divisão é importante pois dela depende nossa sobrevivência...Estamos no meio de uma crise ambiental, uma crise econômica de muitas formas correlacionada à crise ambiental e, além disso, enfrentamos um desafio inédito de lidar cada vez mais de perto com a inteligência artificial (IA), algo que está muito distante da “natureza” de macacos pelados que evoluíram nas savanas africanas há pouco mais de 2,5 milhões de anos (mesmo sem querer cair em um determinístico biológico simplista, como sempre insistiu Yuval Harari...). A crise política, o renascimento e o fortalecimento da extrema direita, desencadeando tantas polarizações, podem ser uma consequência da conjunção de todos esses fatores e que cria uma série de interações complexas difíceis de lidar. Estamos longe de poder ficar tranquilos justamente porque a polarização que atingiu a sociedade brasileira no início do século XXI, ecoando os eventos históricos que antecederam a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa nos anos de 1930, aparentemente reduziu, por várias razões, a nossa capacidade de argumentação racional em torno de muitos temas (mas veja que a coisa nunca é tão simples em relação ao espectro político, e no nosso caso vejam que a própria esquerda está internamente dividida e alguns já expressam uma visão “desenvolvimentista” ultrapassada, minando a atuação da ministra Marina Silva e outras visões progressistas e técnicas do Governo, inclusive o próprio Fernando Hadadd...mas aparentemente o presidente Lula está conseguindo equilibrar a situação).


Some-se a todo esse cenário político e econômico a desafortunada chegada da pandemia da COVID-19 que durou algo como 3 anos e que, quase que por definição, ampliou o isolamento social. Como discutimos aqui muitas vezes, o isolamento social e a redução das interações em um momento pré-vacina ou pré-tratamento é, de fato, a única forma de mitigar os impactos de uma pandemia (diferente do que os bolsominions sempre falaram...), mas claro que isso tem um preço, não só econômico, mas social. Então, essa é a nossa situação como sociedade em 2023: uma grande polarização, falta generalizada de pensamento crítico e racional, domínio das opiniões por algoritmos e sistemas de IA que canalizam e estruturam o pensamento nas “bolhas” das redes sociais, e dificuldade de diálogo em um sistema dominado por fundamentalismo religioso associado ao crescimento da extreme direita e de visões conservadoras. "Now what"?


Vindo para um plano um pouco mais concreto e melhor contextualizado, pensando no perfil do “Ciência, Universidade e Outras Ideias”, acho que é hora de reconfigurar nossos objetivos, já que, apesar da necessidade de manter a vigilância, estamos em um outro momento, podemos respirar um pouco. Passados pouco mais de 6 meses do Governo Lula, já vemos uma série de eventos e decisões nos diversos órgãos federais ligados à Ciência, Tecnologia, Educação, Meio Ambiente e Direitos Humanos que certamente mostram uma retomada, e na verdade seria até difícil enumerá-los. Nem vou tentar detalhar, mas sempre é possível fazer algumas generalizações como uma forma de estruturar e organizar nosso conhecimento e percepção (afinal, isso é o que os cientistas fazem, no geral). Um ponto que vejo em comum é que as pessoas que assumiram os ministérios e os cargos-chave associados em cada um deles, diferente do que tínhamos antes - com raras e honrosas exceções - são extremamente qualificadas e sabem o que estão fazendo. Isso pelo menos na nossa área de ciência e educação, pelo que já vi e conheço.


Para usar como exemplo os nossos órgãos mais próximos e mais afins, temos a Profa. Mercedes Bustamente (UnB) na presidência da CAPES e o Dr Ricardo Galvão (USP/INPE) na presidência do CNPq. São pessoas cujo trabalho conheço de perto, há muito tempo, extremamente competentes e muito bem-intencionadas. Mercedes, em particular, é uma conhecida de longa data, desde que participávamos juntos do comitê de Ecologia sob a liderança do meu amigo Fábio Scarano da UFRJ, e depois, quando eu fui Pró-Reitor de Pós-Graduação na UFG, ela assumiu a Diretoria de Bolsas e Programas na CAPES... Importante, já mencionei e citei inúmeras vezes aqui no blog a coalizão “Ciência & Sociedade”, que foi organizada por ela no início do Governo Bolsonaro para denunciar os muitos absurdos ambientais que se delineavam, mais ou menos na mesma época em que criei o “Ciência, Universidade e Outras Ideias”. Participei há algumas semanas de uma reunião no Conselho Nacional de Educação (CNE), em Brasília, e tive o privilégio de ouvir Mercedes falar dos seus 6 primeiros meses à frente da CAPES, apresentando muitos novos programas e a retomada de outros que haviam sido minados, claramente criando um clima de otimismo em todo(a)s que a ouviam, ilustrando muito bem o slogan “a ciência voltou...”!


No caso da CAPES, me permitam detalhar um pouco mais essa generalização das novas competências, e colocar que as diretorias de bolsas e programas e de avaliação (DBP e DAV) foram ocupados por pessoas que conheço há bastante tempo, respectivamente meus colegas Laerte Guimarães Ferreira Jr (entramos juntos na UFG no longínquo ano de 1994) e Paulo Santos (UFPE), que há muitos anos é o coordenador da área de Biodiversidade e um dos mais ativos membros no CTC, inclusive tento um papel fundamental na resolução dos conflitos com o Ministério Público em relação à avaliação, no ano passado) (vejam aqui uma postagem anterior e logo no início das postagens, ainda em 2019, mostrando a estrutura da CAPES). Como já coloquei anteriormente, reestabelecer as competências é sempre muito importante porque a CAPES e o CNPq apresentavam problemas diferentes nos últimos anos, sendo a CAPES mais claramente afetada por problemas ideológicos, até mesmo por seu tamanho e importância dentro do MEC (o CNPq, ao contrário, sempre tentou manter uma postura de defesa da C&T, mas com fortes cortes de orçamento e tendo sua importância em geral diminuída, como órgão associado ao MCTI...).


Claro, apesar dos muitos editais que já começam a aparecer no CNPq e na CAPES, do aumento dos valores das bolsas de formação e de pesquisa, da perspectiva de novos concursos públicos e recomposição de quadros de docentes e pesquisadores, muitos dos problemas orçamentários continuam. Alguns problemas foram atenuados pela PEC da transição, mas há incertezas em relação a 2024, embora a ausência de contingenciamentos no FNDCT e as recentes vitórias de Haddad na área econômica nos permitem vislumbrar o futuro próximo de forma otimista. Mas há muito trabalho a fazer, pois sabemos que, de modo geral, muitos dos órgãos mais ligados à C&T, Educação, Direitos Humanos e Meio Ambiente foram em grande parte desmontados, programas descontinuados, bancos de dados apagados ou deliberadamente abandonados. A CAPES e o CNPq mantiveram, a duras penas e com muita confusão, alguns dos seus programas, apesar do desmonte e dos problemas relacionados à avaliação com o MP (vejam em “o colapso da CAPES e do CNPq”).


Mas, ainda que tenhamos pessoas competentes à frente das nossas principais agências de pesquisa e formação, é mesmo difícil retomar e para isso é preciso ter paciência. Entendo que depois de tanto estresse e desconfiança, não seja estranho que muitas pessoas continuem mais pessimistas, com “um pé atrás” em relação à política nacional de C&T. Mas, voltando a um dos princípios fundamentais de uma sociedade democrática avançada, precisamos reestabelecer nossa capacidade de diálogo e estabelecer um bom equilíbrio entre muitos aspectos que se radicalizaram nos últimos anos. No nosso contexto, quero discutir alguns aspectos que metaforicamente tenho chamado de “fogo amigo” e “telhados de vidro”. Acho que esse é um bom mote para retomarmos o “Ciência, Universidade e Outras Ideias” e que se encaixa muito bem com o nosso slogan do retorno da ciência.


Para mim está claro que, passada a euforia das eleições e do início do novo Governo (e passado o susto do golpe fracassado), gradualmente estamos começando a voltar ao “normal”. Mas o que significa isso, de fato, dizer que “a ciência voltou”? Talvez em função do alívio, muitos pesquisadores, talvez de forma até inconsciente, achavam que tudo isso se resolver miraculosamente, o que de fato é impossível...Existe uma forte inércia no sistema e muitos problemas para resolver e a economia precisa se recuperar para que possamos voltar ao que tínhamos, digamos, em 2013 ou 2014, antes do início da crise que culminou no impeachment de Dilma e, em última instância, nesse período trágico do (des)governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo, apesar de tudo, sabemos que a ciência brasileira se mostrou uma enorme resiliência ao longo da crise e, pelo menos em parte, foi bastante valorizada especialmente durante a pandemia (na verdade, o esforço foi pesquisadores e pesquisadoras individualmente, como sempre...mas tudo bem, é assim que as coisas funcionam mesmo). Na realidade não é só uma questão de retomar o crescimento, portanto, precisamos de fato “tirar o atraso”. Vejam que já há indicações métricas de que a Ciência brasileira regrediu algo em torno de 7,4% em 2022, comparada ao ano anterior, a partir de dados da Scopus (e essa foi a primeira queda do Brasil desde 1996). O que podemos esperar então? Qual seria a nossa atitude diante de tudo isso? Sei que é difícil, mas ainda acho que é preciso ter muita paciência e entender o momento, e aí entra a necessidade urgente de balancear o “fogo amigo” e consertar os nossos “telhados de vidro”.


Começando pelo “fogo amigo”, precisamos entender as questões colocadas acima e pensar que as pessoas que se propuseram a assumir o desafio de reconstruir o país em termos de C&T (e assumo que isso é algo mais amplo) estão fazendo o melhor que podem, diante da inércia, da oposição e das dificuldades, difícil tirar o atraso que se acumulou nos últimos anos...Considerando o que mencionei anteriormente, precisamos confiar nelas e evitar, ou pelo menos minimizar, o “fogo amigo”, ou seja, precisamos estar bem mais conscientes ao fazer críticas nesse momento. Não quero dizer que tudo está perfeito e que não devemos cobrar melhorias, mas já vemos rapidamente algumas críticas aparecendo tanto à CAPES quanto ao CNPq e dizendo que “nada mudou”, o que mostra um pensamento imediatista e, para ser sincero, egoísta em muitos casos. Para fazer essas críticas seria preciso entender muito bem como as coisas funcionam e quais são as limitações extrínsecas ao nosso próprio sistema de C&T. Ainda não voltamos aos patamares de antes de toda essa crise, mas já vemos um retorno dos editais de pesquisa (ainda que possa haver limitações e poucos recursos disponíveis), tivemos um aumento no valor das bolsas de formação, como IC, Mestrado, Doutorado, e mais recentemente as bolsas de pesquisa depois de muitos anos (ainda que alguns achem insuficiente) e o presidente Lula anunciou a retomada dos concursos públicos e a expansão do ensino superior no Brasil (ainda não concretizado). Tivemos a posse dos novos membros da Ordem do Mérito Cientifico Nacional, depois do vexame de 2021. Ainda pode não ser suficiente, mas já é alguma coisa (para mim muita coisa...), e acho realmente irritante ouvir alguém dizer que “continua tudo igual”. Não pelos valores investidos ou prometidos, que consideram insuficientes, pois de fato algumas dessas coisas até poderiam (e aconteceram) durante o período Bolsonaro...O que importa, na minha opinião, é clima de inovação, confiança e retomada que está no slogan do CNPq, que entendo ser sincero. É isso...


Ao mesmo tempo, e acho que isso pode ser até mais importante, antes de criticar vamos pensar nos nossos “telhados de vidro”. Será que o nosso sistema é tão bom assim e somos simplesmente injustiçados e não reconhecidos, ou não valorizados, como pesquisadores e cientistas? Individualmente pode até ser que sim, mas coletivamente não é bem assim e, na realidade, o nosso sistema de C&T e as nossas Instituições e Universidades estão cheias de problemas. Eu mesmo evitei, nos últimos anos, chamar atenção para muitos desses problemas aqui no “Ciência, Universidade e Outras Ideias”, não por conivência, mas justamente por entender que já tínhamos problemas suficientes com Weintraub e associados e queria evitar o “fogo amigo”...Mas isso não significa que não tenhamos problemas, signifiica que não precisamos destruir ou sistema para corrigir os problemas. Na realidade, se o (des)governo Bolsonaro fosse minimamente competente eles teriam muitos pontos que poderiam usar para minar e destruir o nosso sistema de C&T e as Universidades. Telhados de vidro que poderiam ser facilmente quebrados...Felizmente, ao invés de atacar os pontos problemáticos que realmente existem nas Universidades Públicas, por exemplo, em termos de ineficiência e desorganização, o (des)governo insistiu em ideias ingênuas e bobas, como dizer que o pessoal passa o dia inteiro nas universidades transando ao ar livre, andando pelados ou fumando maconha, caindo na pauta de costumes que é tão cara à extrema direita mas que, de fato, não é um problema real e terminou virando motivo de chacota...São mesmo muito incompetentes!


Então, acho que para dizermos que a ciência voltou e cobrarmos das pessoas no CNPq, na CAPES ou em qualquer outro órgão de C&T, vamos também ter que ser honestos e retomar a discussão da qualidade (efetiva) do ensino e da pesquisa que se faz no Brasil. Evitar "fogo amigo" não significa ignorar ou esconder os problemas. Se queremos passar para outro patamar e exigir do novo governo uma postura muito mais avançada que permita tirar o país da crise por meio de C&T (e inovação), como tenho ouvido e posso até concordar, temos que tentar mudar muita coisa no nosso sistema que entendo ter ficado em suspenso nos últimos anos. Temos muitos exemplos e seria exaustivo, e de certo modo inviável, retomar tudo aqui e agora, mas quero só mencionar brevemente alguns pontos críticos (sob o risco de simplificar demais as questões e, paradoxalmente, incorrer em “fogo amigo”; mas precisamos voltar o poder falar o que pensamos sem que nos taxem de "bolsominions", o que é um outro problema agora...).


Dizemos que a C&T no Brasil é concentrada nas IES, e principalmente nas IES públicas, mas de fato quantos dos docentes e pesquisadores dessas IES contribuem efetivamente para isso? Não são muitos...E não estou falando só de pesquisa, podemos até pensar no famoso tripé constitucional do ensino, pesquisa e extensão. Temos uma carreira docente nas IES federais que é, no geral, simplesmente função do tempo de serviço, e agora vemos professores titulares (o último nível da nossa carreira) que nunca deram nenhuma contribuição relevante em termos de ensino, pesquisa ou extensão nas suas instituições. Não estou falando que professores titulares deveriam ser apenas aqueles ou aquelas com uma carreira consolidada e internacional em pesquisa, mas seria preciso pensar em como reconhecer uma contribuição real em termos de ensino, extensão, e até mesmo administração. Mas não é bem isso que temos visto, infelizmente, e em muitas IES sabemos que é só cumprir um mínimo em termos de carga horária de ensino na graduação durante alguns anos e está tudo certo...Também não estou falando de questões de ciência aplicada ou relevância econômica, não é isso, como já coloquei aqui muitas vezes e ficou muito claro na pandemia: ciência aplicada em termos de solução de problemas da sociedade só acontece a partir de uma base muito sólida de ciência básica e competências estabelecidas, após um forte programa de formação de pessoas! Sem isso, não adianta falar dos problemas e dar dinheiro, não tem gente que seja capaz de resolvê-los de forma efetiva, simples assim!



Aliás, a pandemia escancarou também um problema muito sério de formação na área médica e de saúde no Brasil, com apoio a práticas pseudocientíficas e negacionismo incluindo homeopatia, psicanalise, práticas “alternativas”, acupuntura, dietas “naturais”, componentes de medicina tradicional daqui ou da China, dentre tantas outras...Nossas Universidades estão cheias disso, muito triste...Vejam a polêmica causada pelo livro recente de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, do Instituto “Questão de Ciência” sobre esses aspectos e como alguns Conselhos de Medicina estão se manifestando em defesa dessas práticas! Para meu desgosto como biólogo, o Conselho Federal de Biologia (CFBIO) se esforçou para incorporar essas práticas como atividades que um biólogo pode exercer...E isso como se Pasternak e Orsi fossem os primeiros a falar disso e denunciar essa questão da pseudociência na área médica, e como se não houvesse precedentes sérios desse tipo de atitude de apoio à pseudociência e negacionismo, com tantos médicos participando e mesmo liderando o movimento anti-vacina e uso de cloroquina e ivermectina durante a pandemia (inclusive com apoio do CFM e diversos CRMs). Existem discussões filosóficas importantes e honestas em relação a alguns desses casos, em termos de separação entre componentes teóricos e empíricos e dificuldades de avaliação e teste (em relação a conhecimento tradicional, por exemplo), mas não é disso que estamos falando. O que vemos é, de fato, um apoio a atitudes anticientíficas em relação à evidência. Em nome de um “pseudo-pluralismo” na ciência e da “liberdade de expressão”, vemos uma enorme omissão diante dessas situações nas várias instituições...


Será que as sociedades científicas, ou o(a)s pesquisadore(a)s sério(a)s dessas áreas médicas e da saúde, vão se manifestar em defesa de uma atitude realmente científica nesses casos? Seria bom, mas fazendo uma analogia, sempre há reações tímidas (na melhor das hipóteses) contra a questão do “criacionismo científico” e do “design inteligente”, por exemplo...Já ouvi dizer que isso é “um pouco mais delicado”, mas não sei por que (quer dizer, sei...). Em grande parte, essa leniência em relação ao criacionismo se deve a um medo (justificado) de criar um clima de “caça às bruxas ao contrário”, além de envolver questões religiosas que são um tabu e consideradas delicadas. Mas e no caso da área médica e de saúde? É uma questão de poder econômico e estrutura social que prestigia a classe médica? Sabemos que há problemas sérios ligados com a questão mais ampla do capitalismo, envolvendo a indústria farmacêutica e outras (e o caso hoje clássico envolve a indústria do tabaco e o apoio “científico” à ideia de que não há correlação entre fumo e câncer, como discutido de forma brilhante pela filósofa e historiadora Naomi Oreskes de Harvard em muitos trabalhos...), então em quem confiar e como separar essas questões? Como diz o filósofo Lee McIntyre, é uma questão de atitude diante da evidência e para entendermos isso podemos pensar na “matriz de Sangan”, que já discute bastante aqui. E, em um contexto mais filosófico, como vamos ter argumentos e respaldo para discutir e combater as versões mais extremas do “relativismo científico” se não conseguimos parar o apoio à pseudociência e ao negacionismo por causa dessas questões sociais e econômicas? Aí fica difícil...


Vamos discutir “produtivismo”, tudo bem, certamente o sistema de avaliação científica em função de publicações está em uma encruzilhada e à beira de um colapso total, e precisamos urgentemente discutir alternativas. Mas quem está reclamando faz isso porque entende e sabe os problemas do sistema ou simplesmente porque não consegue atingir minimamente os patamares exigidos, ou sugeridos? É uma questão de “lugar de fala”, percebem? Nesse sentido, já voltei a ouvir reclamações sobre “produtivismo” e que o sistema de avaliação da pós-graduação pela CAPES é injusto e competitivo (mesmo com as mudanças positivas iniciadas em2019 na ficha de avaliação e que desencadearam, paradoxalmente, a confusão totalmente desnecessária com o MP). Como coloquei anteriormente, o que muitas pessoas querem, no final, é que não tenhamos avaliação e que tudo seja igualmente distribuído e valorizado, independente de esforço, dedicação etc, e os bolsominions se aproveitaram fortemente disso nos últimos anos para aprovar (ou tentar) aprovar programas de qualidade questionável e com fortes interesses comerciais.


Muitas dessas discussões e as perspectivas da C&T para o futuro envolvem direta ou indiretamente a questão da contratação de novo(a)s pesquisadore(a)s e docentes nas Universidades, institutos de pesquisa e IES, especialmente se as promessas recentes do Presidente Lula se concretizarem. Temos insistido que isso é fundamental e que não podemos perder o investimento feito em tanto(a)s jovens brilhantes nos últimos anos e que, se não tiverem oportunidades, irão se dedicar a outras atividades. Por mais que pensemos que uma sólida formação acadêmica pode ser importante no geral, gerando uma sociedade mais esclarecida e consciente, há um limite para isso...Precisamos aproveitar o que foi investido para melhorar há tanto tempo sistema de C&T (até como uma forma de corrigir ou mitigar o problema de docentes contratados há muitos anos de forma questionável com base em pressupostos ultrapassados em termos de atuação). Mas será que a maneira como fazemos esses concursos é adequada? Será que o REUNI de 2009-2014 foi efetivo? Em geral sim, quero ser otimista em relação a isso, talvez porque o nosso grupo aqui em Goiânia foi muito beneficiado nesse sentido e aproveitou bem a oportunidade. Mas, ao mesmo tempo, não sei o quão geral isso foi. Considerando alguns pontos levantados acima, na melhor das hipóteses precisamos ficar alertas...Sempre ouvimos algo nas Universidades como "precisamos contratar docentes para a graduação". Claro, os docentes das IES sempre dão aula na graduação e a formação profissional, em um sentido estrito, se dá nesse nível. Em princípio tudo certo. Mas será que esse é realmente o perfil dos docentes esperado de uma Universidade pública? Será que é suficiente? Entendo que não, e já comentei sobre isso inclusive quando Weintraub questionou nossa atuação em 2019...Mas quando ouvimos alguém dizer "precisamos contratar docentes para a graduação" o que está subjacente a essa frase é uma crítica a uma atuação mais ampla do(a) docente, em geral feita por pessoas com uma atuação acadêmica bem questionável...Infelizmente ouço com certa frequência frases como essa...Mas o que precisamos é de alguém que Corey Bradshaw chama de "cientista efetivo", docentes que, óbvio, ministrem aulas e sejam bons professor(a)es, que estimulem e motivem os alunos, orientem tanto na graduação quanto na pós-graduação, e que sejam pesquisador(a)es produtivo(a)s não só no sentido de publicar artigos mas produzindo ciência de qualidade, o que implica quase que automaticamente em conseguir recursos e administrar projetos, formar e liderar equipes, e contribuir para a melhoria das instituições, tanto individualmente quanto coletivamente no nível do sistema nacional ou mesmo internacional de C&T. Será que conseguimos contratar pessoas assim? Aparentemente não temos sido muito bem sucedidos nesse sentido...Isso é porque não estamos formando nossos alunos de pós-graduação de forma adequada e com esse perfil mais amplo, ou porque nossos concursos e processos seletivos não conseguem avaliar bem o perfil e valorizá-lo? Muitos problemas para resolver nesse sentido...


Cada um dos questionamentos rapidamente apontados acima em relação aos “telhados de vidro” merece uma discussão muito mais aprofundada, pois existem nuances, dificuldades de avaliação da evidência, questões políticas e sociais, e conflitos de interesse. Vamos aos poucos avançando nessas discussões. Mas nada que não possa (e não deva) ser resolvido com trabalho e uma atitude honesta, pelo menos por parte dos pesquisadores.


Enfim, o que podemos esperar então? Acho difícil que tenhamos grandes mudanças nos próximos anos, pois temos fortes componentes inerciais. Mas é importante sempre manter em mente que, se não fizermos o nosso dever de caso, estaremos sempre sujeitos a problemas no futuro. Voltando ao início da postagem, por mais que tenhamos conseguido derrotar Bolsonaro, a extrema direita e os valores conservadores ainda dominam a sociedade brasileira. Não é impossível que, daqui a 3 anos, tenhamos alguém que traga tudo isso de volta, com muito mais “eficiência” e “competência” (e isso não é nada implausível se pensarmos que alguém precisa ser mais inteligente e hábil politicamente do que Bolsonaro...). Não vai ser muito difícil, nesse caso, quebrar os telhados de vidro e destruir de vez nossas instituições e todo o sistema de C&T construído a duras penas, por mais resiliente que ele possa ser.




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Relembrando 2019...que período complicado!!!


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1 Comment


Valério Pillar
Valério Pillar
Jul 29, 2023

Sobre a diminuição de 7,4% na produtividade (publicações) de pesquisadores no Brasil em 2022, é importante considerar que isso aconteceu também em vários países desenvolvidos, consequência da pandemia. Porém, no Brasil a queda foi uma das maiores, indicando efeito do desmonte da C&T desde o golpe de 2016 e depois com Bolsonaro.

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