• José Alexandre F. Diniz F

Reconstruir e Resistir

Não sabemos ainda o que pode acontecer dia 30/10/2022...Está próximo, bem próximo, mas ainda assim pode ser interessante fazer um exercício intelectual sobre os diferentes cenários em relação ao futuro da Educação e da Ciência no Brasil. Confesso, é só uma breve divagação para registro e para diminuir a ansiedade nesta última semana antes das eleições.


Considerando o que aconteceu nos últimos 4 anos (ou pouco mais), a reeleição do atual Governo seria simplesmente um desastre. Ao longo de 2019 assistimos estupefados a uma série de ataques às Universidades e confusões nos vários ministérios ligados à Ciência, Educação e Cultura que motivaram, inclusive, à criação do "Ciência, Universidade e Outras Ideias". Nenhum dos setores progressistas ligados à ciência, educação, arte, cultura ou direitos humanos escapou dos ataques e dos cortes de orçamento. Não precisamos, entretanto, revisitar todos os pontos desse desgoverno, que foram ainda mais expostos pela chegada da pandemia, trazendo inclusive para o Brasil o forte negacionismo e o movimento anti-vacina, que praticamente não existia por aqui. Continuamos, em resumo, vivendo a “sindemia brasileira”.


Por outro lado, se Lula ganhar, as coisas também não vão ser tão simples, pois uma votação tão expressiva em um candidato como Bolsonaro mostra um problema muito sério na sociedade brasileira (e no mundo, de fato; vejam o que acabou de acontecer na Itália...). Posso até entender o fato de alguém não votar em Lula, pois houve realmente uma enorme campanha de desmoralização e desconstrução da imagem da esquerda no Brasil, na grande maioria das vezes sem muito fundamento, parte da guerra de narrativas que antecipava o desatre que vemos hoje. Mas o fato de não gostar do PT não justifica votar em um candidato com tantos adjetivos negativos! Não é, como muitos têm dito, uma questão de “direita” e “esquerda”. Talvez o “núcleo duro” do bolsonarismo esteja restrito, de forma otimista, a algo entre 15% e 20% da população (o que não é pouca coisa, considerando inclusive que essa fração da população não está distribuída ao acaso...). Talvez seja possivel mostrar para a maior parte da população que muito do que foi dito para fazê-las votar em Bolsonaro era simplesmente mentira...


Mas, ao mesmo tempo, sabemos que essas eleições de 2022 e todos os acontecimentos ao longo dos últimos anos mostram uma sociedade brasileira extremamente conservadora, ignorante, colonialista, racista, misógina, preconceituosa, pouco empática e com uma visão extremamente limitada do mundo. Retrocedemos algumas décadas em empatia e avanços na igualdade social e nos direitos humanos. É com essa sociedade empoderada, em suas múltiplas facetas, que Lula e todos nós vamos ter que lidar nos próximos anos se tudo der certo no dia 30! E vejam que isso inclui a eleição do congresso nacional mais conservador dos últimos tempos, o que significa que, intrinsecamente, não vai ser fácil fazer muita coisa sem manter velhas práticas que tanto criticamos...Não sei, mas já estou no limite do meu complexo de impostor, não sou cientista político ou sociólogo e estou apenas colocando minhas impressões como alguém interessado e que acompanha as notícias e os canais de divulgação sobre esse tema. Confio que meus amigos e colegas dessas áreas entendem bem melhor a situação e podem nos guiar nessas discussões futuramente.


Mas, voltando à questão principal da Ciência e da Educação. Já falamos bastante em uma postagem recente sobre a questão da reconstrução da pesquisa e educação no Brasil a partir de 2023, tenho participado de alguns eventos com essa temática, organizados principalmente a partir das informações otimistas que sugeriam uma vitória de Lula, talvez até no primeiro turno (o que não se concretizou)! Nesses eventos, invariavelmente, a narrativa é que primeiro discutimos todos os estragos que foram feitos pelo (des)governo atual, com um foco maior nas questões de redução drástica de orçamento, que são obviamente importantes. O ponto crucial é como faremos para restaurar esses orçamentos e obter mais recursos financeiros, eventualmente em como reverter a “fuga de cérebros” acelerada nesses últimos anos. Fala-se talvez um pouco menos na questão do avanço do negacionismo, embora por causa da pandemia e da enorme quantidade de “Fake News” nas eleições o tema seja mais abordado em algumas falas.





Não acho que seja tão simples, pois sempre vi uma associação muito forte entre educação e capacidade de pensamento crítico e avanço da ciência. Racionalmente, sei que isso é consequência da minha visão iluminista ingênua e do fato de trabalhar com questões teóricas e abstratas e não com ciência aplicada ou tecnologia...É a vida. Tudo bem, realmente todas essas questões de financiamento são críticas, entendo que são a base de tudo, mas acho que talvez tenhamos aí pelo menos algumas interações mais complexas, de modo que minha percepção dos problemas ligados ao avanço do negacionismo ganha importância. Assim, ao contrário do que possa sugerir inclusive o título desta postagem, RECONSTRUIR e RESISTIR não são ações que teremos que fazer de forma mutuamente exclusiva, considerando os cenários de vitória de Lula (reconstruir) ou Bolsonaro (resistir) no 2º. Turno das eleições no dia 30/10/2022.


Sendo otimista e assumindo que Lula realmente consiga vencer, teremos que reconstruir muita coisa, sem dúvida nenhuma, em todas as áreas da educação, ciência, cultura, artes, direitos humanos etc. Mas o que um próximo governo Lula poderá fazer em termos de educação e ciência, de fato, é nos dar um horizonte de mudanças possíveis, nos dar perspectivas (e esperança, falando mais emocionalmente) de que a situação pode melhorar no futuro não tão próximo. Estou pensando na questão dos cortes de orçamento inicialmente, pois restaurar recursos para Ciência e Educação vai exigir uma melhora considerável na Economia no geral, e certamente há outras prioridades do que Ciência, especialmente Ciência básica.


Em termos de percepção mais ampla, claro que Educação será prioridade em um Governo Lula, é mais óbvio e apelativo, e Lula sempre menciona isso e fala do seu orgulho de ter ampliado as vagas nas Universidades públicas e a criação de centenas de Institutos Federais. Em termos de C&T, as questões orçamentárias podem até melhorar um pouco, e é possível (talvez provável?) que pelo menos o governo Federal pare de contingenciar os recursos que ainda sobraram para a manutenção básica das Universidades e dos IFs. Pode ser que não se contingencie mais os recursos do FNDCT, o que já resolve muitos dos problemas do CNPq, CAPES e FINEP.


Entretanto, sem dúvida nenhuma, temos um problema sério de educação básica, agravado pela pandemia, e por mais que se diga que formamos, nas Universidades e nos IFs, os professores e profissionais que atuam em tantas áreas críticas para o avanço da sociedade, as coisas serão difíceis. Sempre disse que o ponto principal para melhor a educação é melhorar a qualificação e valorizar (economicamente mesmo) os professores, isso seria prioritário. Mas isso exige muitas mudanças, inclusive ampliar a participação econômica do Governo Federal na Educação básica (lembrem que os níveis fundamental e médio são atualmente responsabilidade dos municípios e estados, respectivamente). Talvez federalizar tudo? Vai haver mais regulação? Não sei, mas certamente é bem complexo tanto sob o ponto de vista político quanto econômico. E não podemos ignorar, ao mesmo tempo, que não é só uma questão de valorização profissional, haja vista a posição reacionária ou negacionista de muitos médicos, advogados, juristas e engenheiros, para mencionar apenas algumas das profissões tradicionalmente mais valorizadas...


De novo, pelo menos deve haver mais prioridade nas ações e um ambiente mais favorável às discussões. Pensando no outro componente dos problemas atuais, uma grande vantagem da vitória de Lula seria que não veremos (espero) o Governo incentivar o negacionismo e a pseudociência. Vejam que estou até otimista aqui, mas será que é tão simples assim? Há vários “senões” que precisamos manter sempre em mente.


Em primeiro lugar, em relação ao orçamento, precisamos ter paciência. Como disse anteriormente, acho que a Economia não vai melhorar tão rapidamente, e aí a principal ameaça é que os próprios apoiadores percam a paciência e comecem a criticar tudo. Já vimos isso acontecer, “fogo amigo”, como se diz...E em relação ao componente do negacionismo e da pseudociência? Para mim, como vocês já sabem, esse é o principal problema, e ele não vai desaparecer, simplesmente porque a sociedade está impregnada dessas questões. Vemos nas próprias Universidades o avanço de muitas dessas práticas e precisamos urgentemente rediscutir a questão da demarcação e falar dos limites da pluralidade do pensamento científico (isso é um tema de uma postagem mais específica que ainda estou devendo...). E a questão das posições reacionários e a alienação de tantos profissionais que formamos nas Universidades? Portanto, não é só uma questão de orçamento, é preciso repensar muita coisa na Universidade, temos muitos “telhados de vidro” que precisam ser discutidos...Em algum momento vamos ter que fazer isso e "colocar o dedo nessas feridas", como se diz.


Temos que pensar também no avanço do segmento religioso fundamentalista, que explica inclusive uma boa parte a votação expressiva em Bolsonaro, por causa da pauta de costumes. Claro, temos algumas pessoas progressistas ai nesse campo, e gostei muito das falas recentes da vereadora Aava Santiago aqui do PSDB de Goiânia, que tem feito um excelente trabalho para tentar desfazer a imagem do “mito” entre os evangélicos. Aliás, diga-se de passagem, eu ingenuamente falava (falo) que o problema dos evangélicos era aceitar a ideia de evolução!!!! Tudo bem, pode ser até um “indicador” dos problemas que estamos vendo, em termos de visão de mundo e mentalidade, mas a questão é bem mais séria e acho que vamos ter que mudar a maneira de lidar com tudo isso. Há outros problemas de mentalidade e percepção cuja resolução se mostra prioritária. Um bom tema para uma próxima postagem, quem sabe...


Enfim, muitas questões para pensar, e tudo isso vai fazer parte de um processo de resistência (e resiliência), de ampliar a nossa capacidade de conversar, convencer e ter paciência para, durante um bom tempo, encontrar forças para resistir às tentativas de frustrar a reconstrução dos vários setores pelos segmentos conservadores da sociedade que se revelaram e ganharam tanta força nos últimos anos. Isso vai exigir lidar também com o “fogo amigo” e mostrar que resistência vai implicar também em paciência. Como já disse, depois de tanto estrago, não vai ser simples, não vai ser barato e não vai ser rápido! Isso no cenário otimista de Lula ganhar...

Se, por outro lado, Bolsonaro conseguir reverter a situação que está se desenhando a partir das várias pesquisas e ganhar as eleições, nem sei bem o que falar...Concordo que aí é só resistir mesmo e ver o sistema continuar a ser destruído. Vai ser difícil reconstruir e na melhor das hipóteses a tentativa é mitigar os estragos, com poucas chances de sucesso. Nem considerei o cenário de Lula sair vitorioso das urnas mas as coisas saírem do controle e se complicarem em um golpe de estado. Pouco provável, dizem alguns, mas é uma possibilidade que levaria o problema a um extremo. As consequências seriam mais imprevisíveis, mas o fato de um governo golpista ser ilegítimo em um paradigma democrático, na prática, não muda muita coisa, exatamente porque o paradigma colapsou...


Emblematicamente, vimos na semana passada a notícia de que há discussões em curso sobre fundir o MCTI com o Ministério de Indústria e Comércio, com uma clara intenção de se apropriar dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) (e sinalizar, mais uma vez, o desprestígio da atividade científica no país). Depois de muitas idas e vindas, angústias e incertezas em 2021, vimos mais uma vez diversas manobras para contingenciar esses recursos e vários programas de C&T serem cancelados ou suspensos na CAPES, CNPq e FINEP (o corte no orçamento das Universidades foi apenas aparentemente revertido às vésperas das eleições após manifestações dos docentes e estudantes em todo o Brasil, mas o resto...). Como já disse antes, "cronicas de uma morte anunciada"!


Finalizando, o problema principal é que, no caso de Bolsonaro vencer, teremos uma sinergia dos dois componentes, do corte dos recursos e do avanço da pauta conservadora e do negacionismo, incluindo uma visão aterrorizante da instalação de uma ditadura teocrática, como mencionado algumas vezes por Michele Bolsonaro e Damares Alves. Se isso acontecer, não sei bem de onde tiraremos força e motivação para resistir. Mas vamos deixar isso para um próximo momento. Por hora, oscilo entre os extremos de otimismo e pessimismo, e quando estou exausto e ligeiramente deprimido, me lembro das palavras do capitão Nemo ao Professor Arronax durante a visita à biblioteca e às coleções de história natural do Nautilus, em “Vinte Mil Léguas Submarinas”:


Para mim o mundo acabou no dia em que o meu Nautilus mergulhou pela primeira vez nas águas. Nesse dia comprei meus últimos volumes, as minhas últimas brochuras, os meus últimos jornais e, de então para cá, é como se a humanidade não tenha nem escrito nem pensado mais ...os mestres não têm idade...na memória dos mortos apagam-se as diferenças cronológicas, e eu, senhor professor, estou morto, tão morto como aqueles dos seus amigos que hoje estão cobertos por sete palmos de terra.

Mas vamos em frente...!!!




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