• José Alexandre F. Diniz F

Uma Crítica ao Programa de Divulgação Científica

Atualizado: 14 de Nov de 2019

Especialmente em tempos de crises políticas e econômicas, nas quais os recursos para pesquisa e educação são considerados como não-prioritários e drasticamente reduzidos (pelo menos em países subdesenvolvidos...), surge uma cobrança crescente para que os pesquisadores e professores das universidades mostrem a importância do seu trabalho para a sociedade. A saída mais rápida para isso é tentar explicar em uma linguagem simples e por meio de diversos outros meios de comunicação (além dos meios usados na própria prática científica) a importância da nossa pesquisa. De fato, já há alguns anos existe uma cobrança do CNPq e da CAPES nessa direção e temos visto, especialmente nos últimos meses, uma grande quantidade de material com esse tipo de informação sendo veiculada em todas as mídias (e minha impressão é que às vezes os pesquisadores “forçam a barra” nesse sentido de aplicação e importância - já discutimos um pouco isso em uma postagem anterior, sobre a importância e a relevância da pesquisa científica, usando o “argumento do bebê”). Em princípio está tudo certo com essas ações, mas existem alguns pontos importantes que temos que discutir melhor.


Quero aqui fazer algumas reflexões que me levam a criticar (de forma construtiva, espero) o nosso "programa de divulgação e popularização da ciência". Para ser honesto, na realidade a própria crítica é paradoxal, no sentido de que a faço em um contexto de divulgação científica e, como apresentarei a seguir, muitos dos meus argumentos vêm de grandes divulgadores da ciência, como Carl Sagan, Richard Dawkins, E. O. Wilson e Yuval Harari, dentre outros. Trabalhando na área de Ecologia e Biologia Evolutiva, tive a felicidade de crescer e amadurecer intelectualmente lendo dezenas de livros de divulgação científica de muitos pesquisadores e professores brilhantes que admiro profundamente e essas leituras sempre me estimularam. Então, qual o problema?



O que chamo de “programa de divulgação científica” não é algo tão estruturado e formal, mas envolve uma série difusa de ações individuais e coletivas de pesquisadores e educadores que começam a dirigir suas atividades para popularizar a ciência e promover uma maior inserção social das ideias cientificas, sendo em muitos casos essas as principais ações de “extensão” desses grupos nas Universidades (como já falamos na postagem sobre o tripé “ensino-pesquisa-extensão). Em muitos casos essas iniciativas são apoiadas por editais e chamadas de órgãos de fomento públicos ou privados para desenvolver projetos de divulgação científica.


Mas vamos ao ponto...No contexto das atividades dos docentes das Universidades e pesquisadores, que tenho discutido bastante aqui no blog, quero chamar atenção inicialmente para o fato de que, em geral, esses docentes e pesquisadores não possuem uma formação como “comunicadores”, muito menos jornalistas (embora o fato dos docentes trabalharem com ensino seja um ótimo ponto de partida para tentar explicar a ciência em linguagem mais simples, claro...). Mas acho que há muitas outras dificuldades práticas, especialmente considerando que, com a chegada da internet, há diversos componentes sociológicos e psicológicos importantes que devem ser considerados, além de questões mais específicas e técnicas da área de comunicação. Há hoje uma enorme diversidade nos meios e canais de comunicação, com especificidades que incluem uma linguagem dinâmica e acelerada, rapidez das mudanças de percepção entre gerações a respeito da importância dos acontecimentos, bem como um anseio quase incontrolável da sociedade por “novidade”. Acho muito importante lembrar do conflito “geracional”, no sentido de que com uma aceleração na tecnologia e nas formas de comunicação, a “distancia” entre o modo de ver o mundo de pessoas relativamente próximas em idade aumenta rapidamente. Claro, a ciência em si faz parte desse movimento, mas poderia talvez usar melhor todos esses canais e se apropriar deles (talvez por uma melhor interação com profissionais da área, incluindo hoje jornalistas com especialização em jornalismo científico).


Nesse sentido, mesmo que um pesquisador ou docente consiga superar essas dificuldades, será que é justo exigir realmente que as pessoas que produzem ciência sejam também responsáveis por sua popularização? Digo isso porque, no contexto sobre atividades acadêmicas, especialmente nas universidades brasileiras, já discutimos alguma vezes que, em geral, os professores no Brasil estão sobrecarregados e têm que desempenhar uma série de funções administrativas, além do ensino e da formação de recursos humanos, em condições às vezes não muito favoráveis (pelo menos quando comparadas às de outros países). Além disso, fazer pesquisa de qualidade, de nível internacional, requer muito esforço e dedicação, especialmente considerando os poucos recursos disponíveis e a história recente de todo o processo no Brasil. Mesmo em outros países existe uma discussão sobre o que ficou conhecido (injustamente, diga-se de passagem...) como “efeito Sagan”, com a ideia de que um pesquisador, quando passa a se dedicar à divulgação e popularização da ciência, especialmente quando atinge um nível de “popstar”, como Carl Sagan, deixa de produzir ciência de alto nível (o que não era de fato bem verdade no caso do Sagan; vejam também uma discussão interessante sobre esse efeito no caso do Stephen Jay Gould, quando na época de sua morte). Além disso, nesse contexto do trabalho do pesquisador, vejo também às vezes um risco sério de “banalizar” a ciência, às vezes em uma tentativa desesperada (mas honesta, entendo) de atrair a atenção das pessoas. Por exemplo, muitos tentam mostrar a ciência como algo simples e “divertido”. Realmente tem que ser divertido, sempre defendemos isso, mas ao mesmo tempo isso não significa que a ciência seja simples (muito pelo contrário) e que não envolva sempre muita dedicação e um trabalho árduo...


Saindo dessas questões mais “práticas” e passando para um ponto de vista mais conceitual, temos outros problemas para discutir...Vamos começar pensando sobre o que vamos de fato “comunicar” ao público em geral em relação à ciência? Eu particularmente acho que temos que reforçar primeiro a questão do “encantamento” pela ciência. Ou seja, podemos até tentar divulgar e mostrar que existem “fatos” científicos importantes que conhecemos sobre o mundo, mas esses “fatos” têm que ser suficientes interessantes para despertar uma maior curiosidade sobre sua origem, o que levaria a uma compreensão cada vez sobre a natureza da ciência. Isso para mim é muito importante talvez porque um dos primeiros livros de divulgação científica que lembro de ter lido, há muitos anos atrás, claro, foi justamente o “Romance da Ciência”, de Carl Sagan (minha edição em português é de 1985). O argumento central do livro é que a ciência é muito mais interessante e surpreendente do que conseguimos imaginar a partir dos nossos sentidos e do nosso conhecimento do dia-a-dia. Para ilustrar com um exemplo próximo da minha área de trabalho, em biodiversidade, se olharmos as características dos seres extraterrestres nos filmes e livros de ficção científica, eles são muito menos variáveis e interessantes do que as dezenas de milhares de seres vivos “estranhos” que realmente existem no nosso mundo, em termos de comportamento, modo de vida, reprodução etc. (e não devemos cansar de repetir que, a despeito disso, continuamos destruindo o ambiente e com ele toda a biodiversidade...).


Entretanto, acho que esse componente de “encantamento” nem sempre é valorizado ou devidamente enfatizado. Há uma tendência de mostrar para a sociedade “aplicações práticas” que, de fato, seriam auto-evidentes, esquecendo de que a ciência é, de fato, mais do que isso. É o que poderíamos colocar como o “argumento da frigideira antiaderente”. Richard Dawkins refere-se a esse ponto de forma irônica (claro) e mostra que muitas pessoas têm tentado justificar a exploração espacial por meio dos benefícios “práticos” desta, como o desenvolvimento do teflon...De fato, apesar dos incontáveis avanços tecnológicos gerados a partir dos desafios da exploração espacial, acho que é muito mais importante pensar em muitos “encantamentos”, em termos de avanços na concepção sobre o Universo e sobre o nosso lugar na natureza. Pelo menos ingenuamente, a exploração espacial foi movida pelo nosso impulso de exploração e curiosidade, o mesmo pelo levou os primeiros Homo erectus a sair da África há quase 2 milhões de anos atrás, que levou as tribos polinésias por grandes explorações pelo oceano Pacífico e que levou Magalhães, Colombo e Cook a se aventurar para fora da Europa e conhecer o resto do mundo...[Ok, não precisamos também entrar no argumento que estes últimos marcam o início do imperialismo europeu que destruiu posteriormente dezenas ou centenas de civilização e culturas pelo mundo... agora que conhecemos mais a História e estamos mais conscientes do problema, podemos tomar mais cuidado agora e poderíamos adotar boas práticas (vejam o que diz a "1ª. Diretriz” de Star Trek). Vamos esquecer também por um momento que, na prática, o início da exploração do espaço aconteceu também no contexto da “guerra fria” entre EUA e USSR e que sabemos que a exploração espacial só vai voltar efetivamente se houver um grande interesse econômico subjacente a ela, motivado pelo capital...]


Voltando ao ponto...Se vamos divulgar apenas questões práticas e aplicadas, como temos visto tantas vezes nos últimos meses, corremos sempre o risco de divulgar apenas uma concepção de ciência mais ligada à tecnologia e, como discutimos anteriormente, esta nem sempre está alinhada com os valores Mertonianos da ciência e nem sempre são feitas realmente para melhorar a sociedade. Além disso, porque sempre pensamos em questões “práticas” e mais “importantes” apenas no contexto das ciências “hard” e de tecnologia, como física, química e biologia? No contexto prático, não seria muito importante divulgar o que conhecemos sobre vários campos das ciências humanas e sociais, pois são elas que nos permitem entender a nossa estrutura social e nosso comportamento individual ou coletivo? E mesmo saindo um pouco do âmbito científico propriamente dito, porque não divulgarmos mais nosso conhecimento estabelecido ou consensual sobre teoria do direito, ética e filosofia política? Curioso... não é à toa que os Estados totalitários ou com tendências à repressão rapidamente querem dizer que investem na ciência por meio de tecnologia e ignoram as ciências sociais e humanas, certo?


Há outro problema conceitual que considero fundamental na discussão sobre a comunicação científica e que tenho chamado há alguns anos, talvez ingenuamente, (como veremos abaixo), de “paradoxo da divulgação cientifica” (vejam a postagem anterior sobre o “Dia C” da Ciência, com uma palestra que ministrei em 2017). Em resumo, a ideia do paradoxo é a seguinte: vivemos hoje, para usar novamente uma expressão de Carl Sagan, em uma “civilização tecnológica” e tudo que nos cerca, direta ou indiretamente, é produto da ciência e da tecnologia que se desenvolveu a partir da revolução científica do século XVII, amplificada após a revolução industrial já nos séculos XIX e coroada pela revolução tecnológica e digital do século XX. Além disso, dentro do contexto moderno de comunicação e difusão da informação, a ciência está presente a todo momento nas diferentes mídias e, honestamente, temos que reconhecer que nunca houve tanto acesso à informação científica em tempo real e de forma tão adequada, em termos de linguagem e apelo visual e aos sentidos. Por exemplo, o programa Cosmos de Carl Sagan, lançado em 1980, foi considerado “revolucionário” à época, com efeitos especiais que se equiparavam aos de Star Wars (recém-lançado na época também e um estouro de bilheteria, que como todos sabem iniciou uma franquia multimilionária). Mas alguém que assista a Cosmos hoje não vai perceber o caráter inovador e o enorme investimento feito à época (acho), pois hoje documentários sofisticados são comuns e podemos encontrar centenas deles sobre praticamente qualquer assunto científico em uma busca rápida no YouTube.


O paradoxo, portanto, surge então da questão: se há tanta informação de alta qualidade científica disponível hoje, por que existe o programa de divulgação científica? Por que precisamos nos preocupar em divulgar algo que é inerente à nossa vida, o tempo todo? Precisamos disso porque, paradoxalmente, as pessoas não sabem o que é ciência e não entendem o que se passa ao seu redor. Não é estranho que tenhamos, em pleno século XXI, tantas discussões sobre criacionismo, Terra plana, OVNIs e deuses-astronautas, mesmo entre pessoas esclarecidas e com alto grau de instrução? Ao mesmo tempo em que achamos milhares de documentários no YouTube sobre ciência, achamos uma enormidade de material sobre todas as formas de misticismo, pseudociência, negacionismo e teorias da conspiração. É como se continuássemos na Idade Média, uma sociedade com baixa autoestima e dominada por crendices e superstições, envolta no misticismo, mas ao mesmo tempo utilizando “smartphones” conectados via satélite à internet e se deslocando pelas cidades inteligentes em carros sofisticados guiados por um sistema global de navegação (GPS) por satélite. Parece que realmente a máxima do futurólogo e escritor de ficção científica Arthur Clarke (1917-2008) se aplica: “qualquer forma suficientemente avançada de ciência pode ser entendida como magia”. Aliás, Dawkins chama atenção para o fato dessa lei de Clarke não ser reversível, ou seja, a “magia” de hoje não é uma forma de ciência avançada que não conhecemos na nossa civilização e que iremos descobrir no futuro (essa posição às vezes é usada por algumas pessoas para sustentar a ideia do relativismo cultural na ciência, ou mesmo defender algumas formas de pseudociência, que seriam magia para nós hoje mas passarão a ser ciência no futuro).


Enfim, as pessoas usam e se beneficiam da ciência e tecnologia, mas não conseguem compreender sua origem e, aparentemente, se deixam levar e embarcam em uma visão de mundo simplista e medieval, envolta em misticismos e magia, guiadas puramente pelas percepções dos seus sentidos biológicos e instintos mais profundos. Ajudadas pela mídia e pelas redes sociais, que impõe uma campanha de desinformação e de “fake news” seguindo interesses políticos, religiosos ou econômicos, vivemos no que tem sido chamada de era da “pós-verdade” (para os interessados nas implicações gerais, especialmente no contexto político, sugiro o excelente livro “A Morte da Verdade”, da ex-editora do New York Times Michiko Kakutani, além do “Post-truth” de Lee McIntyre).


No nosso contexto de ciência e tecnologia, a era da pós-verdade significa que hoje as pessoas acham que possuem o direito de concordar ou não com uma teoria científica e de questionar uma evidência, mesmo que elas não sejam cientistas, não tenham uma formação científica na área e nem mesmo entendam a evidência, como já discutimos anteriormente. O que vale é a sua vontade e a sua crença... É claro que as pessoas podem, por razões pessoais e de forma livre, simpatizar com diferentes ideologias ou serem convertidas a diferentes crenças religiosas. Isso faz parte da natureza humana, inclusive porque, segundo o historiador israelense Yuval Harari, em seu excelente Sapiens, nossa estrutura social evoluiu se baseando na construção e aceitação coletiva de mitos e realidades imaginadas. Claro, em uma sociedade democrática e partindo de princípios amplamente aceitos e difundidos na própria ciência, temos que manter e respeitar as liberdades individuais. Mas se essas atitudes de crença envolvem questionamentos sobre a evidência científica, passa a ser mais difícil lidar com essa liberdade de opiniões, pois perdemos totalmente o controle sobre a “realidade”, como já discutimos extensivamente na postagem sobre a “matriz de Sagan”. Isso é, concordo, um terreno pantanoso e um assunto delicado, pois rapidamente podemos decair para uma ditadura tecnocrata...De qualquer modo, mais sério, essa negação da ciência, cada vez mais, pode levar a problemas mais coletivos e em escala global, ameaçando toda a civilização, como no caso das mudanças climáticas ou das vacinas. Como lidar com essa situação? Precisamos de uma nova ética, uma nova conduta, que garanta direitos coletivos e mesmo das gerações futuras? Difícil...


Enfim, voltando à critica, tenho pensado que a minha percepção desse problema da divulgação científica como um paradoxo é, na realidade, fruto de uma falta de compreensão sobre como as pessoas funcionam. Reconheço que isso advém da minha crença quase que infantil na importância da ciência e da educação (afinal, sou professor há quase 30 anos...), nos ideais iluministas, na liberdade e, em alguns raros momentos, até na própria visão de Rousseau sobre a “bondade intrínseca” na natureza humana (pelo menos depois da revolução científica...). Mas novamente Yuval Harari me chamou atenção para o fato de que, infelizmente, os humanos raramente pensam por si próprios, eles pensam em grupos... Acho que o trecho abaixo, extraído do capítulo 15 do seu livro mais recente, “21 Lições para o Século XXI”, diz muita coisa sobre o que penso sobre a divulgação científica:


“É improvável que oferecer às pessoas mais informações melhore a situação. Cientistas esperam poder dissipar concepções equivocadas com educação científica, e especialistas esperam influir na opinião pública em questões como o Obamacare ou o aquecimento global apresentando ao público fatos precisos e relatórios de especialistas. Essas esperanças baseiam-se numa compreensão equivocada de como os humanos efetivamente pensam. A maior parte de nossas opiniões é formada por pensamento comunitário e não em racionalidade individual, e adotamos essas opiniões por lealdade ao grupo. Bombardear pessoas com fatos e expor sua ignorância individual provavelmente será um tiro pela culatra. A maioria das pessoas não gosta de dados demais, e certamente não gosta de se sentir idiota.”



Em tempo, sempre ouvimos alguém se referir à idade média como sendo a “idade das trevas”, onde reinava o obscurantismo e a ignorância, com uma dominação religiosa dogmática capaz de eliminar milhões de pessoas acusadas de “bruxaria” em nome da fé. O Renascimento Cultural iniciado no século XV e o movimento iluminista de Locke, Kant, Spinoza, Hume, Condorcet, dentre tantos outros, veio, como o próprio nome sugere, para iluminar a mente humana e “libertar” as pessoas da ignorância e das “trevas”. Cada pessoa teria liberdade para desenvolver e discutir com propriedade suas próprias visões de mundo em uma sociedade aberta e plural. Entretanto, se pensarmos no avanço do conhecimento científico atual e na percepção da sociedade sobre ele, parece que o ideal iluminista não foi tão bem-sucedido assim, talvez pela razão que Harari sugere no texto acima. Será que podemos mesmo dizer que a sociedade medieval era mais ignorante do que a do início do século XXI? E. O. Wilson, no seu fantástico “Consiliência”, sugere que não: o iluminismo, pelo menos como princípio norteador da ciência, falhou...Dependendo do ponto de vista, acho que não é injusto dizer que, de fato, a ignorância aumentou ao longo dos séculos. Hoje a distância entre a média do conhecimento individual em muitas sociedades em relação ao que realmente sabemos (cientificamente) sobre o mundo aumentou muito! Talvez seja preciso, com tenho dito várias vezes parafraseando Steve Pinker, repactuar o iluminismo, começar do zero melhorando a educação da nossa sociedade como um todo (embora a visão dele seja bem mais otimista do que a de Wilson em relação ao progresso nos últimos 250 anos). O programa de divulgação científica tem justamente o objetivo de diminuir essa distância e reduzir a ignorância. Mas e se a distância aumentou, e continua aumentando ao que parece, o que isso significa?


Assim, diante de tudo o que coloquei acima, espero que entendam minha descrença com o nosso programa de divulgação científica. Isso não significa que não valorizo o esforço que tantos colegas (e muitas vezes eu mesmo) têm feito nesse sentido...Não é decepção pelo esforço que tem sido feito, apenas falta de confiança no seu sucesso. Acho que temos que continuar tentando e defendendo a ciência e as instituições científicas, tanto as Universidades como as agências que apoiam, fomentam e regulam a ciência, como a CAPES, o CNPq, a FINEP e as Agências Estaduais de Amparo à Pesquisa, dentre outras. Isso é particularmente importante no Brasil de 2019. Mas receio que o problema seja muito mais profundo do que simplesmente querer aumentar a quantidade de informação “disponível” para a sociedade de modo que esta passe a nos apoiar, como colocou Harari.


Sendo mais propositivo, acho que temos que entender melhor a origem dos problemas e, a partir daí, tentar achar a melhor solução. Temos que discutir exaustivamente isso e honestamente identificar os problemas para propor soluções. Esse problema do aumento da ignorância é mais amplo e reflete um baixo “capital cultural” no Brasil? Ou é algo mais localizado? Sem dúvida parece ser uma questão mais ampla de educação, que teria que ser atacada em fases muito iniciais da formação das nossas crianças (e de fato isso significa, de saída, melhorar e muito a qualidade das nossas licenciaturas e da carreira de professor; mas isso não é o que temos observado nas políticas de educação e na economia...). Mas, nesse caso, como “competir” com outras formas de doutrinação religiosa e fundamentalista que são muitas vezes motivadas por ganhos econômicos e político-eleitorais espúrios, mas que ao mesmo tempo, em muitas situações, cobrem falhas do próprio Estado em termos de apoio emocional, psicológico e mesmo educacional a famílias e outros segmentos marginalizados e abandonados da Sociedade? Como alcançar essa capilaridade na transmissão da informação e combater doutrinação e “fake news” impostas quase que diariamente a esses segmentos? E como combater os interesses econômicos e eleitorais espúrios e inescrupulosos que muitas vezes estão subjacentes a essas ações aparentemente bondosas e humanitárias?


Se o problema que temos está relacionado com tudo o que coloquei acima, não vejo como a solução seja tentar, com grande esforço, colocar mais e mais informações à disposição da Sociedade sobre a ciência e sobre o que se faz de pesquisa nas universidades. Não é uma questão de quantidade/qualidade de informação, mas sim de problemas mais amplos de estrutura social (com implicações em termos de compreensão política e religiosa do mundo, ligada com aspectos psicológicos e cognitivos, por parte das pessoas). Diante de um problema desse tamanho, a visão de um pesquisador ou grupo de estudantes mostrando seus projetos de pesquisa em uma feira de ciências em um domingo de manhã no parque da cidade pode parecer (e talvez seja) realmente heroica... Mas ela é, ao mesmo tempo, me perdoem, ingênua e irremediavelmente fadada ao fracasso.

Em síntese, acho que nosso programa de divulgação científica, pelo menos na forma atual, deveria ser seriamente repensado, pelas várias razões discutidas acima. Na minha opinião, as consequências do insucesso são imprevisíveis em médio/longo prazo para a sociedade como um todo, diante dos grandes problemas que temos que enfrentar em escala global. Obviamente meu prognóstico não é bom porque, talvez de forma ingênua, continuo acreditando no poder da Ciência...Então precisamos com urgência aprender, como comunidade científica, a nos comunicarmos de forma eficiente no século XXI, estabelecendo estratégias para ultrapassar barreiras sociais e econômicas e mostrar a beleza da ciência para pessoas que resistem, por diversas razões, ao pensamento racional. Não acho que seja sempre o caso dos cientistas se envolverem diretamente nessa divulgação de forma individual, mas é certamente importante buscar apoio e tentar estabelecer mecanismos de integração com outros profissionais das áreas de jornalismo e comunicação para que essas ações sejam feitas de forma profissional por pessoas competentes e com conhecimento (científico) para torná-las mais efetivas. Mas, enquanto isso, vamos continuar indo aos parques aos domingos...E ao bar, quem sabe?






Capa: Pint of Science em Goiânia, em 2018.

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