• José Alexandre F. Diniz F

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e o "Dia C" da Ciência


O "Dia C" da Ciência foi criado em 2017, a partir de uma iniciativa de minha amiga e colega na UFG, a Profa. Maria Clorinda Fioravanti, atualmente Diretora da Escola de Veterinária e Zootecnica e à época Pró-Reitora de Pesquisa e Inovação da UFG e representante das Universidades Federais do Forum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP) na ANDIFES. A ideia foi criar um movimento de impacto, pelo menos um dia no qual diversas atividades de divulgação e popularização da ciência estivessem concentradas, chamando ao máximo a atenção da sociedade durante Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). Esta semana, por sua vez, é uma iniciativa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC) e acontece há vários anos (estamos em 2019 na 16a. edicão), concentrando eventos acadêmicos e diversas iniciativas nas Universidades e Centros de Pesquisa por todo o país.


Em 2017, a Profa. Clorinda me convidou para fazer a palestra de abertura do evento, que ocorreu no dia 25 de outubro de 2017 na sede do Instituto de Educação de Goiás (IEG) em Goiânia. Após a abertura, além de diversos eventos de divulgação e popularização da ciência em diferentes locais da cidade, houve também uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, especialmente focada na defesa da Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás, a FAPEG.


Naqueles dias, depois do impeachment da ex-presidente Dilma Roussef e na incerteza dos primeiros meses do Governo Temer, resolvi falar na abertura sobre o "Paradoxo da Divulgação Científica". Transcrevo a seguir a palestra que ministrei naquele dia. Ela foi depois modificada e ampliada para diversos outros eventos subsequentes...A minha preocupação com as dificuldades inerentes à divulgação científica em nossa sociedade, dominada por fake news e visões negacionistas e pseudocientíficas, só aumentou desde então. Em geral acho que a minha percepção, embora amadurecida hoje, continua atual, mas confesso que, naquele momento, não poderia imaginar que a situação da Ciência e Tecnologia no Brasil estaria tão deteriorada como está agora, 2 anos depois...




Em 25 de outubro de 2017...



Quero fazer aqui algumas reflexões sobre esse momento no qual vivemos, tanto em relação à realidade Brasileira quanto em relação a esse momento na própria história humana.


Na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), um evento que ocorre continuamente todos os anos há 14 anos, vemos muitas manifestações sobre a importância da Ciência & Tecnologia (C&T) para o desenvolvimento social e econômico do Brasil. Ouvimos muito sobre a importância da C&T em diversos aspectos da nossa vida, tentando mostrar, por exemplo, que o sucesso do Agronegócio brasileiro (e em particular de Goiás) se deve em grande parte ao avanço nos procedimentos de melhoramento genético e biotecnologia, e não ao fato de estarmos em uma terra que “...em se plantando tudo dá”, como disse Pero Vaz de Caminha há mais de 5 séculos atrás. Sabemos da importância da C&T na produção de medicamentos, no desenvolvimento de novos combustíveis e novas formas de produzir e distribuir energia, telecomunicações, saneamento básico e urbanismo, etc. Na realidade, generalizando, nada que nos cerca, aqui, hoje, foi criado e executado independente da C&T.


Em um contexto mais amplo, isso fica claro na curva de crescimento populacional humano que, em grande parte, reflete as 3 grandes revoluções na nossa História (Cognitiva, Agrícola e Científica). Notem também que a revolução industrial e tecnológica ocorreu menos de 200 anos após a científica, e isso não foi uma mera coincidência... Entretanto, mais do que o crescimento no número de pessoas, o consumo de energia aumentou de forma ainda mais rápida, impulsionando a nossa civilização. Esse crescimento, ao mesmo tempo, desencadeou uma série de problemas sociais e ambientais, levando à uma importante discussão sobre a “capacidade de suporte” do planeta Terra. Quantas pessoas o planeta Terra é capaz de sustentar?


Como colocou o biólogo matematico Joel Cohen, essa predição de fato depende do que ele chamou de “constante tecnológica”, ou constante de Condorcet, nas equações demográficas. De forma coloquial, poderíamos pensar nessa constante como sendo a chance com que cada pessoa que nasce seja não apenas uma boca para comer, mas também uma mão para trabalhar e, mais importante, um cérebro para pensar e criar. Estamos realmente saturados com quase 7 bilhões de pessoas em 2017, mas de fato a ciência poderia, talvez, até ampliar muito esse número, permitindo uma utilização mais racional, equitativa e melhor distribuída dos recursos naturais.


Assim, C&T fazem parte do nosso cotidiano e estão presentes em tudo o que acontece no nosso dia-a-dia. Como disse Carl Sagan, está claro que vivemos no que podemos chamar de “civilização tecnológica”. Tudo à nossa volta reflete isso... Sendo assim, quero apresentar para vocês um certo “paradoxo”. Se vivemos na civilização tecnológica, porque os cientistas estão sendo constantemente pressionados a se dedicar à divulgação cientifica?


Porque precisamos da SNCT e de todos os movimentos que estão ocorrendo aqui no Brasil (e de fato em vários lugares do mundo, inclusive nos EUA) “em defesa” da ciência? Porque instituímos, em 2017, o “Dia C” da Ciência?


Embora seja algo relativamente recente no Brasil, há muitos anos existe, em todo o mundo, uma grande preocupação com a divulgação da ciência e popularização das atividades de pesquisa. Carl Sagan, com sua série Cosmos dos anos 80, foi um pioneiro, mas temos muitos e muitos outros, em várias áreas da ciência (veja o video no final da postagem). Por que esses cientistas, a grande maioria pesquisadores renomados, dedicam parte do seu tempo para tentar mostrar para as pessoas a importância da ciência, escrevendo livros, artigos, criando blogs e postando uma enorme quantidade de informação nas redes sociais?


Temos algumas respostas à essa questão básica, com muitas linhas de argumentação possíveis. Vou começar com a 3ª. Lei de Clarke, que diz que “toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”. Isso é uma boa pista para o que pode estar acontecendo...


A magia, nesse caso, é algo ao qual apenas poucos iniciados ou privilegiados têm acesso, e é capaz de resolver de forma sobrenatural ou mágica os problemas do mundo. As pessoas comuns não entendem, mas aceitam e reverenciam os resultados. Em um certo sentido, isso é o que ocorre com a ciência hoje. Somos os novos magos!


Além disso, temos que lembrar que a humanidade no início do século XXI está em constante conflito, pois possui “emoções da idade da pedra, autoestima medieval e uma tecnologia divina”, como disse Edward O. Wilson. Esses 3 componentes de percepção estão dessincronizados, estamos confusos com a nossa própria existência. Vivemos em um mundo tecnológico, mas as pessoas não se dão conta disso e não entendem a origem da tecnologia.


Há incoerências por todo lado. As pessoas usam a internet para consultar seu horóscopo gerado em computador utilizando um smartphone e depois ligam para um amigo no outro lado do mundo, via satélite, para lhe pedir para rezar pela cura de um ente querido doente. Em 2015, 42% da população norte-americana, o país mais avançado do mundo em C&T, acreditava em uma versão literal do Genesis na qual o mundo foi criado em 7 dias por uma divindade superior. Outros 38% acreditam em “evolução guiada por Deus”, de modo que apenas algo em torno de 20% da população americana entende realmente o que sabemos sobre a evolução biológica. Ou seja, uma parte elementar da ciência produzida no século XIX ainda não alcançou o século XXI, para uma grande parte da população.


Muitas pessoas vivem à margem do conhecimento científico, em muitos casos sem esperança, na ignorância, e são incapazes de pensar por si mesmas. Sofrem todas as formas de assédio e terminam por acreditam em qualquer forma de ideologia ou religião que lhes seja apresentada, por mais absurdas que estas sejam. Jamais ouviram, por exemplo, as palavras de Santo Agostinho, no século IV; cito:


Santo Agostinho (354 - 430) (cred. Wikipedia Commons)

“Muitas vezes, aqueles que não são cristãos sabem alguma coisa sobre a terra, céus e outros elementos do mundo, sobre o movimento e a órbita das estrelas e mesmo seus tamanhos e posições relativas a previsão de eclipses solares e lunares, o ciclos dos anos e as estações, os tipos de animais, arbustos, pedras e outros objetos. Essas pessoas dizem que o conhecimento é verdadeiro por meio da razão e da experiência. Assim, é vergonhoso e perigoso ouvir um cristão fazer interpretação presumível da Escritura, falando bobagens sobre esses tópicos... ”


O surgimento das "religiões humanistas", para utilizar uma expressão de Yuval Harari no seu fantástico Sapiens, a partir do século XVIII e XIX não impediu que esse tipo de alienação continuasse ocorrendo, pelo contrário. Qual a origem dessa falta de conhecimento e alienação? Acho que podemos pensar em pelo menos duas explicações que, certamente nos ajudam a tentar encontrar saídas para eliminar o paradoxo da divulgação científica e popularização da ciência.


A primeira ideia, mais intuitiva, está na questão mais ampla da EDUCAÇÃO da população, e isso é o pano de fundo de todos os programas de divulgação científica, incluindo o que estamos fazendo agora na SNCT e no "Dia C" da Ciência. É preciso que a sociedade entenda e compreenda as descobertas da ciência e suas implicações. Uma população esclarecida cientificamente deve ser capaz de entender os fatos à sua volta, questionar decisões tomadas e eleger políticos que estejam mais comprometidos com uma visão global e mais objetiva e sólida do mundo que nos cerca ...


Mas, novamente, a ciência está à nossa volta, o que está errado? O que está faltando? Será que apenas a falta de conhecimento sobre assuntos da ciência é que leva ao paradoxo? É apenas uma questão de aumentar o esforço na divulgação científica, como estamos tentando hoje? Pode ser, sem dúvida, mas acho que temos outros componentes importantes.


O ponto é que, para que essa educação seja efetiva, é preciso que haja uma linguagem comum e, mais importância, que os PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS subjacentes à ciência e ao conhecimento humano como um todo sejam melhor compreendidos. Um dos problemas é que a ciência, desde Galileu, é expressa em uma linguagem matemática, o que cria dificuldades para muitos. Aliás, esse é o lema da SNCT 2017, “a Matemática está em tudo”. É preciso reforçar essa ligação entre ciência como algo central na nossa sociedade e a matemática como linguagem!


Galileu Galilei (1564-1643) (cred. wikipedia commons)

Não há dúvidas de que a revolução científica dos séculos XVI e XVII está consolidada, afinal vivemos em uma civilização tecnológica. Entretanto, a revolução filosófica e a visão humanista não estão consolidadas. Os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa, por exemplo, são em geral palavras de impacto, mas poucos entendem o seu real significado. Não é possível, de fato, pensar em ciência de forma dissociada do humanismo, e em especial do humanismo liberal com uma visão pró-educação e igualitária da sociedade.


Infelizmente, não podemos esquecer que o pouco esclarecimento da população e da sociedade, de fato, não é uma prerrogativa da nossa civilização tecnológica moderna. Ao longo da história da humanidade as elites econômicas e políticas utilizaram e monopolizaram o conhecimento para dominar a população e impor suas vontades. Isso sugere que a tarefa de popularizar a ciência é bem mais árdua do que poderíamos imaginar pela nossa visão ingênua do mundo, pois de fato contraria muitos interesses.


Até que ponto efetivamente queremos liberdade para pensar e para criar? Entretanto, como estamos presenciando no final do século XXI, no Brasil e no Mundo, o desrespeito ao conhecimento científico pode levar à extinção da nossa civilização.


A ciência pode ser apenas o início da sabedoria, não o fim. Talvez pudéssemos ouvir mais nosso coração... Mas no nosso tempo de pós-verdade e de tantas visões “relativistas” do mundo, a ameaça da ignorância está se tornando realmente fatal em nível planetário. Antes, a ignorância e a falta de visão do futuro podiam levar (e levaram) várias civilizações ao colapso, mas hoje temos, de fato, uma civilização global. A analogia é óbvia, e o colapso global é uma ameaça real...


Vivemos na civilização tecnológica, mas nos comportamos como crianças imaturas, como colocou Nietzsche... A revolução cognitiva em nossa espécie aconteceu há apenas 70.000 anos e a ciência se desenvolveu de fato apenas nos últimos 300 anos. Muitas angustias e conflitos advém dessas diferentes formas de juventude...


Será que seremos capazes de ultrapassar a “adolescência tecnológica”? Sagan cresceu no auge da “Guerra Fria” e estava preocupado com a possibilidade de uma guerra termonuclear global – um fantasma que pode voltar a nos assombrar nos tempos de Trump e Kin Jong-Um. Ele não tinha como avaliar, na época, o impacto humano no planeta e o que chamamos hoje de “limites planetários”. Esses limites estão sendo rapidamente ultrapassados, potencialmente levando a uma catástrofe em escala planetária tão ruim quanto uma nova guerra mundial. Mas o problema é o mesmo, ou seja, sem ciência e sem nos livrarmos de muitas visões ideológicas nocivas não vamos sobreviver como civilização...


Mas não quero terminar minha fala com uma visão pessimista do futuro. Conscientes de todos esses problemas e do paradoxo que apresentei, vamos continuar tentando ultrapassar essa fase, vamos insistir em mostrar à sociedade que a C&T é o único caminho para o futuro. Precisamos manter a “constante tecnológica” positiva. Nesse sentido, me permitam mais uma analogia final.


Um "Spitfire" MK IX inglês, um dos símbolos da vitoria dos aliados sobre a Alemanha Nazista na 2a. guerra mundial, exibindo as "faixas de invasão", listras pretas e brancas sob a asa, para identificação de aviões aliados no Dia D, 6 de junho de 1944.

O “Dia C” da Ciência no Brasil, hoje, 25 de outubro de 2017, tem claramente uma relação com o “Dia D”, 6 de junho de 1944, quando as tropas aliadas desembarcaram na Normandia a fim de retomar a Europa ocupada pelos nazistas. Esse tipo de expressão tem sido usado para marcar o início de movimento, um dia importante, um “Marco Zero” para alcançar alguma meta. Esperemos que esse movimento do “Dia C” da Ciência no Brasil permita que possamos nos conscientizar, a partir de hoje, que não devemos desistir de lutar contra a ignorância. Usando mais uma vez a visão de Carl Sagan, já no final de sua vida, temos que pensar na C&T como uma vela no escuro, iluminando nosso caminho contra a obscuridade, contra a ignorância e contra toda forma de opressão física e mental, garantindo a liberdade de pensamento para toda a humanidade.




Um depoimento importante de Carl Sagan já no final de sua vida...Em resumo, "Science is a way of thinking..."


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