• José Alexandre F. Diniz F

Darwin, Wilson e o “Racismo Científico”



Comemoramos hoje, dia 12 de fevereiro, o chamado “Darwin Day” em todo mundo. Tenho feito um esforço aqui no “Ciência, Universidade e Outras Ideias” para aproveitar essa data comemorativa e discutir aspectos interessantes do Darwinismo e suas implicações. Já fizemos uma contextualização histórica do pensamento evolutivo, mostrando como Darwin iniciou um “programa de pesquisa” (no sentido Lakatosiano) em Biologia Evolutiva (em 2020) e como a sua ideia sobre a “árvore da vida” foi revolucionária no século XIX e ainda hoje nos permite entender muitos aspectos sobre a diversidade biológica, um texto do meu colega Lucas Jardim (em 2021). Esse ano, entretanto, quero aproveitar a discussão da postagem anterior envolvendo a morte de E. O. Wilson e trazer à tona um aspecto mais sombrio e mais controverso sobre Darwin e a Biologia Evolutiva, envolvendo a questão do chamado “racismo científico” (e que facilmente pode ser estendida às questões envolvendo sexismo e outras formas de discriminação). Veremos também que há novas e perturbadoras revelações sobre E. O. Wilson em relação a isso também...




Darwin e a “Origem do Homem e a Seleção Sexual”


No ensaio publicado na Scientific American atacando E. O. Wilson após sua morte no final de 2021 e que mencionei na postagem anterior, a Dra. Monica McLemore lista alguns cientistas racistas e se pergunta o que devemos fazer em relação a seus legados. Essa lista inclui Darwin, entre muitos outros, de modo que resolvi olhar rapidamente em que ponto está essa discussão. Há uma enorme literatura e muitas controvérsias sobre isso, já há algum tempo, a maior parte centrada na visão de Darwin publicada em seu livro de 1871, “A Origem do Homem e a Seleção Sexual” (publicado, portanto, já próximo à sua morte, que ocorreu em 1882), e nas questões envolvendo o chamado “Darwinismo Social”. O grande mérito do livro de 1871, que de certo modo finaliza o grande projeto de Darwin, é mostrar a continuidade da espécie humana em relação aos outros animais e, além disso, desenvolver o conceito de seleção sexual (que Darwin achava que seria um dos principais mecanismos envolvidos na diferenciação da nossa espécie). Por outro lado, algumas partes do livro são realmente constrangedoras hoje em termos de questões envolvendo racismo e sexismo.


Não há muita dúvida que a visão de Darwin sobre a espécie humana e a questão racial e sexual se alinha, pelo menos em parte, com a visão praticamente unânime da antropologia do século XIX. Claro que não podemos ser ingênuos e deixar de reconhecer que há um componente importante de vários grupos de criacionistas e outros movimentos conservadores querendo desmoralizar a figura de Darwin ao fazer certos questionamentos e assim desacreditar a própria teoria evolutiva. Mas ainda assim é preciso avaliar de forma honesta e isenta muita coisa nesse sentido. Já adiantando, Darwin acreditava que a civilização européia era mais avançada, com os “selvagens” vindo em um nível inferior e intermediário em relação aos grandes macacos, certamente uma visão claramente racista (e que leva como consequência também a uma visão sexista, já que ele acreditava que as mulheres eram também inferiores ao longo dessa escala). Entretanto, isso é realmente estranho no caso de Darwin, afinal, como disse o antropólogo Jeremy DeSilva, do Dartmouth College, ele tinha escrito “A Origem das Espécies” tantos anos antes, “...como pode ter sido tão cego?”. O livro de DeSilva e Browne, “A Most Interesting Problem: What Darwin’s Descent of Man got right and Wrong about Human Evolution”, publicado em 2021, revisa em detalhes e contextualiza a “Origem do Homem e a Seleção Sexual”. Mais especificamente, o capítulo escrito por Agustín Fuentes, professor na Universidade de Princeton, discute a visão de Darwin sobre as "raças humanas" e a questão do racismo e sexismo em seu pensamento.





O ponto central é que se esperaria bem mais de alguém com um espírito tão revolucionário e livre quanto Darwin, tão observador e tão obcecado pela evidência, mesmo diante do pouco que se sabia sobre evolução humana, ainda mais em sua maturidade (ou seria essa justamente a explicação? Passados os “arroubos” da juventude, Darwin teria se tornado mais conservador? Não sei...). De acordo com a visão de mundo e a teoria evolutiva delineada na “Origem das Espécies” de 1859, Darwin não deveria aceitar tão prontamente que houvesse uma hierarquia linear aplicada à espécie humana. Na verdade, como discute Fuentes, o capítulo 7 da “Origem do Homem e a Seleção Sexual” revela um Darwin “indo e voltando” nos argumentos e em alguns momentos “quase” rompendo com a ortodoxia em relação ao conceito de "raça". Mas foi só "quase"...


Mesmo antes de desenvolver sua visão evolutiva, Darwin não aceitava a visão dominante à época de que Deus havia criado as "raças" humanas de forma independente (a visão poligenista, oposta à monogeista que ele adotava) e ele chega enfaticamente à conclusão de que as "raças" são muito mais semelhantes do que diferentes (sic) e que existe apenas uma única espécie humana (teríamos apenas “apenas” subespécies, uma designação mais formal, taxonomicamente, para "raças" ou eventualmente "variedades"). Organizando toda a evidência disponível sobre a variação humana, Darwin percebeu e chegou a mencionar no capítulo 7 a arbitrariedade da delimitação das "raças" e que a variação em algumas características nas populações, como a cor da pele, estava ligada às condições ambientais locais. Ele também não achava que, de modo geral, as diferenças entre essas várias "raças" seriam “intrínsecas” e determinísticas ou que promoveriam barreiras instransponíveis para que houvesse o progresso na direção que ele achava adequada (i.e., em direção à civilização européia). Ele chega a mencionar, nesse sentido, que a convivência dele com negros e fueginos reforçava como as nossas mentes funcionam da mesma forma. Mas no final ele recua e apoia uma hierarquia racial, mostrando que os vieses intrínsecos e o contexto cultural realmente têm uma influência muito forte na percepção dos cientistas, como já discutimos aqui algumas vezes. Assim, de um modo ou de outro, as ideias de Darwin na “Origem do Homem” serviram e ainda servem de base, mesmo 150 anos depois, para sustentar visões de “racismo científico”.


A discussão sobre o racismo de Darwin, claro, não é nova. Por exemplo, em seu ensaio “O Estado Moral do Taiti – e de Darwin”, que apareceu no livro “Eight Little Pigs” de 1993 (1996 no Brasil), Stephen Jay Gould já discutiu de forma brilhante esse tópico e a ambivalência de Darwin em relação à questão das "raças" humanas. Como Gould coloca, pelos padrões atuais, raríssimos Europeus do século XIX não seriam considerados racistas e sexistas. Gould descreve a criação de um certo “mito” de que Darwin seria um desses raros europeus, o que não é bem verdade, como vimos acima. Por outro lado, é claro que o fato de achar que há uma hierarquia racial em termos “civilizatórios” não significava que Darwin apoiasse, por exemplo, a escravidão e os maus tratos às pessoas das "raças inferiores", muito pelo contrário. Sabemos que Darwin era um liberal sob o ponto de vista político (pensando na dura divisão entre liberais e conservadores na Inglaterra vitoriana) e que defendia fortemente ideais abolicionistas, junto com sua esposa Emma Darwin (diferente de alguns amigos mais próximos, como Charles Lyell e Joseph Hooker). Há várias passagens que atestam essa posição abolicionista ferrenha, e por exemplo ainda em 1833, com pouco mais de 24 anos, ele escreveu à sua irmã Catherine, durante a viagem do HMS Beagle


"I have watched how steadily the general feeling, as shown at elections, has been rising against Slavery.— What a proud thing for England, if she is the first European nation which utterly abolishes it.— I was told before leaving England, that after living in Slave countries: all my opinions would be altered; the only alteration I am aware of is forming a much higher estimate of the Negros character.— it is impossible to see a negro & not feel kindly towards him".


Adrian Desmond e James Moore, famosos biógrafos de Darwin, chegam a sustentar a tese, em Darwin’s Sacred Cause, de 2009, que a oposição ao racismo foi o principal “motor” para que ele desenvolvesse sua visão evolutiva no geral (mas não sei se é possível mesmo sustentar essa visão, dado o que discutimos acima; mas vá lá, eles são os biógrafos). De qualquer modo, essa tese se alinha com a noção de que Darwin era certamente “paternalista” em relação às “raças inferiores” e ele queria que estas “melhorassem” e alcançassem o patamar da civilização européia. Esse foi o tema do seu primeiro artigo publicado, em coautoria com o capitão Fitzroy, no qual ele discute a importância dos missionários para que a população de “selvagens” do Taiti tivesse evoluído tanto (e esse é o ponto de partida do ensaio de Gould sobre o tema).


Então, em resumo, podemos dizer que Darwin aceitou, pelo menos em parte - e aí há alguma divergência quanto ao “grau” dessa aceitação - as ideias dos antropólogos contemporâneos, apesar de ter desenvolvido alguns anos antes uma visão tão revolucionária na Biologia. Um pouco decepcionante, sem dúvida, e condenável principalmente em relação ao componente de “paternalismo” justificando o colonialismo inglês e europeu. Mas pelo menos ele não usou o conhecimento biológico e antropológico da época para justificar a escravidão e diferenças intrínsecas e intransponíveis entre esses grupos e “raças”. Como coloca Fuentes, o racismo de Darwin “…was neither intentional nor malicious, but it is an example of how racism is maintained – not by the vitriolic screaming and overt acts of violence by a minority bur rather by passive acceptance of a particular ‘reality’ and promulgation of the ‘status quo’ by a majority”. Gould termina seu ensaio de forma satírica dizendo que Darwin mereceria talvez uma estada no purgatório por causa disso, mas não deveria ir para o inferno! Alguns mais otimistas, como o próprio Fuentes, colocam que se Darwin vivesse em nosso tempo e soubesse o que nós sabemos, ele estaria fortemente alinhado com os nossos ideais de igualdade e promoção da diversidade, sendo totalmente contrário à ideia de uma base biológica para “raças” humanas usadas em tantos movimentos conservadores e de supremacistas brancos, por exemplo. Mas , de qualquer modo, dada a enorme importância que Darwin passou a ter a partir de meados do século XX, o simples fato dele não ter sido capaz de romper com a visão dominante da época em 1871 e ter apoiado a noção geral de “raças” e sua hierarquização teve realmente um efeito desastroso que perdura até os dias de hoje!


Então, considerando as ideias apresentadas na “Origem do Homem e a Seleção Sexual”, como disse Adam Rutherford no The Guardian recentemente, não é uma questão de “cancelar” Darwin por causa disso, mas sim de enfatizar que essas ideias estavam totalmente equivocadas, tanto em termos de racismo quanto de sexismo. Sim, claro, e já discutimos aqui no “Ciência, Universidade e Outras ideias” várias vezes que embora Darwin tenha sido um cientista brilhante e o admiremos pelo seu pioneirismo, criando efetivamente o mais importante programa de pesquisa em Biologia Evolutiva, temos 200 anos de avanços em biologia e sabemos MUITO mais hoje do que Darwin seria capaz de sonhar. Não é isso que está em questão, mas é sempre bom reforçar que a Ciência avança e não temos compromisso com ideias equivocadas do passado, independente de quem as tenha proposto. E obviamente nada disso coloca em xeque qualquer visão sobre a existência de evolução e os seus mecanismos, como colocam alguns criacionistas e conservadores que querem, de forma hipócrita, se apropriar dessa discussão.


Nesse sentido, o que podemos dizer é que o conhecimento científico que temos hoje NÃO justifica qualquer forma de “raça" em um sentido biológico, e muito menos racismo. O que se chama de “racismo científico” é mais uma crença pseudocientífica que distorce a evidência existente sobre a diversidade humana, e que inclusive já estava disponível em um sentido amplo no século XIX (como discutimos acima e como ressalta Fuentes). O principal ponto é que hoje não hierarquizamos a diversidade biológica dessa forma, nem para Homo sapiens nem para qualquer outra espécie. O estabelecimento de “grupos” dentro de uma espécie (ou "raças", ou subespécies) não é uma maneira adequada e coerente de avaliar a dinâmica evolutiva e ecológica de uma espécie ao longo de sua distribuição geográfica.


A variação que existe em espécies de ampla distribuição geográfica, como é o caso de Homo sapiens, ocorre mais frequentemente de forma contínua, gerando diversos gradientes de características fenotípicas e genotípicas. Essa variação reflete tanto adaptações quanto eventos demográficos antigos e atuais, incluindo colapsos populacionais e migrações de longa distância. As análises em grandes escalas que mapearam a diversidade de forma contínua começaram efetivamente com os estudos do grande geneticista Italiano radicado nos EUA Luigi Cavalli-Sforza e seu grupo de pesquisa, sintetizadas em 1996 no “The History and Geography of the Human Genes”. Claro, a partir daí muitas análises têm sido feitas, com novos dados, novas abordagens evolutivas e análises cada vez mais sofisticadas, e mostrando inclusive efeitos muito mais profundos em termos de ancestralidade (inclusive a hibridização com Neandertais, Denisovanos e outras populações extintas). Além disso, é sempre importante ressaltar que muitas diferenças fenotípicas possuem um forte componente ambiental, de modo que as diferenças intrínsecas podem ser tão pequenas que mudanças no ambiente levam rapidamente a fenótipos diferentes (esse em geral é o caso de características comportamentais e, no caso da espécie humana, de características ligadas à estrutura social e comportamento sexual). Diante de tudo isso, cada característica, ou conjunto de características, está refletindo esses eventos atuais ou passados, de modo que definir “grupos” se torna totalmente arbitrário e é uma abordagem pouca informativa, na melhor das hipóteses. Definir grupos é simplesmente uma maneira ruim de entender os padrões e os processos ecológicos e evolutivos subjacentes a eles. Portanto, “raça” não é algo que tenha qualquer sustentação biológica. Qualquer graduando aprovado num curso introdutório sobre análises multidimensionais sabe que, diante da variabilidade contínua e com muitos gradientes independentes, métodos de classificação são inadequados para analisar um conjunto de dados.


Além disso, o fato de reconhecermos variação contínua entre as populações humanas distribuídas no espaço geográfico não implica que há valores intrínsecos e inerentes à essas diferenças. Infelizmente, nós, como sociedade, é que estabelecemos esses valores e, no final, são esses valores estabelecidos por elites políticas e econômicas que criaram todos os problemas que observamos ao longo da história humana, mesmo antes do surgimento da Biologia, claro! Como disse na postagem anterior, nós biólogos adoramos a diversidade e justamente por isso eu nunca vi ligação entre descrever variações entre populações (humanas e outras) e racismo, para mim são coisas totalmente independentes.


Como diria – novamente - um grande e querido amigo, “Santa Ingenuidade, Zé!!!”. EU posso não ver essa ligação, mas é EXATAMENTE ELA que desencadeia os problemas desde o início da Antropologia a partir dos séculos XVIII e XIX. As pessoas, por razões diferentes, rapidamente estabelecem uma ligação entre variação, diversidade e valor, que passa a ser usada por grupos de extrema direita e conservadores para justificar racismo, sexismo e outras formas de discriminação! Talvez seja algo extremo, mas ouvimos de alguns biólogos e geneticistas argumentos que poderiam até ser considerados simplistas, tais como, “...mas não há variação substancial na espécie humana”, ou “...as diferenças não significam nada”, em uma tentativa desesperada de evitar que qualquer informação nesse sentido seja usada para justificar o racismo. Como biólogo eu entendo que esse não é o argumento correto para que não devamos definir “raças”, e muito menos pensar biologicamente em racismo, mas devo estar errado em querer compatibilizar de alguma forma essas ideias. Pensei em explorar melhor essa discussão em uma postagem, mas já nem sei, e vocês vão entender a razão na próxima seção...Sempre resisti à essa ideia, mas talvez ignorar a variação seja mesmo a melhor saída diante da maldade humana e da sua necessidade de subjugar e dominar outras culturas, nações ou povos (e, ironicamente, poderíamos voltar à discussão clássica entre Hobbes e Rousseau e pensar se essa maldade seria intrínseca ao Homem ou decorrente da estruturação social). Se para evitar um mal maior precisamos fazer isso, se não é possível pensar racionalmente sobre a diversidade da espécie humana, que assim seja...É ideológico, mas tudo bem, gostando ou não, e sem defender aqui nenhuma forma de relativismo, já sabemos que não podemos ignorar danos potenciais alegando uma suposta neutralidade da Ciência.




O que dizer de E. O. Wilson?


Mas há outra questão que me levou a escrever hoje sobre o racismo de Darwin. Revelações perturbadoras foram feitas depois da minha última postagem, envolvendo E. O. Wilson e sua ligação com o “racismo científico”. Na postagem mostrei a importância de Wilson para a Ecologia e Biologia Evolutiva e discuti um pouco a questão da Sociobiologia, defendendo justamente o ponto que mencionei na seção anterior sobre o que sabemos sobre a diversidade humana, ou seja, que mesmo que tenhamos variação e componentes genéticos e evolutivos em características morfológicas, comportamentais e sociais, isso não justifica e não apoia, sob qualquer ponto de vista, racismo ou sexismo.


O ensaio de Monica R. McLemore na Scientific American faz, em princípio, uma crítica generalizada à ideia de discutir a variação e diversidade genética humana que, como coloquei acima, para mim não faz sentido, e as acusações de racismo, de Mendel a Darwin e a Wilson, não estão justificadas. Depois ela avança para algumas discussões sobre relativismo cientifico com as quais não concordo, que na realidade foram o tema central da postagem. Isso porque sempre entendi que as discussões dos anos 70 e 80 sobre a Sociobiologia, envolvendo inclusive o grupo de Harvard, Stephen Jay Gould e Richard Lewontin (que, aliás, também faleceu em meados de 2021; Gould faleceu há mais tempo, em 2002), estavam ultrapassadas. Disse também na postagem que todos entendiam hoje a complexidade dos padrões de herança e os múltiplos níveis de organização social e caracteristicas comportamentais e que não faz sentido pensar em termos de determinismo biológico em Sociobiologia. Terminei minha postagem dizendo que não acreditava que Wilson fosse racista e que isso não seria compatível com a visão de um biólogo do século XX – XXI que sempre trabalhou com a diversidade biológica e tanto fez para protegê-la.


Entretanto, há poucos dias atrás surgiram fortes evidências da ligação entre Wilson e pesquisadores estreitamente ligados a movimentos racistas e de supremacia branca nos EUA, compiladas por Stacy Farina e Matthew Gibbons e por Mark Borrelo e David Sepkoski. O principal problema foi a demonstração de uma ligação antiga e duradoura, mas pouco conhecida ou pouco divulgada, entre Wilson e J. Philippe Rushton, Professor de Psicologia da University of Western Ontario, no Canadá, falecido em 2012. Rushton era bem conhecido por suas investigações pseudocientíficas de diferenças raciais no QI, promiscuidade e criminalidade, bem como por suas associações com movimentos sociais claramente racistas e ligados ao “American Renaissance” e à ideia de supremacia branca. Ele nunca perdeu sua posição acadêmica, mas houve muita confusão e sabemos agora que Wilson estava envolvido e apoiou Rushton nos bastidores.


Não repetirei aqui os detalhes da correspondência de Wilson levantados por Farina e Gibbons e por Borrello e Sepkoski (até porque é uma história realmente deprimente para mim), tem muita coisa (e deve ser a ponta do iceberg...). Em resumo, Wilson apoiou, como membro da Academia Americana de Ciências (AAAS), uma primeira publicação de Rushton em 1986 no importante periódico Proceedings of the National Academy of Science of the United States of America (PNAS), sobre evolução genético-cultural, até aí tudo bem - embora aparentemente tenha havido algum viés na aceitação do artigo, mas acho difícil julgar isso. Wilson não quis ser editor de outra publicação de Rushton no PNAS mais explícita sobre racismo e explicando diversas “diferenças raciais” a partir da teoria da seleção r/K de Wilson. Mas a recusa de Wilson foi apenas para evitar mais confrontos diretos com Gould e Lewontin, e ele disse privadamente a Rushton que apoiaria a publicação de forma anônima, como revisor, se outro membro da AAAS fosse o editor. O artigo terminou não sendo publicado no PNAS, e esta e várias outras publicações de Rushton foram posteriormente retratadas, algo considerado bastante sério na Academia. A ligação entre eles não foi eventual e restrita a essas questões de produção científica, houve muitas troca de correspondência, com Wilson elogiando e apoiando os trabalhos de Rushton. Posteriormente, e bem mais sério, Wilson enviou várias cartas a colegas de Departamento de Rushton quando foram instalados processos administrativos para apurar as acusações de racismo, pseudociência e discriminação, defendendo-o.


Em uma das cartas, Wilson disse a Rushton inclusive que não se manifestava publicamente sobre questões raciais por não querer desencadear novas discussões dentro da sua instituição. Nesse sentido, a correspondência de Wilson mostra também uma ligação com Bernard Davies, professor de medicina em Harvard e declaradamente racista, tendo sido publicamente contrário à admissão de estudantes negros em Harvard por meio de ações afirmativas (e Wilson pediu a Davies apoio a Rushton). Em uma das cartas dirigidas a Davies ele disse (se referindo a Lewontin e Gould), que “…[About] our favorite anti-racists of the Left, … my way of putting it would be that anti-racism is the last refuge of scoundrels”. A frase toda é muito pesada por si só, mas quando ele – Wilson - usa a expressão “...anti-racist of the Left” já fica clara, para mim, sua posição política e ideológica. Mas o que ele está dizendo é que defender a igualdade entre grupos de pessoas é ideologicamente igual ao racismo. Ele não falou algo como “...negar a diversidade humana é...”, ou algo assim, ele disse explicitamente que o “...o anti-racismo é o último refúgio dos canalhas”. Como assim??? Ele está justificando o racismo explicitamente, é isso mesmo que eu entendi? Decepcionante, e tem mais, é só ter estômago para ler os textos de Farina e Gibbons e de Borrello e Sepkoski.


Como já coloquei algumas vezes aqui no blog, fui formado desde a graduação lendo os livros e trabalhos de Gould e sempre estranhei que ele e Wilson tivessem posições tão diferentes e confesso que não entendia bem por que Gould criticava tanto a Sociobiologia. Agora está ficando claro que havia mais coisa subjacente à uma mera questão acadêmica...Wilson sempre disse (apoiado por Richard Dawkins, dentre outros) que as críticas de Lewontin e Gould à Sociobiologia tinham apenas uma motivação política, porque eles eram “da extrema esquerda”, e eu via nisso um problema ligado com o relativismo (e, portanto, tendia a não aceitar também essas críticas). Mesmo a crítica de Gould e Lewontin à Sociobiologia no famoso artigo sobre os “Spandrels”, de 1979, me parecia meio forçada e anedótica, quase quixotesca (o artigo em si é fantástico e me influenciou muito, mas achei realmente o exemplo do canibalismo asteca meio bobo e não achava que era bem isso que Wilson parecia defender...). Mas agora é provável que o oposto fosse igualmente verdadeiro, e que a defesa extrema de algumas ideias sociobiológicas por Wilson e outros tivesse motivações na extrema direita mesmo...As duas possibilidades são igualmente péssimas em uma visão mais positivista e idealista da Ciência, e vocês já sabem que não sou relativista, como insisti na postagem anterior. Mas não podemos simplesmente ignorar que isso acontece no mundo real, por mais que queiramos evitar, e se é para escolher um lado, vou ficar mesmo com Gould e Lewontin...


Logo depois do ensaio de Monica R. McLemore ser publicado na Scientific American, apareceu também uma postagem de um norte-americano chamado Razib Khan, acompanhada de uma carta assinada por vários biólogos importantes, foi a primeira forte reação que vi ao ensaio dela criticando Wilson. Khan disse na postagem que a Scientific American não quis publicar a carta (achei estranho, mas enfim...) e por isso ele estava contando toda a história e anexando a carta em seu blog. Já tinha visto esse texto quando fiz a postagem sobre a morte de Wilson, mas felizmente resolvi não citá-lo porque não conhecia o blog e nem o autor, e confesso que não tive tempo de me informar melhor sobre ele. Mas logo depois um amigo me disse que Khan era também um negacionista e supremacista branco da extrema direita e que vários dos cientistas retiraram suas assinaturas da carta quando perceberam isso (mas outros não, reforçando uma visão mais generalizada de “neutralidade” científica).


Finalizando, gostaria que surgissem novas evidências mostrando que, de alguma forma, algo tenha sido interpretado equivocadamente em relação a Wilson. Borrello e Sepkoski escrevem no final do seu texto que


"All this is not to say that Wilson was, himself, a white nationalist. Nor is it grounds to “cancel” him or dismiss his prolific contributions to science. But he is not an infallible authority. Preserving a naively hagiographic picture of his career obscures the extent to which racist and sexist bias remains a glaring vulnerability of the science that has been built on his theories."


E que


"Far from being exceptional, Wilson’s attraction to proponents of extremist views is an all-too-common feature of scientific controversies around heated political topics. It is natural, when one feels defensive and unfairly attacked, to gravitate toward those who affirm one’s correctness, goodness, or courage. In refusing to accept criticism, Wilson backed himself into a far-right corner. Intentionally or not, many of his current defenders may be doing the same thing".


Diante disso, será possível que Wilson tenha sido apenas ingênuo ou acreditasse piamente na “neutralidade” da ciência, ou em uma versão extrema da “liberdade de expressão”? (aliás, nesse sentido temos nesse momento a discussão surreal no Brasil em relação à apologia ao nazismo no caso Monark - Kataguiri). Claro, se racistas, nacionalistas, supremacistas brancos ou grupos de extrema direita usam as ideias da Sociobiologia de forma equivocada para apoiar seus pontos de vista, não seria culpa de Wilson, e não seria a primeira vez que teorias científicas são distorcidas nesse sentido (como discutimos acima em relação ao próprio Darwinismo). Sendo assim, como disse Stephen Gould em relação a Darwin, será que ele mereceria apenas uma breve passagem pelo purgatório da História? Não sei, não estamos mais no século XIX e pelo que li está difícil refutar o apoio nem tão velado dele a Rushton e as fortes ligações com Davies, dentre outros pesquisadores assumidamente racistas, e suas frases nas cartas são bem comprometedoras...Diferente de Darwin, Wilson não "apenas" deixou de romper com uma visão conservadora e dominante sobre "raça", ele deliberadamente rejeitou as visões liberais que já existem há décadas! Seus defensores vão dizer que é justamente o contrário, mas como sempre digo, o diabo está nas correlações...


Sei que as pessoas são altamente multidimensionais, multifacetadas e complexas, de modo que qualquer idealização de perfeição à distância está fadada ao fracasso, e isso vale tanto pra Darwin quanto pra Wilson (ou Gould, ou Lewontin, ou Dawkins, no contexto da nossa discussão aqui; ver a minha postagem de 2020 sobre Eugenia). Por outro lado, não podemos nos omitir e dar a impressão de concordar com uma suposta “neutralidade” científica ou reforçamos a liberdade de ser burro, estúpido, negacionista ou ofender as pessoas gratuitamente (e alguns podem até dizer que estou “overreacting” à essa discussão sobre as cartas de Wilson justamente por vários absurdos nesse sentido que estamos vivenciando no Brasil nos últimos 3 anos; pode ser, mas é isso mesmo, nem de longe quero ter qualquer apoio da extrema direta, como dizem Borrello e Sepkoski).


Certamente devem aparecer mais discussões em relação à Wilson, já que toda a sua biblioteca e suas correspondências passaram a ser de acesso público há algum tempo. Vamos acompanhar e creio que vários pesquisadores, inclusive motivados por essas descobertas e outras controvérsias, certamente vão investigar tudo isso mais a fundo. Se ele apoiou consciente e deliberadamente os supremacistas brancos dos EUA, como está parecendo, não será possível engolir...Impossível negar a contribuição científica de Wilson em muitas áreas da Ecologia e Biologia Evolutiva, independente da sua posição política ou ideológica, como ressaltei na postagem anterior. Mas resta a decepção sob o ponto de vista pessoal e realmente muita coisa pode ficar comprometida, talvez seja difícil agora separar as várias opiniões, percepções e análises dele especialmente no contexto da sociobiologia humana, consiliência e biofilia. Se for isso mesmo, Wilson terá certamente um lugar reservado no 9º ciclo do inferno da História da Ciência!


Um deprimente dia de Darwin esse 12 de fevereiro de 2022, sem dúvida...







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