• José Alexandre F. Diniz F

Por que Darwin?

Atualizado: Fev 15

Philosophy of science without history of science is empty,

history of science without philosophy of science is blind

(Irme Lakatos, 1971)


Em 12 de fevereiro se comemora em todo o mundo o chamado “Dia de Darwin” (Darwin Day). Charles Robert Darwin (1809-1882) é considerado, junto com Isaac Newton e Albert Einstein, dentre poucos outros, um dos grandes gênios da Humanidade e da Ciência, de modo que a maior parte das pessoas já ouviu falar dele. A maior parte dessas pessoas sabe que Darwin foi um biólogo, um “naturalista”, cujo nome, de alguma forma, está ligado à ideia de “evolução”. E essa é justamente a “palavra mágica” que explica a razão pela qual, ao contrário do que ocorre com Einstein e Newton, nem sempre ele é elogiado...Esse é um ponto importante e explica porque muito tem sido escrito sobre Darwin e, até por isso, é até difícil falar e escrever sobre ele. Mas, afinal, por que falamos de Darwin quase 150 anos após a sua morte? O que dá a ele esse papel tão importante na Ciência (apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas...)?


A Origem


Talvez o ponto focal de toda a história seja a publicação, em 1859, do livro “A Origem das Espécies” (na verdade o livro tem os longos títulos e subtítulos típicos dos séculos XVIII e XIX, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life - vamos simplificar então e chamar o livro de Origem apenas). Nesse livro Darwin desenvolveu, segundo suas próprias palavras, “um longo argumento” (será, então, uma longa postagem...). Em resumo, Darwin mostrou que as espécies, com todas as suas enormes variações de tamanhos, cores e formas, com diferentes comportamentos e vivendo em diferentes ambientes, descendem de um ancestral comum que viveu há muito, muito tempo. Além disso, esse processo de “transmutação” dessas espécies (o termo usado para ele para o que chamamos hoje de "evolução") foi causado por um mecanismo que ele denominou “seleção natural”.


Nessa época, já havia muita discussão sobre o que chamamos de evolução, principalmente na Inglaterra, na França e na Alemanha, mas de uma forma bem distinta da que estamos acostumados a pensar. No século XVIII, Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707 - 1788) já havia flertado com o tema, e posteriormente Geoffroy Saint-Hilaire (1772 – 1844) e Georges Cuvier (1769 – 1832), dois dos mais famosos naturalistas da França, discutiram o assunto (com Cuvier sendo um forte opositor à ideia de evolução). Logo em seguida, em 1809, é publicado o importante Philosophie Zoologique de Jean Baptiste Lamarck (1744 – 1829), também na França, em que se desenvolveu um argumento mais coerente e organizado sobre evolução, com base no princípio da herança de caracteres adquiridos e, mais importante, na ideia da força vital, o élan vital que remonta, de fato, a Aristóteles, que impulsionaria os organismos em alguma direção de maior complexidade e maior ajuste ao meio em que vivem. Quem primeiro colocou a questão na Inglaterra foi o próprio avô de Darwin, Erasmus Darwin, em seu Zoonomia já no finalzinho do século XVIII. Pouco depois, já na primeira metade do século XIX, vários naturalistas e intelectuais estavam discutindo evolução, em diversos aspectos. Mas eram discussões vagas que não afetavam a vida cotidiana dos naturalistas e que, de fato, possuíam um forte componente metafísico e ideológico. Esse "transformismo" estava também associado à ideia do progresso contra a providência, do potential da vida e da sociedade de melhorar, sendo o Homem o final dessa “grande cadeia do ser”. Seria, portanto, quase uma “religião secular”, uma ideologia fortemente associada ao progresso da Inglaterra Vitoriana, no contexto da revolução industrial. Talvez a figura mais importante e emblemática nesse período seja a do filósofo Herbert Spencer (1820 - 1903), que foi inclusive a pessoa que passou a usar o termo “evolução” na forma como entendemos hoje. Para ilustrar o forte componente metafísico e quase religioso das ideias sobre evolução desse período, vejam a definição de Spencer em seu “Primeiros Princípios” de 1864 (notem a data):


Evolution is an integration of matter and concomitant dissipation of motion, during which the matter passes from an indefinite, incoherent homogeneity to a definite, coherent heterogeneity and during which the retained motion undergoes a parallel transformation...


Mas tudo isso mudou, ou começou a mudar, em 1859! Charles Darwin já era um naturalista extremamente importante e reconhecido nessa época, tendo adquirido uma enorme reputação principalmente após retornar de sua viagem de 5 anos ao redor do mundo (entre 1831 e 1836) a bordo do H.M.S. Beagle, “...explorando novos mundos, buscando novas formas de vida e novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum Homem jamais esteve” (opa viagem errada! Mas se aplica, sem dúvida...). Sabemos pelas anotações detalhadas deixadas por Darwin que ele pensou pela primeira vez no princípio da seleção natural após ler Malthus em 1837-1838, tendo começado a desenvolver os principais aspectos da sua aplicação para entender a “transmutação” das espécies em dois manuscritos sobre o assunto, escritos em 1842 e 1844. Mas apenas poucos amigos e colegas próximos sabiam de suas ideias e ele continuou a trabalhar arduamente em diferentes assuntos, se tornando assim um dos naturalistas mais respeitados da Inglaterra e da Europa. Nesse meio tempo, Robert Chambers, um escritor popular, publicou anonimamente o muito criticado Vestiges of Natural History of Creation (1844), apresentando de forma pouco ortodoxa muitas ideias sobre evolução e, de certa forma, abrindo caminho para as ideias de Darwin, que ainda eram, à epoca, desconhecidas do público. Muitos acham que as duras críticas feitas aos Vestiges tornaram Darwin ainda mais temeroso de levar à publico suas ideias.


Entretanto, em 1858, Darwin recebeu uma carta do jovem naturalista Alfred R. Wallace (1823 – 1913), que estava trabalhando no Arquipélago Malaio, na Indonésia. À carta Wallace anexou um manuscrito e pedia a Darwin que, se ele achasse interessante suas ideias, encaminhasse o trabalho para publicação no boletim da Sociedade Linneana em Londres. Esse manuscrito continha basicamente a mesma ideia que Darwin estava desenvolvendo em segredo nos últimos 20 anos, o que, de certo modo, gerava um impasse e um conflito de interesses! O assunto foi resolvido com a leitura, por Charles Lyell (1797 - 1875), mentor de Darwin e o “fundador” da Geologia moderna, do manuscrito de Wallace, de um resumo expandido de Darwin expondo as ideias e de uma carta que este havia escrito para o professor de Harvard, Asa Gray, mostrando sua teoria, na ultima reunião da Sociedade em 1858. A partir daí, todos souberem no que Darwin estava realmente trabalhando e, alguns meses depois, a Origem era publicada.



Folha de rosto de uma das minhas edições da "Origem" (a 6a. edição original de 1882).

Mas o que mudou com a publicação da Origem? O que havia de tão “revolucionário” no livro? Muita coisa, vai ser difícil resumir... Mas vamos tentar. Primeiro precisamos entender que mesmo que a ideia de evolução das espécies (que Darwin chamou inicialmente de “transmutação”) já estivesse sendo discutida, ela não era aceita ou levada muito à sério pelos naturalistas, talvez por causa de toda a questão filosófica e metafísica associada a ela mas, principalmente, porque não havia claramente um mecanismo ou processo biológico e “natural” que pudesse explicar isso. Então, mais uma vez de forma extremamente resumida, a Origem resolve essas duas questões ao mesmo tempo.


Em primeiro lugar, podemos pensar que diferentes padrões evolutivos foram apresentados de forma sistemática e discutidos exaustivamente, ou seja, consolidando “evolução como um fato”, usando a expressão do filósofo Michael Ruse. Na Origem Darwin levanta uma enorme quantidade de informações e integra evidência de diferentes campos da Biologia, como anatomia, fisiologia, embriologia, comportamento e, especialmente, biogeografia, para sustentar a existência da evolução. Ainda nesse contexto dos padrões evolutivos, há duas ideias inéditas também. Em primeiro lugar, Darwin não vê a evolução diretamente como progresso e como algo sequencial, como nas visões que existiam na época (e que, de fato, continuariam dominando o pensamento científico pelos 50-70 anos subsequentes). Como consequência Darwin sugere que, primeiro, as espécies que temos hoje não descendem umas das outras, mas sim compartilham ancestrais comuns em diferentes momentos do tempo. Sabemos hoje, por exemplo, que Homo sapiens e o chimpanzé (Pan) compartilham um ancestral comum que viveu há 7-8 milhões de anos atrás (ou seja, nós não descendemos deste macaco, nós somos um macaco – mas vamos explorar isso com calma depois).


Em segundo lugar, uma vez que a evolução não é sequencial, é preciso que haja, na realidade, uma “quebra” das linhagens e, nesse sentido, talvez o principal processo associado seja a geografia, ou seja, as espécies que ocorrem em múltiplos locais gradualmente começam a se adaptar a diferentes ambientes e, como o passar do tempo, se tornam evolutivamente independente (o processo que chamamos hoje de especiação). Isso explica por que a biogeografia era tão importante para Darwin e para Wallace, pois eles rapidamente perceberam que esses processos de especiação terminam deixando um “sinal” no tempo e no espaço. A evolução, portanto, ocorreria “horizontalmente” também, ou seja, há padrões tanto no tempo quanto no espaço e, na realidade, acho que a melhor palavra que temos para isso hoje é justamente “diversificação” (pois o termo “evolução”, mesmo atualmente, carrega consigo a ideia de progresso e de sequência).


Outro aspecto ligado ainda aos padrões evolutivos e que vai ser muito importante em diversas discussões posteriores é a questão do gradualismo, ou seja, a ideia de que a evolução é um processo extremamente lento e gradual. Darwin claramente adotou esse princípio por analogia ao princípio do uniformitarismo de seu mentor Charles Lyell (que desafiou a visão catastrofista predominante antes dele). Nesse sentido não é uma ideia nova e muitos acham, inclusive, que Darwin se comprometeu com ela desnecessariamente, pois percebeu-se rapidamente que a diferenciação entre as espécies ou variações geográficas podem ocorrer com taxas muito variáveis, às vezes de forma lenta, imperceptível, às vezes de forma rápida (algumas centenas de gerações). Entretanto, é importante aqui fazer uma ressalva: entendo que o que está subjacente ao gradualismo de Darwin, assim como ao uniformitarismo de Lyell, não é só a velocidade da mudança, mas principalmente a questão de que aquilo que observamos em grandes escalas de tempo, ou seja, a diferença entre as espécies e a enorme diversidade da vida, pode ser entendida pelos mesmos processos (no caso, seleção natural) que observamos atualmente. Não é preciso invocar causas sobrenaturais ou metafísicas (e essa foi a grande discussão entre Lyell e Cuvier e outros, defensor do catastrofismo, alguns anos antes!).


Entretanto, apesar de todas as evidências levantadas sobre a existência de evolução e a novidade na compreensão dos padrões evolutivos, o ponto central do argumento de Darwin é a ideia de seleção natural. Esse seria o mecanismo, ou processo, subjacente aos padrões, que muitos entenderam como uma “lei da natureza”, algo análogo à mecânica Newtoniana aplicada à Biologia. A seleção natural seria então a causa da evolução e, de forma interessante, resolve o problema da teleologia e do projetista (“evolução como causa”, para Michael Ruse). Darwin, de fato, não fez muita distinção entre padrão e processo, ou fato e causa, ele via as duas coisas de forma bem associada, como coloquei acima em relação ao gradualismo, por exemplo. Ele estava mais interessado na causa, inclusive porque ele obviamente não questionava mais a evolução como fato. Ele sabia que essa questão do mecanismo era o ponto crucial a ser resolvido, do qual dependiam todos os demais.


Vamos entender rapidamente o que é a seleção natural. Na realidade a seleção (natural) é um princípio muito geral, uma propriedade inerente a sistemas de replicação diferencial não só na Biologia. Na verdade, seleção natural é um algoritmo e, seguindo o importante geneticista Richard Lewontin de Harvard, podemos expressar esse algoritmo da seguinte forma:


1) Há variação em características morfológicas, fisiológicas ou comportamentais entre os indivíduos de uma espécie (o princípio da variação);


2) Essa variação é em parte herdável, de modo que os indivíduos aparentados se parecem mais entre si do que indivíduos escolhidos ao acaso e, especialmente, os filhos se parecem com os pais (o princípio da herança);


3) Os indivíduos com diferenças nas características morfológicas, fisiológicas ou comportamentais deixam diferentes números de descendentes (o princípio da aptidão diferencial).


Qualquer característica para as quais esses 3 princípios se apliquem irá evoluir, simplesmente no sentido de fazer com que as características morfológicas, fisiológicas ou comportamentais dos indivíduos que deixam mais descendentes se tornem mais comuns. Não há, portanto, direção ou previsão, exceto se o agente seletivo permanecer constante durante muito tempo. Darwin não colocou dessa forma tão “objetiva”, claro, esse não era o estilo da época... Bem no estilo Vitoriano típico da época, o que ele disse foi que


“Lembremos o quão complexas e ajustadas são as relações mútuas dos seres vivos uns aos outros e às suas condições físicas de vida. Seria então, improvável, pensar que variações úteis de algum modo a cada ser na grande e complexa luta da vida, devam às vezes surgir ao longo de milhares de gerações? E se isso ocorre, podemos duvidar, lembrando que mais indivíduos nascem do que podem possivelmente sobreviver, que indivíduos com qualquer vantagem, por mais sutil que seja, sobre os outros, teriam uma melhor chance de sobreviver e reproduzir? Por outro lado, podemos ter certeza que qualquer variação minimamente prejudicial seria rigidamente rejeitada. Essa preservação das variações favoráveis e a rejeição das prejudiciais eu chamo de Seleção Natural.” (C. Darwin, 1859)



Pensando na formulação moderna e sintética de Lewontin, essas são as condições necessárias e suficientes para que haja evolução, ou pelo menos um tipo particular de evolução, que é a evolução adaptativa. Ou seja, o que Darwin percebeu é que esse mecanismo seria capaz de explicar o ajuste dos organismos ao ambiente, sem a necessidade de que houvesse um planejamento ou um projeto para isso. A complexidade emerge à medida que esse processo ocorre ao longo de muitas gerações, com efeitos acumulativos (na realidade, outros cientistas antes de Darwin, inclusive o próprio Herbert Spencer, que criou a famosa expressão “Sobrevivência do mais apto”, tinham pensado nesse princípio, mas não exploraram seu potencial “criativo” e “iterativo” ao longo do tempo). Talvez aqui seja importante ressaltar que Darwin pensou também na ideia de seleção sexual como um fator nem sempre associado diretamente à seleção natural (diferente de Wallace), embora a maneira como os dois processos agem, por reprodução diferencial, seria a mesma.

As reações à publicação da Origem foram variadas mas, de modo geral, a maior parte dos naturalistas recebeu com entusiasmo a nova teoria e entenderam, rapidamente, que essa era realmente a primeira abordagem efetivamente científica ao tema. Houve algumas rejeições importantes, com destaque para os paleontólogos Louis Agassiz nos Estados Unidos e Richard Owen na Inglaterra (este último se tornaria, mais ao final de sua vida, um evolucionista teísta). Mais importante, a discussão rapidamente saiu dos círculos acadêmicos e a sociedade passou a se interessar pelo assunto. Muitos perceberam o forte componente “naturalístico” e "materialista" da teoria (ou seja, não havia componentes metafísicos e sobrenaturais) e embora Darwin tenha escrito apenas uma frase sobre a origem do Homem, (“Luz será lançada sobre a origem do Homem e sua história...”), as pessoas também associaram rapidamente a teoria à esse tema, e começou-se a falar da “teoria do macaco”. Deste modo, alguns membros mais conservadores da Igreja Anglicana certamente rejeitaram a teoria, o que levou a alguns debates famosos como o de Thomas Huxley e o bispo de Oxford, Samuel Wilbeforce, dando início a uma tensão entre ciência e religião que continua até hoje. Entretanto, embora alguns tenham rejeitado a teoria de seleção natural por razões teológicas e por não aceitar o materialismo implícito da Origem, por outro lado muitos entenderam que Darwin descobrira uma lei da natureza a partir da qual o Criador poderia agir e conseguiram sem grandes problemas conciliar as duas ideias (como discutimos em detalhes na postagem anterior sobre criacionismo).


Então, a Origem desenvolve (não nessa ordem) esses 5 aspectos principais:

  • A existência da evolução;

  • A ancestralidade comum;

  • A evolução “horizontal”;

  • O gradualismo;

  • A seleção natural.

Como diz Ernst Mayr (1904 - 2005), um dos arquitetos da “Teoria Sintética da Evolução”, ou “Síntese Moderna” que viria a ocorrer nos anos de 1940-1950, cada uma dessas ideias individualmente, tal qual apresentada na Origem, seria suficiente para dar a Darwin um lugar de destaque na Biologia ou na Ciência. Juntas, elas justificam o status de gênio...Problema resolvido, encerramos aqui a postagem, respondemos à pergunta e já sabemos por que falamos em Darwin! Calma, a coisa não é tão simples...Vamos começar entendendo que, em 1859 e nas décadas à frente, apenas a primeira das contribuições da Origem (ou seja, a existência da evolução) foi efetivamente "aceita" e compreendida! E, como vimos, a ideia já era bastante discutida e o que aconteceu é que os naturalistas leram a Origem de forma a reforçar seus próprios pontos de vista e aceitaram apenas as partes do livro que se ajustavam a eles. Portanto, a contribuição imediata de Darwin foi “dar um rumo”, digamos assim, às discussões científicas sobre evolução (vamos discutir isso mais ao final da postagem, esse é um ponto muito importante). Mas qual foi o problema com os demais pontos e, especialmente, qual o problema com o princípio da seleção natural como mecanismo central da evolução? Darwin e os naturalistas a partir dele se depararam com dois problemas sérios que não seriam resolvidos até o início do século XX.


Em primeiro lugar, se achava que a Terra não era tão antiga e alguns questionaram se a evolução poderia acontecer em um intervalo de tempo relativamente curto. Embora no ainda no século XVIII a antiguidade da Terra já fosse reconhecida, não havia como determinar, de fato, a idade da Terra. As estimativas eram muito variáveis, mas na época de Darwin se acreditava que a Terra tivesse não mais do que 100 milhões de anos, segundo as estimativas de Lorde Kelvin com base nos modelos termodinâmicos! Considerando o gradualismo de Darwin e o uniformitarismo de Lyell, isso era muito pouco para que toda a diversificação tivesse ocorrido! Mas Darwin continuou sustentando a ideia de uma Terra muito mais antiga, de forma corajosa, que finalmente se mostrou correta (e, diga-se de passagem, Lyell acreditava, secretamente, que a Terra tivesse bilhões de anos). Foi preciso esperar a compreensão do decaimento radioativo para que se começasse a ter instrumentos para medir isso mais apropriadamente (hoje sabemos que a Terra tem algo como 4.2 bilhões de anos).


O segundo problema, talvez mais importante por envolver o mecanismo central de ação proposto por Darwin, a seleção natural, é que não se sabia realmente como ocorria a herança, ou seja, não se sabia como uma característica era transmitida entre pais e filhos. Como vimos acima na definição de Lewontin, isso é crítico para o funcionamento do algoritmo. Pior, na verdade a concepção de herança por mistura (“blending”) que predominava na época impediria a seleção natural de acontecer, como reconheceu rapidamente e corretamente um engenheiro escocês chamado Fleeming Jenkin. Seria preciso esperar a redescoberta do Mendelismo e a unificação da genética por Ronald Fisher, algumas décadas ainda à frente, para que esse problema fosse resolvido e fosse possível mostrar, finalmente, que a seleção natural poderia realmente desencadear mudanças adaptativas.


Além dos problemas com a herança, a ideia de que a seleção natural era um processo não-direcional que simplesmente ajustava a espécie ao seu ambiente naquele momento, de certo modo, não foi aceita pela maioria dos naturalistas, que continuava a pensar, especialmente na Inglaterra, em um contexto de progresso. Após a publicação da Origem, a maior parte (e mesmo Darwin, em alguns momentos) se voltou para diferentes novas teorias de evolução dirigida, em geral com base Lamarckiana, com maior ou menor grau de metafísica envolvida. Daí o sucesso das diferentes teorias neolamarckianas e, já no início do século XX, depois da redescoberta do Mendelismo, de teorias de macromutação, com um quase esquecimento quase total do princípio de seleção natural (os leitores interessados nos acontecimentos dessa época devem consultar o interessante “The Eclipse of Darwinism”, de Peter Bolwer, de 1983). Na verdade, poucos naturalistas continuavam a defender Darwin e suas ideias na virada do século XIX para o século XX (digno de nota é o Darwinism, de A. R. Wallace, publicado em 1900).


No final, esses dois problemas sérios ligados à idade da Terra e à herança, que tanto dificultaram a compreensão da Origem, foram resolvidos logo no início do século XX. Passamos a ter a partir de então uma consolidação gradual da teoria evolutiva, baseada na contribuição central de Darwin. Apesar das dificuldades de reconhecimento inicial, acho que o pioneirismo e a importância de Darwin são inegáveis! Resolvemos então agora a nossa pergunta inicial “Por que Darwin” ? Mais ou menos...Mas pelo menos podemos agora entender o que significa o termo Darwinismo, um termo que usamos bastante até hoje, e avançar a partir daí (a rigor, seria mais correto e justo chamar de teoria de Darwin-Wallace...mas essa é mais uma longa história e, de qualquer modo, o papel de Darwin em sintetizar tudo foi considerável!). O ponto que precisamos entender melhor é que a solução desses dois problemas, principalmente a questão da herança, foi bastante complexa, de modo que muita coisa foi adicionada, mudou, e muita gente esteve envolvida nesse processo de construção do conhecimento sobre evolução desde então (esse vai ser um ponto importante para a nossa conclusão ao final da postagem).

Vamos, a partir de agora, precisar entender alguns aspectos mais gerais sobre como funciona a Ciência e sobre como as mudanças a partir de 1859 se consolidaram para gerar o que entendemos hoje por “Teoria da Evolução”, e acho que isso possui implicações importantes para muitas discussões que ainda existem hoje!




Programas de Pesquisa e a Revolução Darwiniana


É comum usarmos a expressão “Revolução Darwiniana” para os eventos que relatei até aqui e que se seguiram logo à publicação da Origem. Realmente, houve uma grande mudança na compreensão dos cientistas e de toda a sociedade sobre o significado da evolução, independentemente de sua aceitação ou não como uma teoria válida. Mas a questão é que, de um modo ou de outro, quando usamos essa expressão sob um ponto de vista mas técnico, isso termina levando para a discussão das ideias de Thomas Kuhn (1922 - 1996) sobre paradigmas e revoluções científicas, que discutimos rapidamente em uma postagem anterior. A ideia de Kuhn é que o progresso científico ocorre por meio de revoluções científicas, caracterizadas por uma “mudança de paradigma” (que é uma expressão que se tornou bastante popular, inclusive). No contexto científico, um paradigma é mais do que uma teoria científica, é na realidade uma grande “visão de mundo” em uma área do conhecimento. Dentro dessa visão, os cientistas trabalham de forma mais ou menos consensual e o paradigma determina quais as perguntas importantes e como fazer para resolvê-las (embora a própria definição de teoria seja variável e permita sistemas em diferentes “escalas” de explicação). Será que o Darwinismo depois de 1858 é um paradigma?

Michael Ruse, um dos mais importantes filósofos da biologia evolutiva hoje, coloca em seu livro recente The Darwinian Revolution que, sob certos aspectos, o Darwinismo poderia ser entendido dessa forma (mas com grandes ressalvas e muitas discussões). Alguns outro, como Peter Bowler, acham que não e que, na verdade, o papel de Darwin não foi, na época, muito grande nas discussões (embora inegavelmente ele tenha sido “resgatado” em meados do século XX, como vamos discutir a seguir; na realidade Bowler em seu “The Non-Darwinian Revolution”, de 1992, chegou a defender que essa ideia de revolução Darwiniana é um “mito” criado à época da teoria sintética e que a discussão sobre transformismo no século XIX foi bem mais complexa...). Outro filósofo, Peter Godfrey-Smith, coloca que há pelo menos dois sentidos para usarmos a palavra “paradigma”, sendo um deles a ideia de que o paradigma não é uma visão de munda consolidada, mas em um sentido estrito é o início, o catalizador, dessa nova visão (e aí Darwin e a Origem teria mesmo esse papel, como vamos discutir a seguir).


Mas há muitos problemas nessa visão de paradigma, tanto em termos mais gerais (na própria filosofia da ciência), quanto em sua aplicação à Biologia Evolutiva. Acho que nunca houve de fato um grande consenso sobre os mecanismos de evolução e sua importância relativa, além do que não há, pelo que entendo, realmente uma ruptura em termos de “incomensurabilidade” entre os supostos paradigmas, seja na passagem pré e pós-Origem, seja na síntese do início do século XX que vamos discutir a seguir (mas é um assunto complexo, vejam no livro do Michael Ruse). Em termos mais gerais, apesar do grande impacto do trabalho de Kuhn e do uso corriqueiro dos termos “revolução científica” e de “paradigmas”, ou “mudança de paradigma”, creio que a maior parte dos cientistas e dos filósofos da ciência hoje não acha que a dinâmica científica ocorre como Kuhn sugeriu! Mas há outras possibilidades, que considero bem interessantes para entender o progresso em nosso conhecimento sobre evolução a partir de 1859.


Gosto de pensar que o que Darwin realmente fez foi criar um Programa de Pesquisa Científica (Scientific Research Programme; PPC, para simplificar), seguindo a ideia do filósofo Irme Lakatos (1922 - 1974). O modelo de desenvolvimento científico proposto por Lakatos não é tão diferente assim do de Kuhn, mas ocorre em uma "escala" menore é menos restritivo em diversos sentidos, especialmente porque admite que podem existir diversos PPCs coexistindo e competindo ao mesmo tempo. Inclusive, os PPCs que são mais bem-sucedidos, no sentido de chamarem a atenção de mais pesquisadores, terminam “sobrevivendo” e se expandindo (haveria, portanto, um processo de seleção natural envolvido, o que é interessante na nossa visão de mundo!). A ideia também é que um PPC é mais do que uma teoria, pois envolve um “núcleo”, que seria uma parte mais estável e central da teoria, similar ao paradigma Kuhniano. Na realidade, por uma série de razões, inclusive sociológicas, em geral esse núcleo nem sempre seria testado ou verificado empiricamente, e haveria um “cinturão” (bell) de teorias auxiliares ou mais específicas, além de modelos e hipóteses locais, “em torno” do núcleo e que lhe dariam suporte e “proteção”. Isso significa que mesmo que algumas dessas teorias auxiliares ou hipóteses se mostrem falsas ou incompletas, elas podem ser facilmente refutadas e substituídas de forma ad hoc, de modo que o “núcleo” pode se manter, a princípio. Claro que se essa “proteção” do “cinturão” começa a falhar sistematicamente e as teorias auxiliares começam a ser sempre rejeitadas, isso significa que o núcleo está se tornando frágil e, eventualmente, esse PPC deve ser abandonado. Há, portanto, um forte componente metodológico na visão de Lakatos, no sentido amplo de teste e verificação empírica de uma teoria científica.


Então, acho interessante pensarmos no Darwinismo como um PPC, sendo a teoria da evolução por seleção natural (e sexual, dependendo) o seu “núcleo”. Na verdade, isso é bem interessante considerando que a Biologia Evolutiva é, de fato, uma ciência histórica e, nesse sentido, não podemos verificar e observar diretamente se eventos passados ocorreram por seleção natural ou da forma como inferimos. Podemos, a partir do núcleo da teoria, inferir uma série de possibilidades e estabelecer que, se essa teoria central está correta, esperamos uma série de padrões na natureza. Podemos então começar a verificar esses padrões, como tentei mostrar na figura abaixo. São apenas alguns exemplos, não é algo exaustivo. Vamos imaginar que, se a evolução adaptativa por seleção natural aconteceu, podemos esperar correlações filogenéticas significativas (ou seja, para diferentes espécies em um mesmo grupo) entre o fenótipo e variações ambientais que potencialmente foram as pressões de seleção. Mais especificamente, sob diferentes modelos fisiológicos, esperamos que organismos homeotermos (mamíferos ou aves, por exemplo) de maior porte tenham uma vantagem em ambientes mais frios, que chamamos de “regra de Bergmann”. É um processo adaptativo e esperamos que, ao longo de um gradiente de temperatura, as espécies de maior porte estejam em locais mais frios, e isso é passível de testes empíricos. Na prática é mais complicado que isso, claro, tem uma questão importante de escala aí, além dos próprios processos históricos e contingências, mas esse seria o raciocínio mais simples. Outro exemplo, podemos acompanhar espécies e populações durante muitos anos e verificar, ano a ano, como as variações fenotípicas se correlacionam com variações no ambiente e, sem dúvida, o trabalho do casal Grant com os famosos “tentilhões de Darwin”, nas Galápagos, tem sido extremamente importante para mostrar a importância da seleção natural (para aqueles mais interessados em metodos e teste de seleção natural, o livro do Brian Manly the 1985 The Statistics of Natural Selection, é muito bom e dá uma boa ideia dos testes e delineamentos envolvidos!!!).





Notem que, na realidade, estou assumindo que o “núcleo”, ou seja, o princípio da seleção natural, foi resolvido, de modo que esse esquema não seria, de fato, o Darwinismo original de 1859. Como vimos antes, isso só ocorreu depois que os mecanismos de herança foram mais bem compreendidos, já no início do século XX. Essa é mais uma longa história, que vamos tentar resumir para que fique claro o que é esse PPC que acabamos de definir. Para os leitores mais interessados nos detalhes históricos desse período, o livro de W. Provine, The Origins of Theoretical Population Biology, embora mais antigo (1971), ainda é meu favorito!


Mendel é muito conhecido como o "pai" da genética e desenvolveu seus trabalhos ainda em meados do século XIX, mas por diversas razões estes passaram despercebidos (inclusive porque Mendel não era, de fato, um naturalista “profissional”). Somente em 1900 três pesquisadores (Hugo De Vries, Carl Correns e Eric Tschermak) redescobriram as leis de Mendel e reconheceram seu pioneirismo, depois de algumas controvérsias, dando origem ao que chamamos de Mendelismo. Mas isso de fato não resolveu o problema da herança, pois o Mendelismo parecia, de início, apenas um caso particular. Em 1908, G. H. Hardy e W. Weinberg generalizaram de forma independente as leis de Mendel para o nível de populações, criando o famoso teorema de Hardy-Weinberg, que é o ponto de partida da genética de populações. Mais ou menos nessa época começaram também as várias investigações sobre a natureza da variação genética e sua organização no nível cromossômico, bem como o papel das mutações nas variações fenotípicas, sendo Thomas Hunt Morgan (1866 – 1945) e Hermann Muller (1890 – 1967) as figuras de maior destaque nesse contexto (e é importante notar que os dois foram agraciados com o Prêmio Nobel mais ao final das suas carreiras).


Mas talvez o maior salto conceitual na Biologia Evolutiva só ocorreria em 1918, quando Ronald Fisher (1880 – 1962) (posteriormente Sir Ronald Fisher) percebeu que a herança dos caracteres quantitativos podia ser entendida pelo efeito de múltiplos fatores mendelianos (loci com diversos alelos) com efeitos diferentes, interagindo entre e si sujeitos à variação aleatória causada pelo ambiente. Isso permitiu formalizar e definir as bases conceituais e metodológicas da genética quantitativa, ou genética biométrica, sob uma base Mendeliana. Fisher, portanto, primeiro “unificou” a genética (e para isso criou a maior parte da estatística que aprendemos nos cursos de graduação!). Mais importante, a partir dai ele percebeu que a teoria da seleção natural seria realmente uma explicação plausível para a evolução e começou a trabalhar nisso.


Junto com Fisher, outros geneticistas importantes, especialmente J. B. S. Haldane (na Inglaterra) e Sewall Wright (nos EUA) avançaram então nas bases matemáticas e criaram diferentes modelos de como a evolução poderia funcionar em populações Mendelianas. Mas, por enquanto, estamos falando de genética, ainda seria preciso pensar em como essa nova unificação do entendimento sobre herança afetava a ideia de evolução. Em 1930 Fisher publicou o “The Genetical Theory of Natural Selection”, criando as bases matemáticas para uma teoria formal da evolução por seleção natural. Sewall Wright foi mais longe e propôs, em um longo artigo publicado na Genetics em 1932, uma teoria mais ampla, que ele chamou de “Teoria dos Equilíbrios Deslocantes”, que além da adaptação Darwiniana, incorporava efeitos aleatórios (deriva genética) e da migração sob a interação de genes em sistemas genéticos mais complexos, criando o conceito extremamente influente de “paisagem adaptativa” (o aspecto mais polêmico da teoria de Wright, que até hoje é bastante discutido, é um processo de seleção de picos nas paisagens adaptativas, entendo que em grande parte antecipando as discussões sobre a expansão hierárquica da seleção natural que viriam 50 anos depois).


Portanto, a partir dos anos 30, o Darwinismo havia sido “resgatado” pela resolução dos muitos problemas que (equivocadamente) se acumularam desde a publicação da Origem e que levaram, inclusive, à criação de diversas teorias “não-darwinianas” e “anti-darwinianas” no início do século XX, como o mutacionismo de Hugo De Vries (um dos cientistas que redescobriu Mendel) e as várias versões da teoria da ortogênese (apoiadas por processos neolamarckianos de evolução). Tudo isso desapareceu rapidamente e permaneceu a visão que podemos chamar de "Neodarwiniana". Na verdade o termo Neodarwinismo foi criado um pouco antes e se refere à “eliminação conceitual” da teoria lamarckiana da herança de caracteres adquiridos por August Weisman (1834-1914) (que não aconteceu realmente, pois o neolamarckismo continuou bastante forte, como mostra o avanço da teoria da ortogênese até os anos de 1930-1940). Mas eu gosto mais de pensar que o Neodarwinismo se refere à consolidação do Darwinismo pela solução dos problemas de herança a partir de Fisher-Wright-Haldane (Stephen Gould chama essa consolidação de “Fase I” da Teoria Sintética - a seguir). De qualquer modo, independente de nomes, o importante é entendermos o processo histórico de consolidação, que nos leva, então, ao diagrama do Darwinismo (ou Neodarwinismo, se preferirem) como um PPC, no qual a núcleo é a teoria da Seleção Natural, agora formalizada e matemática-estatisticamente funcional e, portanto, amplamente passível de testes empíricos.


Mas além dessa consolidação teórica inicial, a partir dos anos de 1940, as diferentes áreas da Biologia passaram a se “reinterpretar” à luz dessa visão neodarwiniana. O que aconteceu é que diversos pesquisadores importantes e líderes nos seus respectivos campos, tais como Ernst Mayr, Julian Huxley, George G Simpson, Theodosius Dobzhansky, E. B. Ford, G. L. Sttebins, dentre outros, passam a revisar o seu conhecimento pensando na ideia de evolução de forma mais científica e adotando e ajudando a construir o PPC Neodarwiniano da figura acima. Essas novas ideias foram publicadas em muitos trabalhos e artigos de pesquisa e, especialmente, em diversos livros de síntese (abaixo). O periódico Evolution, da Sociedade Americana para o Estudo da Evolução, foi lançado nessa época (acompanhado da Heredity, na Inglaterra, por Fisher; outra estória longa...). Um ponto de destaque na Teoria Sintética é a mudança de um pensamento tipológico para um pensamento populacional, proposta e amplamente desenvolvida por Ernst Mayr, que desenvolveu a partir disso o famoso conceito biológico de espécie (e consonante com a ideia da seleção natural que é, de fato, um processo populacional). Há muitos e muitos pontos a discutir sobre o que aconteceu nessa época, mas, no nosso contexto aqui, o mais importante é entender que tudo isso passou a ser chamado de “Teoria Sintética da Evolução”, ou “Nova Síntese”. Essa teoria representa um certo consenso, pelo menos em relação ao núcleo do PPC, sobre padrões e processos que foi se formando de forma espontânea e, a partir daí, segundo Dobzhansky, “Nada faz sentido em Biologia exceto à Luz da Evolução”.



Alguns dos livros que formam a "Teoria Sintética" ou "Nova Síntese" dos anos de 1940-1950

Esse consenso, com algumas poucas adições que discutiremos a seguir, é o que temos hoje nos livros didáticos de evolução para a graduação, por exemplo (mas está mudando rápido...). Em função desse grande consenso, pelo menos aparente, é que se fala em um “paradigma” no sentido Kuhniano. Entretanto, notem que ainda estamos nos anos de 1940-1950 e muita coisa ainda vai acontecer, e não vai demorar muito. Lembrem que nessa época nem se conhecia a estrutura do DNA (descoberta por James Watson e Francis Crick em 1953). Ainda temos algo como 70 anos de trabalho para chegarmos aos dias de hoje! Vamos avançar um pouco mais...


Embora possamos entender o Neodarwinismo como um PPC, tal qual definido e consolidado na Teoria Sintética, já havia muitas outras atividades de pesquisa em Biologia Evolutiva que estariam realmente um pouco “mais longe” desse PPC e que, em muitos casos, poderiam ser PPCs paralelos (não necessariamente competidores). Não que os pesquisadores nesse campo negassem ou questionassem a ideia de seleção natural e o Neodarwinismo, mas eles não estavam, realmente, trabalhando dentro do PPC. Por exemplo, muito da sistemática evolutiva e da biogeografia, sem falar na anatomia e fisiologia comparativa, embora fossem claramente “evolutivas”, não estavam necessariamente testando ou avaliando a Teoria Darwiniana/Neodarwiniana, pensada como um PPC. Essas áreas não estavam preocupadas com o “núcleo” conceitual da seleção natural, estando muito mais interessadas em elucidar os padrões do que os processos (populacionais, i.e., seleção natural). Seriam "darwinianas" apenas no sentido da ancestralidade e da "evolução horizontal", na evolução como fato, mas como vimos essa não era bem a ideia central de Darwin. Na melhor das hipóteses, a pesquisa nessas áreas simplesmente interpretava os padrões assumindo seleção e adaptação como “esperados”, quando eventualmente isso fosse necessário para entender um padrão qualquer. Isso não é realmente uma boa prática dentro do PPC (conforme criticado no famoso artigo de Gould e Lewontin de 1979). Mas, nessa nossa ideia, não há porque criticá-los, pois eles não estariam mesmo nesse PPC Neodarwiniano...


Para encurtar um longo histórico de desenvolvimentos a partir dos anos de 1970, vamos destacar apenas alguns pontos mais importantes e mais conhecidos que sugerem uma forte expansão do PPC do Neodarwinismo e/ou a criação de novos PPC paralelos ou associados, e que tentei ilustrar rapidamente no esquema que se segue. Na verdade, cada um deles exigira uma longa discussão, mas talvez esta não seja tão crucial – nem possível - explorar tudo isso agora! Vamos resumir para que possamos, finalmente, voltar à nossa questão original!





Nos anos de 1970-1980 aconteceram algumas discussões sobre “conflitos” e "ataques" à Teoria Sintética, vindos em princípio de duas áreas diferentes. Em primeiro lugar, a Paleontologia (ou, mais precisamente, a Paleobiologia) começou a mostrar que certos padrões de extinção e diversificação seriam mais complexos do que o esperado por uma simples extrapolação de processos graduais em pequenas escalas de tempo. Nesse contexto, a teoria mais famosa é a dos Equilíbrios Pontuados, proposta por Niles Eldredge e Stephen Gould em 1972 (e revisada em diversos trabalhos posteriores). Na realidade esse movimento terminou levando à discussão não só sobre os padrões, mas também sobre processos, envolvendo mecanismos alternativos para explicar a macroevolução, incluindo a ideia de que a seleção natural poderia atuar em níveis mais elevados (espécies). Essas discussões, em um contexto amplo, envolvem a proposição do que é conhecido como “expansão hierárquica da teoria da seleção natural”.


Ao mesmo tempo, no contexto de ampliações e modificações da própria ideia dos niveis e modos de ação da seleção natural (e sexual), temos nos anos de 1970 e 1980 toda a discussão sobre "genes egoístas" de Dawkins e, de uma maneira mais formal, toda a teoria de seleção de parentesco e de aptidão inclusiva de Hamilton! Em um contexto mais amplo, tudo isso se enquadrou fortemente no novo campo da Sociobiologia, que gerou muitas discussões quando da publicação do Sociobiology de E. O. Wilson em 1975 (para mim o último dos "grandes livros" da Teoria Sintética, mas já no contexto da ampliação do PPC).


O outro "conflito" importante apareceu quando o geneticista Motoo Kimura (1924-1994) e colaboradores, em particular a geneticista Tomoko Ohta, propuseram a teoria neutra da evolução molecular, que começa a se confirmar à medida que mais e mais dados moleculares se tornam disponíveis. A ideia é que a maior parte da variação em nível molecular é neutra, ou seja, evolui por processos estocásticos (equilíbrio deriva-mutação), e essa variação não possui importantes efeitos sobre o fenótipo em termos de sobrevivência. De certo modo paradoxalmente, o fato dessa variação em neutra (ou quasi-neutra, de fato) é o que permite que, atualmente, dados moleculares sejam utilizados de forma tão bem sucedida para entender os padrões de evolução e recuperar as relações de ancestralidade entre as espécies (uma vez que a adaptação e a seleção natural tendem a “apagar” o sinal histórico ao ajustar os fenótipos aos ambientes em cada tempo).


Após muitas discussões acaloradas, tanto as ideias de macroevolução e equilíbrio pontuado quanto a evolução neutra foram “assimiladas” no contexto da Teoria Sintética, inclusive porque elas não eram, de fato, “anti-darwinianas” (embora especialmente a teoria neutra seja, claramente, não-darwiniana, tal qual definimos acima, já que a diferença – molecular – entre as espécies não evolui por seleção natural e sim de forma neutra). Os equilíbrios pontuados, por sua vez, podem ser entendidos pensando na frequência dos diferentes modos de especiação (i.e., se a especiação é, em grande parte, parapátrica, um padrão pontuado de fato é esperado no registro fóssil; mas ainda há algumas controvérsias bem recentes sobre a teoria). As discussões sobre a expansão hierárquica da teoria da seleção natural, entretanto, ainda continuam bastante acirradas (mas, de qualquer modo, continuamos falando de seleção natural...).


Outro aspecto importante, que de certo modo se conecta à ideia de macroevolução, é que cada vez mais os padrões de desenvolvimento (a ontogenia) começaram a ser melhor analisados e compreendidos, inclusive em nível molecular e em termos de como variações na regulação da expressão gênica podem afetá-los. A ideia de associar embriologia e evolução já havia sido discutida pelo próprio Darwin na Origem, e pesquisadores próximos dele, como o alemão Ernst Haeckel (1834-1919) (que desenvolveu a famosa “lei da recapitulação”, que diz que a “filogenia recapitula a ontogenia” - sabemos hoje que não funciona assim), avançaram bastante nas interpretações evolutivas desses padrões. Entretanto, essas discussões não avançaram muito durante a formulação da Teoria Sintética e apenas mais recentemente novas descobertas permitiram criar todo um novo campo para avaliar esses padrões e sua regulação, que tem sido chamado de “Evo-Devo” (de Evolution and Development), inclusive baseado fortemente em toda a teoria e métodos da Biologia Molecular.


Então, na verdade muito dessas discussões nos anos de 1970-1980 levaram a uma ampliação e, talvez, à criação de outros PPCs paralelos que se interconectam (acho que a Teoria Neutra é claramente um PPC diferente, se pensarmos na figura acima), que estão representados, mais uma vez de forma não-exaustiva, no diagrama abaixo. De maneira geral, a opinião mais comum é que essas ideias não se contradizem e, a partir de um certo momento, alguns acham que todas foram facilmente assimiladas e passaram a “fazer parte” da Teoria Sintética (Resistance is futile...desculpem, mais uma brincadeira de trekker). Evitando longas discussões semânticas, esse não é bem o caso pela visão Lakatosiana da Teoria Sintética dos anos de 1940-1950, centrada na ideia de seleção natural (que coloquei como um PPC). Mas não importa, certamente podemos dizer que todos esses múltiplos PPCs estão integrados em uma visão mais ampla que nos permite entender diferentes aspectos da evolução biológica.


Assim, acho que quando falamos hoje, início do século XXI, de “Teoria da Evolução”, na realidade estamos falando de diversos PPC sobrepostos, paralelos ou eventualmente competindo e termos de explicação (alguns crescendo rapidamente, como a EvoDevo) e que nos ajudam a entender múltiplos padrões e processos evolutivos, a grande área azulada da figura abaixo. Novas ferramentas em analise molecular, envolvendo todo o avanço da genômica, bem como novas metodologias sofisticadas de análise estatística, dão suporte a muitos desses PPCs. Nesse sentido, fica claro que a “Teoria da Evolução” é, de fato, extremamente bem sucedida, pois temos vários PPCs explicando diferentes partes ou diferentes componentes do processo, o que faz sentido considerando a complexidade da vida. Se, e como, será possível colocar todos esses PPCs de uma forma mais integrada e coerente, isso é trabalho para o futuro (e isso não invalida, de modo algum, o trabalho atual em nenhum deles).





Nesse contexto de integração dos PPCs e sua expansão, ainda há um último ponto a colocar. Alguns biólogos evolutivos acham que algumas dessas novas ideias e novos PPCs, na verdade, exigem que a Teoria Sintética seja revisada e ampliada, e tem se falado bastante em uma “Síntese Evolutiva Expandida”, ou “Extendida”, como amplamente discutida no livro inicial de M. Pigliucci e G. B. Muller, Evolution: The Extended Synthesis, de 2010, e em vários outros desde então. Se estamos pensando na Teoria Sintética como um PPC, a ideia é que esse PPC seja expandido e/ou substituído por outro mais integrativo, como propôs recentemente o filósofo italiano Telmo Pievani. Na realidade, podemos pensar no PPC inicial do Darwinismo/Neodarwinismo se “deslocando” e se ampliando no "mundo das ideias", no sentido de que o “núcleo” do PPC deve ser repensado, como se os diferentes PPCs se fundissem. Não sei se é tão simples assim, e confesso que ainda não está 100% claro para mim, sob o ponto de vista epistemológico...Preciso pensar, mas enfim, sou pago para isso...


Os pontos principais da discussão sobre a Síntese Expandida envolvem quatro aspectos mais importantes: os “vieses” de desenvolvimento, a plasticidade do desenvolvimento, formas mais inclusivas de herança (não-mendeliana) e a construção de nichos. Alguns acham que esses quatro aspectos já são bem conhecidos e bem compreendidos há muito tempo e podem ser facilmente integrados à Teoria atual, mas outros acham que eles podem ter um papel maior na evolução e, de certo modo, tornam a seleção natural menos importante (para os interessados nos aspectos mais técnicos, uma leitura inicial dos principais aspectos e proposições da expansão da síntese é o artigo de Laland e colaboradores, publicado em 2015 no Proceedings of Royal Society). Alguns pesquisadores com uma visão mais radical e pensando na teoria sintética de forma paradigmática, acham que a Síntese Expandida requer uma “mudança de paradigma” (como já disse antes, não acho que o conceito de paradigma se aplique bem aqui, mas de qualquer modo mostra a diferença de ideias...). Essa é um debate que está ocorrendo agora e mostra, independente do seu desfecho, que o conhecimento sobre evolução continua avançando.




CODA


Chegamos ao final da nossa história do pensamento evolutivo e acho que o digrama acima nos mostra uma série de coisas...O papel de Darwin é extremamente importante pelo pioneirismo, disso não temos dúvida! Sua importância é ter lançado, como vimos pela minha intepretação do processo histórico, as bases do primeiro PPC em Biologia Evolutiva ou, se vocês preferirem, de ter estabelecido as bases de um “paradigma no sentido estrito”, no sentido de Godfrey-Smith. Portanto, entendo que essa é nossa resposta “final”. Falamos em Darwin pelo pioneirismo e pela genialidade de suas ideias em um tempo em que toda a concepção de evolução girava em torno de implicações metafísicas. Com Darwin, estudar evolução e entender os padrões e processos envolvidos se torna parte da atividade científica, ganha o público e deixa de ser apenas uma discussão acadêmica sobre suas implicações e aplicações filosóficas, religiosas ou sociológicas (embora essas discussões, certamente, continuem sendo muito importantes; mas esse é um assunto que vamos explorar em postagens futuras!). Mas me permitam, à guisa de conclusão, explorar alguns desdobramentos importantes da nossa resposta à questão original (em resumo, o pioneirismo de Darwin).


Em primeiro lugar, um ponto polêmico: a partir de toda a discussão apresentada acima, é bem questionável se podemos falar que o nosso pensamento hoje é, de fato, “Neodarwiniano”, pelo menos no sentido do PPC centrado da Teoria da Seleção Natural e organizado de acordo com o que chamamos de Teoria Sintética da Evolução. Digo isso mesmo incorporando as adições que são hoje “tradicionalmente” aceitas, nos livros didáticos, por exemplo, como o Neutralismo de Kimura e os equilíbrios pontuados de Eldredge e Gould, e hoje já muita coisa sobre EvoDevo. Mesmo na ideia mais tradicional que todas as novas descobertas e ideias foram "assimiladas" pela Teoria Sintética, pensada de forma paradigmática, eu tenho dúvidas...Gould, em seu enorme The Structure of Evolutionary Theory, de 2002 (publicado no ano de sua morte) coloca que sim, podemos chamar nossa visão de Darwiniana pela "centralidade" da ideia de seleção natural, mas ele estava pensando em um sentido mais amplo, não em um PPC. Enfim, é uma discussão talvez em grande parte semântica, mas com algum fundamento epistemológico e, como estamos muito acostumados que nomes nos ajudem a entender e sintetizar os conceitos subjacentes, talvez seja importante definir melhor isso. Para mim, agora, são vários PPCs simultâneos, na melhor das hipóteses formando uma ampla concepção teórica ainda "centrada" no PPC Neodarwiniano original. Mas faço essa provocação por uma boa razão!


Espero que todos que conseguiram chegar até aqui compreendam que, quando alguém diz que a nossa teoria atual não é necessariamente “Darwiniana” ou “Neodarwiniana”, isso não significa desmerecer ou diminuir a importância de Darwin, muito pelo contrário. O ponto para o qual quero chamar atenção, e que espero que tenha ficado claro pela longa exposição acima, é que aconteceu MUITA COISA na Biologia desde 1859 (e o que apresentei foi um resumo, enfatizando os momentos e eventos que eu considero mais relevantes, claro que há muito mais pessoas e muito mais detalhes em toda essa história). Ao contrário do que muitos possam pensar, quando falamos que somos “Darwinistas”, ou quando se fala que “Darwin desenvolveu - ou descobriu, ou criou - a Teoria da Evolução...”, isso não significa que ele (Darwin) inventou “tudo” e que ficamos durante os últimos 150 anos apenas lendo o que ele escreveu, olhando a natureza e interpretando tudo “à luz” da sua teoria exposta na Origem, como se ele fosse um profeta, um enviado, ou algo assim...Espero que tenha ficado claro que temos um certo continuum de ideias mudando com o tempo, ampliando o poder explicativo das teorias ou PPCs, e muitas pessoas foram, ao longo do tempo, contribuindo com teorias, modelos e dados empíricos. Toda essa informação acumulada foi sendo analisada, criticada, debatida (e os debates nem sempre estão resolvidos) e eventualmente consolidada de forma coerente, criando a nossa visão atual da evolução, que é bastante “plural” (como o próprio Darwin, na época, achava que teria que ser). Por isso, a teoria evolutiva, pelo menos no sentido de “evolução como fato” de Michael Ruse, é uma das teorias mais integradoras e consolidadas da Ciência moderna! Tem muito trabalho duro envolvido nisso tudo...Isso não é algo particular da Biologia Evolutiva, pois é assim que a Ciência de fato funciona em geral! Não sabemos tudo, mas sabemos muita coisa sobre evolução! E vamos continuar aprendendo, como demonstram as discussões e debates atuais sobre a Síntese Expandida.


Por outro lado, quando digo que sabemos algumas coisas e que vamos continuar aprendendo, isso não significa que podemos aceitar qualquer nova ideia em nome dessa “pluralidade”. Isso porque, ao longo dos últimos 150 anos, muitas teorias e modelos foram excluídos como parte da explicação e como causa da evolução, talvez no melhor sentido Popperiano de falseabilidade. Toda a ideia de “design inteligente” que tem sido proposta como uma “nova teoria” para “explicar” a complexidade (vejam a postagem anterior sobre o criacionismo) na verdade não passa de uma forma pseudocientífica de disfarçar as visões criacionistas que são totalmente anticientíficas. Esse “debate” já ocorreu no século XVIII e XIX e essas ideias metafisicas e ad hoc para explicar a impossibilidade das adaptações pela complexidade do design foram eliminadas não só pelo Darwinismo, mas também por outras teorias não-darwinianas da época (que depois foram, também, refutadas). E obviamente as novas descobertas e discussões em Biologia Evolutiva não vão nos levar de volta a um pensamento criacionista bíblico. Mesmo pensando nos novos questionamentos da Síntese Expandida ao Neodarwinismo e à Teoria Sintetica, o que se propõe é que as adaptações podem surgir de forma ainda mais rápida e podemos entendê-las melhor a partir de mudanças em sistemas de regulação do desenvolvimento, por mecanismo de herança mais flexíveis, pelo modo como o ambiente potencialmente é capaz de modular ou canalizar os fenótipos e como estes ambientes podem ser alterados pela própria evolução dos organismos.


Então, quando falamos em Darwin e pensamos nele como um "ícone" ou um “símbolo” da ideia de evolução por causa do seu pioneirismo, parece que abrimos espaço para que ele seja equivocadamente atacado pelos criacionistas, se tornando persona non grata, mensageiro do mal... E coitado do Wallace, nem para isso (para ser criticado e dividir o ônus com Darwin) ele é lembrado...Acho que pelo menos R. A. Fisher, J. B. S. Haldane e Sewall Wright também merecem uma boa parcela da "culpa" por tudo. Dobzhansky, Mayr, Simpson, Morgan, Stebbins, Ford, Kimura, Ohta, Lewontin, Maynard-Smith, Hamilton, Jablonka, Wilson, Eldredge, Gould, e tantos outros, todo mundo "merece" um lugar no 6º círculo do inferno! Richard Dawkins então nem se fala, seria o próprio “Capelão do Diabo”...



Duas fotos de "Down House", a casa próxima à Londres onde Darwin trabalhou durante a maior parte de sua vida, hoje transformada em um museu (fotos de minha amiga Vera Saddi)

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