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  • José Alexandre F. Diniz F

EUGENIA

“...Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos."

(Robert Oppenheimer, Diretor do “Projeto Manhattan”)



Não é surpreendente que tenhamos tantas confusões e polêmicas a partir de postagens no Twitter. Mesmo com grande poder de síntese, acho bem difícil discutir ou explorar ideias complexas em 280 caracteres! Uma dessas polêmicas aconteceu há algumas semanas, quando o professor de Oxford e famoso biólogo evolucionista Richard Dawkins fez uma postagem com a seguinte afirmação em seu twitter:


"Uma coisa é lamentar a eugenia por razões ideológicas, políticas e morais. Outra coisa é concluir que não funcionaria na prática. Claro que sim. Funciona para vacas, cavalos, porcos, cães e rosas. Por que diabos não funcionaria para humanos? Os fatos ignoram a ideologia"



Essa postagem gerou uma enorme quantidade de discussões e críticas a Dawkins por toda a internet, e com razão, de modo que quero aproveitar então o tema e discutir um pouco a questão da Eugenia, seguindo as várias postagens anteriores sobre darwinismo, criacionismo e evolução. Essa discussão é importante porque rapidamente apareceram alguns comentários associando o suposto “apoio” de Dawkins à Eugenia à sua defesa do ateísmo (associando o ateísmo a uma falta de moral ou algo assim) e ao próprio Darwinismo, já que existe uma forte associação entre Eugenia e seleção natural e artificial. Quero explorar as complexas analogias entre seleção natural e artificial nesse contexto, bem como a questão da ligação entre ciência e ideologia. Ao mesmo tempo, a discussão se torna importante no contexto da pandemia do covid19, em curso!


Eugenia é, em resumo, melhoramento genético humano. O termo foi criado em meados do século XIX por Francis Galton, primo de Darwin e um dos pioneiros da genética quantitativa e evolutiva, e pode ser definida como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente". Na primeira metade do século XX, as ideias sobre a herança começaram a se consolidar e, com isso, passamos a entender melhor a importância da seleção natural para a evolução (ver “Por que Darwin?”). Ao mesmo tempo, passamos a entender melhor os processos de seleção artificial das espécies domésticas. Naturalmente, a ideia de aplicar isso de forma sistemática à espécie humana começou a fazer parte das discussões sob um ponto de vista teórico. Muito dos trabalhos da fase inicial da genética foram publicados no “Annals of Eugenics”, criado em 1925 por Karl Pearson (vejam aqui o primeiro artigo, por curiosidade...; em 1954 o perfil do periódico e seu nome mudaram e ele existe até hoje, o Annals of Human Genetics). Muitas culturas antigas, em um certo sentido, faziam isso “eliminando” crianças nascidas com deformidade ou qualquer característica indesejável (e, infelizmente, Dawkins realmente se envolveu em uma polêmica em 2014 sobre o aborto de fetos com síndrome de Down...).


A ideia de seleção artificial está intrinsecamente ligada à ideia de agricultura, que surgiu independentemente em diversas partes do mundo há pelo menos 10,000 anos atrás. Gradualmente, percebemos que podíamos, ao manter espécies de animais e plantas sob nosso controle, em termos de reprodução, selecionar quais dos descendentes eram mais semelhantes ao que precisávamos em um determinado momento e deixar com que apenas estes se reproduzissem, formando a próxima geração. Após várias gerações, aquela população sob nosso controle se tornaria gradualmente diferente da original e passaria cada vez mais a ter os atributos que desejávamos. Há vários detalhes técnicos sobre como isso sempre foi feito (de forma empírica, por tentativa e erro), mas a partir do início do século XX passamos a entender como esse processo funciona, em termos de herança e biologia evolutiva.


O que nós fizemos foi gerar um processo de evolução dessas populações e desses atributos. O próprio Darwin começa a Origem das Espécies discutindo a seleção artificial em pombos domésticos. Entretanto, a analogia funciona no sentido de nos ajudar a entender a “mecânica” do processo de seleção, mas há diferenças importantes entre a seleção artificial e a seleção natural. Acredito que essas diferenças criaram uma série de problemas de compreensão ao longo do tempo (mas que vão nos ajudar a entender o problema da Eugenia, em seguida). O mais importante é que, ao fazermos a seleção artificial, temos inicialmente um “alvo” claro e mantemos a pressão seletiva direcional por várias gerações até alcançarmos nosso objetivo. Isso não acontece na natureza, em primeiro lugar porque a pressão de seleção é o próprio ambiente que está mudando ao longo do tempo (embora haja alguns casos onde há pressões constantes e na mesma direção por várias gerações, criando, por exemplo, a evolução de sistemas de ataque-defesa em predadores e presas em um modelo que chamamos de “corrida armamentista”). No entanto, mesmo nos casos de evolução natural mais direcional, não existe um “alvo” predeterminado, mas uma resposta local que pode ir se acumulando em uma mesma “direção”. Tecnicamente, essa é uma discussão sobre o papel da “teleologia” da evolução, o que significa que a analogia entre seleção natural e artificial abre espaço para uma série de discussões filosóficas sobre propósito e pré-determinação (por exemplo, alguém pode pensar que a seleção natural é o mecanismo que Deus usou para criar a espécie humana, em um modelo simples de evolução teísta!). Como já discutimos várias vezes, nossas características morfológicas e fisiológicas são muito semelhantes à dos demais mamíferos e primatas e, certamente, grande parte delas evoluiu por seleção natural. Cada vez mais entendemos que muitas das nossas características psicológicas e comportamentais também, claro. Em graus variáveis, essas características explicam diversos aspectos da nossa estrutura social (e isso é outra longa discussão, envolvendo um tema que é também considerado polêmico, a Sociobiologia!). Há muito que explorar nesse tema, mas o que quero dizer aqui é que entender corretamente os limites da analogia entre seleção natural e artificial que coloquei rapidamente acima é extremamente importante para entendermos a discussão sobre Eugenia e o significado e as implicações da postagem de Richard Dawkins.


O foco da discussão da postagem de Dawkins está, pelo que apreendi, na frase “Uma coisa é lamentar a Eugenia...outra coisa é dizer que ela não funcionaria na prática”. Então, vamos tentar entender isso com mais de 280 caracteres. Para evitar qualquer mal-entendido, digo desde já que sou totalmente contrário à Eugenia, mas por razões opostas às que têm sido muitas vezes levantadas no caso do Dawkins. Pelo que pude perceber, muitas críticas à postagem de Dawkins no Twitter tem atacado, acho, o ponto errado...


Entendo que quando Dawkins fala de eugenia, ele diz que ela “funcionaria”, no sentido de ser possível (não funcionar no sentido de “melhorar”, como vou discutir a seguir). Talvez a melhor maneira de colocar a questão seja: é possível fazer melhoramento genético humano? A resposta é SIM e por uma razão muito simples. Nós, seres humanos, somos uma espécie como outra qualquer, como discuti longamente em uma postagem anterior, somos um mamífero primata hominoide! Então, se fazemos seleção artificial em tantos outros mamíferos, a resposta é obviamente sim. Li algumas críticas à postagem de Dawkins dizendo, por exemplo, que não seria possível melhorar a inteligência humana ou várias outras características sociais e culturais, por exemplo, porque elas seriam muito mais influenciadas por ambiente do que por genes (essa proporção do efeito genético em relação à variação total na população é chamada tecnicamente de “herdabilidade”). Tudo isso parte de uma compreensão equivocada e simplista de como funciona a evolução e sobre como fizemos melhoramento genético em animais e plantas. Sim, às vezes é difícil melhorar uma característica em uma “direção” predeterminada, não só porque a herdabilidade é baixa, mas porque ela pode estar correlacionada com outras que restringem as possibilidades de variação por aumentar a mortalidade, por exemplo. Mas exceto se a herdabilidade para uma característica for um zero absoluto (e raramente é...), é possível sim dirigir a mudança dela aos poucos, só que isso pode levar muito tempo ou pode exaurir muito rapidamente a variabilidade genética (e por isso hoje usam-se técnicas de transgenia e hoje há várias ferramentas sofisticadas de manipulação de embriões e edição gênica que podem acelerar, e muito, todo esse processo).


Então, nesse sentido de modificar geneticamente uma população humana com um dado objetivo, eugenia “funciona” sim, não em termos do que ela é capaz de fazer, mas em termos de possibilidade (quero crer que é isso que Dawkins quis dizer, inclusive porque a primeira frase de sua postagem é justamente contrária à eugenia...é justo dizer também que rapidamente ele esclareceu a questão quando começaram as polêmicas, embora nem todos aceitem isso). Com coloquei antes, a ideia de Galton e os primeiros geneticistas de populações, como Ronald Fisher e Karl Pearson era o que poderíamos chamar de “seleção positiva”, incluindo a eliminação de doenças e ao mesmo tempo “reforçando” o potencial de certas características “desejáveis”, como a inteligência (embora, como vimos no caso do artigo de abertura de Pearson no Annals of Eugenics, isso tenha levado quase que automaticamente a práticas racistas e xenófobas que certamente geraram muito sofrimento nas pessoas perseguidas; existe uma discussão filosófica importante aqui ligada à questão do mal que começa com Sócrates...tema para outra postagem!). Tudo bem, mas se eu estou concordando com Dawkins nesse sentido de “funcionaria”, qual é o problema da sua postagem? Estou entendendo que ele rejeita a Eugenia (primeira sentença) e que o termo “wouldn't work” quer dizer simplesmente que é tecnicamente possível (e não que o resultado em si seja bom, ou que seja desejável, como ficou claro na primeira sentença da postagem). Então, para mim o problema principal está na frase final dele, “Facts Ignore Ideology”. O problema é abrir a “caixa de Pandora”...


Fatos ignoram ideologias. Dei uma grande “volta” para chegar nessa frase aparentemente simples, mas que possui ENORMES implicações, de modo que podemos gastar muito discutindo seu significado (e a essa altura vocês já sabem por que não consigo usar realmente o Twitter...). Eu não sei bem o que Dawkins quis realmente dizer com isso, e me permitam algumas especulações não no sentido de realmente entender o que ele quis dizer, mas sim de discutir possibilidades de entender a frase em si. Com isso, espero que as pessoas entendam que essa frase pode ser distorcida e, de fato, usar para que possamos adotar práticas científicas alegando “independência de ideologias” (quando, na verdade, outras ideologias estariam subjacentes a essas práticas).


Podemos entender essa frase no sentido de que os fatos (científicos) existem independentemente do que achamos sobre eles. Essa é uma discussão sobre o “relativismo científico”, que começa a partir dos anos 70 e que desencadeou, infelizmente, o que foi chamado de “Science Wars”. Em uma versão inicial mais “leve”, a ideia do relativismo científico e da sociologia da ciência sugere que não é possível entender o trabalho de um cientista sem considerar o seu contexto social e cultural. Continuando com exemplos no nosso contexto de evolução e seleção natural, até que ponto as ideias de Darwin e Spencer foram influenciadas pela sociedade inglesa do século XIX? A resposta me parece ser que sim, seria esperado que Darwin e Spencer desenvolvessem a ideia de seleção natural e evolução (principalmente na visão progressista de Spencer) nesse contexto. Mas será que o fato de nós termos hoje uma sociedade (pelo menos em parte) diferente da sociedade inglesa do século XIX em diversos sentidos e não aceitarmos muitos (ou a maior parte) de suas características, como o machismo e a discriminação social e racial, invalida a ideia de seleção natural? A maior parte dos cientistas das áreas “naturais” acha que não, que o contexto da descoberta é independente da justificativa da descoberta (e do fato em si). Mas nas ciências humanas e sociais a questão não é tão simples, e existe uma interessante “zona cinzenta” nessa discussão (na análise do comportamento humano e animal, por exemplo!). Na minha compreensão essa discussão deu a origem às “Science Wars”, cujo ponto mais negativo é ter acirrado e criado fronteiras de certo modo artificiais entre ciências “humanas” e “naturais” (como se o homem não fosse natural, e como se “ser humano” não fosse, por suas características sociais, psicológicas e emocionais algo peculiar dentro da natureza). Ao mesmo tempo, como já discutimos, um relativismo extremo gerou questionamentos sobre a própria natureza da ciência e, aparentemente, abriu uma grande brecha para o avanço do negacionismo e da pseudociência (ou seja, se realmente os fatos científicos dependem de características culturais e sociais, como podemos negar que mudanças climáticas antrópicas não seriam produto da visão de “esquerdistas” que querem usar isso para impedir o avanço do capitalismo?).


Existe uma outra questão, talvez mais operacional e prática, que também podemos discutir no contexto da frase “Fatos ignoram ideologias”. Por definição, como já discutimos, achamos que não há limites para o conhecimento científico, em diversos sentidos. Por exemplo, vemos claramente que existe um acúmulo de “fatos” ao longo do tempo, certamente existe muito mais informação científica hoje sobre os mais diferentes aspectos da natureza e da sociedade do que havia, digamos, no século XIX (i.e., informação científica no sentido de empiricismo). Mas também vejam que, ao mesmo tempo, nossas teorias se acumulam, e o progresso da ciência se dá não só pelo acréscimo de conhecimento empírico, mas também sobre como os mesmos “fatos” são percebidos e entendidos por diferentes teorias. Isso, por sua vez, nos leva a uma discussão importante, mas extremamente complexa, sobre o “realismo científico”, que quero explorar futuramente com mais calma (e que, de certo modo, abre espaço, em alguns contextos, para a discussão sobre o relativismo).


No momento, basta pensarmos que a ciência avança tanto pelo acúmulo de fatos e evidência empíricas quanto pela mudança nas suas teorias. Mas o ponto para o qual quero chamar atenção nesse sentido é: se a ciência sempre avança e há muito por descobrir, digamos assim, quem define que fatos vamos acumular e que teorias vamos desenvolver ou testar? Quem define a “direção” do progresso da ciência? A própria ciência? Isso é espontâneo ou “natural”? Nós gostamos de pensar dessa forma e eu mesmo sempre defendo, por exemplo, que na Universidade temos toda a autonomia e liberdade de trabalhar nas linhas que queremos. Isso é verdade apenas em parte e reforçar essa ideia, embora continue me parecendo interessante sob um ponto de vista quase estoico (e precisamos discutir isso também, em algum momento...), não pode distorcer a realidade e nós não podemos ser ingênuos ou românticos em relação a isso. Seja de forma consciente ou inconsciente, seguimos uma agenda de pesquisa científica que é, em grande parte, pré-determinada social e culturalmente. Nossa liberdade é, em grande parte, ilusória, seja porque precisamos de recursos e bolsas de estudo e nos submetemos a editais em linhas definidas, seja porque algumas linhas são mais “interessantes” por parte da sociedade e chama mais atenção, aumentando o potencial de status social (e muitos tendem a seguir essas linhas). Claro, esperamos que em parte isso seja devido à própria curiosidade científica, mas esse balanço entre seguir uma agenda e seguir sua própria curiosidade (digamos “natural” da ciência, na falta de uma palavra melhor...) varie muito entre as áreas do conhecimento. Em geral nós seguimos um “mainstream” da ciência, cujas linhas e direções de avanço são definidas por agentes sociais e políticos em diferentes escalas geográficas, locais, regionais, nacionais ou internacionais. Quero explorar essa ideia com mais calma em um contexto mais “atual” no Brasil, mas acho que não existe neutralidade em ciência! A ciência não é capaz de definir, de modo independente e autônomo, sua própria agenda...


O que quero dizer, o fato é que algumas linhas de investigação são prioritárias em função de outras razões que não (apenas) a própria curiosidade científica. Pensando em um exemplo atual e sensível, vamos pensar nos cientistas trabalhando agora noite e dia para entender a epidemiologia (a partir da qual seria possível desenvolver estratégias para minimizar a difusão do vírus) e para desenvolver uma vacina contra o SARS-Cov2 que se espalha pelo mundo. A questão é: por que investimos tanto em pesquisa e sistemas de saúde pública para controle de doenças infecciosas, ou qualquer doença em geral? Os Governos estão dispostos a investir em pesquisa e os contribuintes estão dispostos a construir hospitais, clínicas, laboratórios, adquirir equipamentos sofisticados e caros, pagar o pessoal especializado, médicos, enfermeiros, biomédicos etc. Mas e se decidimos investir em “melhorar” o sistema imunológico por práticas eugênicas e deixar a seleção natural (sim, nesse caso é seleção natural mesmo!) seguir o seu rumo e selecionar os genes de resistência (nos indivíduos) que possuam mais resistência a essas doenças? Ou seja, simplesmente deixamos quem não tiver resistência às doenças emergentes morrerem, afinal isso foi o que aconteceu na humanidade na maior parte da sua história...Claro, achamos isso hoje totalmente inaceitável, mas não por causa de qualquer razão “científica”. É uma escolha, baseada em nossos valores e principais, que levam à ideia de que a saúde da população é importante, que cada vida é preciosa e que devemos usar a ciência para evitar sofrimento e morte. A própria prática da medicina parte desse pressuposto, no juramento de Hipócrates!!! Uma vez, quando ainda estava na graduação, perguntei a um professor de genética médica justamente isso, e a resposta dele (fantástica) foi que o objetivo final da ciência médica era exatamente contrapor a seleção natural! Mas parece que as coisas estão começando a mudar...


Mas esperem, é justamente deixar a seleção natural agir que os primeiros-ministros da Inglaterra, Boris Johnson, e dos Países Baixos, Mark Rutte, estão propondo no caso da pandemia do SARs-cov2 em curso!!! Se não adotarmos medidas de distanciamento social e, mais radicalmente, de isolamento social, mais pessoas vão se expor ao vírus e, gradualmente, elas se mostrarão mais resistentes. Com isso, a pandemia vai acabar mais rápido e os impactos econômicos serão menores. Perfeito, é isso mesmo...Só que há um "detalhe" ai: para que isso aconteça, MUITAS PESSOAS VÃO MORRER!!!! Eles estão mesmo dispostos a sacrificar 5% da população nesse processo? É assim que a seleção natural age, com certeza...Não precisamos nem falar na possibilidade de que, ao aumentar a densidade do vírus com o aumento do contágio, há maior probabilidade também de que ele evolua rapidamente para outras formas mais letais inclusive (vejam aqui uma análise das possibilidades de origem e evolução do SAR-cov2). Talvez não seja bem Eugenia, em um sentido estrito, mas a prática é próxima o suficiente...E, de qualquer modo, ilustra bem o ponto das prioridades de pesquisa.


Então, se chegarmos a um consenso mínimo de que fatos científicos (“naturais”) independem de ideologia, mas foram pensados e descobertos em função do contexto social e cultural, e que a descoberta destes e de outros fatos no futuro é mediada (em termos de prioridade e/ou agenda) pela sociedade, podemos começar a entender melhor o problema da frase de Dawkins. Podemos então voltar para a Eugenia e para a analogia de seleção natural e artificial, e tentar responder à seguinte questão: é fato é que podemos – se quisermos - fazer Eugenia e melhoramento genético em seres humanos, do mesmo modo que fizemos com várias espécies de animais domésticos nos últimos 10,000 anos (nesse sentido Dawkins estaria certo). Mas quem vai definir qual é, ou quais são, os alvos da seleção artificial? Vamos “melhorar” em que direção? Notem que agora eu coloquei o “melhorar” entre aspas, mas não antes, quando me referi à seleção artificial de animais e plantas. Os alvos do melhoramento genético na agricultura são claros e definidos objetivos, em termos de produtividade, por exemplo. Mas na Eugenia as coisas se complicam...Mesmo no caso da seleção "natural" na Inglaterra e nos países baixos, em que a direção é em princípio "desejável" (ou seja, aumentar a resistência a um vírus), estamos dispostos a pagar o preço? De modo geral a resposta é NÃO!


Os eugenistas do início do século XX podem ter tido a melhor das intenções e querer melhorar a inteligência, por exemplo. Mas quem garante que, em algum momento, um Governo autoritário não poderia desejar “desenvolver” seres humanos com outras características? Atualmente, além das técnicas tradicionais de acasalamento seletivo, temos técnicas de edição genética e manipulação de embriões, de modo que seria muito fácil criar uma população morfologicamente “saudável” e com um corpo escultural, capazes de proezas olímpicas e com grande força física, com cabelos loiros e olhos azuis. Arianos perfeitos, o sonho de Hitler. Sabemos cada vez mais que mesmo características comportamentais e neurológicas possuem uma base biológica herdável, incluindo a inteligência, sendo, portanto, passíveis de seleção. Vejam que isso não significa que será possível deterministicamente gerar indivíduos com essas características comportamentais; significa apenas que, em média, a frequência de indivíduos com essa característica na população começaria a aumentar. E, some-se a isso uma manipulação do próprio ambiente (que é até mais fácil do que a manipulação em nível biológico/genético) de modo que facilmente criar interações genético-ambientais a fim de dirigir muitas características em diversas direções, de modo que teríamos em um curto espaço de tempo uma sociedade construída de forma eugênica! Já discutimos anteriormente a questão da seleção independente da herança biológica, com base em herança cultural, no caso da “cúpula da demografia” da qual a ministra Damares Alves participou.


Finalizando e voltando à colocação de Dawkins, quero terminar com uma provocação: se a Eugenia não “funciona/funcionaria”, como alguns argumentam, por que se preocupar? Acho que com certeza devemos rejeitar a Eugenia não porque ela não funciona, mas justamente porque SIM, ela funciona!!!!! Os perigos de começar a discutir possibilidades de seleção “positiva” é que isso simplesmente não existe independente de escolhas políticas e culturais e nada garante que isso não será usado de forma maléfica. Estamos vendo isso agora na Inglaterra e nos Países Baixos no caso da pandemia do covid19... Então, pensar em ciência de forma neutra é uma ingenuidade, e infelizmente uma ingenuidade que pode ser perigosa! Daí o problema da sentença final de Dawkins. Seria muita ingenuidade, poucos anos após o final da Alemanha nazista e quando vemos um ressurgimento de tantas visões conservadoras, reacionárias e xenófobas em todo o mundo, achar que ninguém pensaria em usar a Eugenia para fins "maléficos"...O fato de podermos tecnicamente fazer alguma coisa não significa que seja desejável fazer isso. Não sei se é possível evitar totalmente práticas eugênicas em diferentes níveis, e elas formam de fato um continuum de possibilidades, indo desde práticas aparentemente não-nocivas (como escolher o sexo de um embrião, ou a ausência de marcadores de certas doenças, mas daqui a pouco a cor do olho, ...) até os casos extremos e claramente indesejáveis como mencionei acima. Talvez uma boa analogia seja o uso da energia nuclear (e a frase de Oppenheimer, que foi o diretor do projeto Manhattan - que desenvolveu a bomba atômica no final da 2ª. Guerra Mundial – que abre a postagem). É uma questão de perdas e ganhos...Mas com certeza precisamos ficar muito atentos e tomar cuidado, sempre, com a abertura dessas caixas de Pandora!


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