• José Alexandre F. Diniz F

A "TEORIA DO MACACO"


“Descentes de macacos? Vamos esperar que não seja verdade,

mas se for, vamos rezar para que ninguém descubra isso”

(atribuído à esposa de um bispo inglês, ao saber sobre a ideia de evolução...)


Em 1860, durante a reunião anual da Sociedade Britânica para o Avanço da Ciência (equivalente à nossa SBPC), em Oxford, ocorreu um dos mais famosos debates da história da Biologia Evolutiva. Poucos meses depois da publicação da “Origem das Espécies” de Darwin, o zoólogo Thomas Huxley (1825-1895) (apelidado de “buldogue de Darwin”), respondeu ao Bispo de Oxford, Samuel Wilberforce (1805 - 1873), que não teria vergonha de ser descendente de um macaco, mas que sim, teria vergonha de descender de um homem que usa seus dons para ocultar a verdade. Wilbeforce havia perguntado a Huxley se era por parte de pai ou mãe que ele descendia de um macaco (as frases exatas variam entre as diferentes narrativas, e ninguém sabe ao certo, mas vocês pegaram a ideia...). É bem provável que o debate não tenha sido tão espetacular assim e que talvez Huxley não tenha saído dele como “vencedor” (na realidade a principal figura nesse evento foi Hooker e não Huxley - vejam o ensaio de Gould sobre o debate, em seu “Viva o Brontosauro”).


De qualquer modo, a lenda em torno desse debate entrou no rol de estórias importantes na Biologia Evolutiva, principalmente pela questão da discussão entre ciência e religião que se instalou a partir do desenvolvimento do pensamento evolutivo em meados do século XIX e que, de fato, continua até hoje, como discutimos nas postagens anteriores sobre o problema do criacionismo, em um contexto de divulgação científica e dos gradientes de pensamento científico-religioso.


Na verdade, embora Darwin não tenha discutido, na Origem das Espécies, quase nada sobre evolução humana (ele disse simplesmente que “...luz será lançada sobre a origem do Homem e sua história”), rapidamente as pessoas perceberam as implicações da sua teoria nesse sentido. De fato, as questões ligadas às origens da espécie humana sempre estiveram no epicentro das discussões sobre evolução, sendo em grande parte o ponto focal dos conflitos entre ciência e religião, como ilustrado no debate Huxley-Wilbeforce. Ao longo da segunda metade do século XIX, os mais religiosos mais conservadores simplesmente eram (como são até hoje) incapazes de aceitar que o Homem tenha se originado de “seres inferiores”, ao passo que os mais liberais, embora aceitassem essa ideia em nome de uma visão progressista (onde o Homem seria o “ápice” da Natureza), claramente implicam que uma intervenção divina seria necessária em algum momento para que surgisse a mente (e a alma imortal) do Homem. Outras ideias teológicas sugerindo uma maior continuidade entre a espécie humana e as demais espécies animais (que existem em muitas religiões orientais, por exemplo) em termos de anima ou alma, apareceram por várias vezes. Mas essas ideias sempre tiverem menor aceitação, mesmo pelas correntes mais liberais das Igreja Católica e Anglicana (como por exemplo a visão de Teilhard de Chardin, 1881-1955). Mas vamos discutir melhor essas questões das mudanças da visão religiosa associadas a mudanças sócio-econômicas nos séculos XIX e XX e às mudanças na própria teoria evolutiva em outro momento.


Voltando à questão do debate entre Huxley e Wilbeforce e à relação entre o Homem e o “macaco”. O debate e o comentário de Wilbeforce (se é por parte de pai ou mãe que você descende de um macaco) ilustram um ponto que até hoje é colocado e mencionado nas discussões sobre a evolução em geral, e na evolução do Homem em particular, que revela como as pessoas ainda não entenderam os padrões e processos em evolução. Há várias frases que ouvimos constantemente que remetem basicamente ao mesmo ponto. Por exemplo, “...Não acredito que o Homem descende do macaco “, ou “...se o Homem descende do macaco, por que ainda existem macacos?


Há vários problemas nessas frases. Em primeiro lugar, precisamos definir o que é “macaco”. Olhando no “Aurélio”, só para começarmos o argumento, podemos constatar que “macaco” é o “nome comum aos mamíferos primatas, pertencentes à subordem dos símios, que se alimentam de frutas e de sementes”. Assim, macaco refere-se aos primatas do grupo dos símios, termo este que não é muito usado no Brasil (e o Aurélio define este termo apenas como “referente a macaco”, sendo portanto quase um sinônimo, por referência tautológica). As classificações zoológicas variam muito entre os autores e de acordo com a concepção teórico-metodológica subjacente, mas usando a classificação mais tradicional do Mammals of the World de Wilson e Reeder, o que temos para os Primatas (ordem Primates) é uma subordem Haplorrhini, que se divide em duas infraordens, Tarsiiformes e Simiiformes. Esta última contém o que se chama usualmente de Anthropoidea, que na realidade inclui todos os macacos mais “parecidos” com o Homem, incluindo os macacos do Velho Mundo (Catarrhini) e do Novo Mundo (os Plathyrrhini, os nossos macacos aqui da América do Sul). Em inglês, o termo se refere mais claramente à superfamília Hominoidea, uma divisão dentro do Catarrhini, que agrupa os grandes macacos sem cauda (usamos ape para esses macacos maiores, que seriam, acho, os “símios” do português, diferente de monkey, mais geral). Atualmente temos 8 gêneros de Hominoidea, sendo 4 na família dos Hylobatidae (os “gibões” asiáticos) e 4 na subfamília Hominidae (o Orangotango, o Gorila, o Chimpanzé e o Homem).


Resumindo a sequência de agrupamentos hierárquicos, a espécie humana atual, Homo sapiens, portanto, é um mamífero placentário da ordem Primates, subordem Haplorrhini, infraordem Simiiformes, da parvordem Catarrhini, superfamília Hominoidea, família Hominidae e gênero Homo (e temos outros gêneros e espécies de Hominidae e de Homo, todos extintos) (lembrei agora de Conseil, ajudante do Prof. Aronnax em “20.000 Léguas Submarinas” de Júlio Verne, que citava esse tipo de sequência sistemática para qualquer espécie vista pelos viajantes!). Na verdade, nossa espécie foi batizada pelo próprio Carl von Linnaeus ao criar, em 1758, o sistema de classificação biológica cuja lógica usamos até hoje (com muitas modificações). Em uma carta dirigida a um amigo, Linnaeus disse que:


“…It is not pleasing that I placed humans among the primates, but man knows himself. Let us get the words out of the way. It will be equal to me by whatever name they are treated. But I ask you and the whole world a generic difference between men and simians in accordance with the principles of Natural History…”



Assim, acho que está bastante claro que Homo é um tipo de macaco. Como consequência, podemos pensar que dizer que o “homem descende do macaco” não faz nenhum sentido, pois a espécie humana não descende de nenhum dos grandes macacos atuais. Podemos pensar também que a frase também não faz sentido por ser tautológica, já que, embora o Homem por definição descenda de um “macaco” extinto, na verdade ele É um tipo de macaco (um símio), como já reconheceu Linnaeus em 1758! E, curiosamente, pelas informações que ele tinha (de segunda mão, é verdade), ele achou que o chimpanzé era tão parecido conosco que o batizou de Homo troglodytes! Apenas em 1775 o chimpanzé foi transferido para outro gênero, Pan, e notem que, pelas regras de nomenclatura zoológica, ele mantém o nome da espécie dado originalmente por Linnaeus, Pan troglodytes (e temos outra espécie reconhecida hoje, o Pan paniscus (o “bonobo”). A famosa “charge” da época de Darwin, que o representou como um macaco e abraçado a um chimpanzé, tinha claramente o objetivo de denegrir suas ideias, mas de fato não é nenhum problema...somos muito próximos mesmo! Como disse Jared Diamond, somos de fato “O Terceiro Chimpanzé”.



De qualquer modo, fica claro que estamos evolutivamente muito mais próximos dos demais “macacos” do que de qualquer outro mamífero. Foi justamente T. H. Huxley que, em 1863, realizou o primeiro trabalho comparando detalhadamente diversas características anatômicas do Homem e dos demais antropoides (“Evidence as to Man’s Place in Nature”). Na verdade, Huxley publicou esse livro em grande parte como uma resposta aos resultados divulgados por seu arquirrival Richard Owen, que insistia (equivocadamente) que certas estruturas cerebrais, em especial o hipocampo cerebral - uma estrutura da região temporal do cérebro relacionada à memória e ao sistema límbico - era único na espécie humana. Huxley insistia na continuidade progressiva entre o Homem e os demais animais (seguindo a visão de Herbert Spencer). Darwin só publicaria suas próprias conclusões sobre a espécie humana em seu livro de 1871, “A Descendência do Homem e a Seleção Sexual”.



Entendemos então que o Homem é um primata hominóide, mas precisamos definir melhor qual é a sua relação com as outras espécies de macacos atuais. A classificação acima já nos mostra que somos próximos ao chimpanzé, gorila e orangotango, pois estamos todos na mesma família. Mas, para entender melhor isso, a classificação acima não ajuda pois ela não é explicitamente “filogenética”. Temos então que avançar no entendimento sobre como podemos visualizar e perceber os padrões de evolução (ou a ideia de “evolução como fato” de Michael Ruse, que discutimos na postagem anterior sobre Darwin...).


Vamos começar com a visão popular de evolução como progresso do século XIX que, em um certo sentido, justifica essas frases que começamos a discutir e que, na verdade, cria muita confusão. Se você colocar “Evolução” ou “Evolution” no Google e olhar as imagens que aparecem, vão aparecer frequentemente imagens como a que se encontra abaixo, em muitas variações.



(credits: clipart)

Essa metáfora visual, que S. J. Gould de “metáfora da escada”, gera também muitas charges (adoro essa abaixo, por exemplo).



(reddit.com)

Entretanto, a representação da evolução como uma sequência linear é bastante equivocada, inclusive porque gera associações em geral equivocadas com progresso, melhoria e mudança gradual e contínua de uma espécie em outra (essa última ideia até pode acontecer, mas aparentemente é pouco comum na evolução). Vejam que, na figura, um “macaco” ancestral gradualmente se transforma em um ser humano, em cada um dos seus atributos (no caso, basicamente chamando atenção para o bipedismo e o tamanho do cérebro e corpo). Na verdade, a própria palavra “evolução” carrega essa conotação de progresso e falamos coloquialmente que nossos chuveiros, carros, celulares, máquinas de lavar, aviões, todos “evoluem”, certo? Sim, no sentido de que eles se tornam mais “eficientes”, em termos de alguma propriedade que queremos medir e que desejamos ou trabalhamos para que melhore (velocidade dos aviões, por exemplo?). Do mesmo modo, a vida evolui, correto? De fato não...Não faz muito sentido dizer que somos “melhores” do que um “chimpanzé”... Em que sentido somos melhores? Temos um cérebro maior, claro, é fácil medir...Mas isso quer dizer que somos “melhores” do que eles, que somos “mais bem adaptados”? Não é simples dizer isso, e muito provavelmente esse tipo de frase não faz sentido (isso sem contar que, se aplicarmos esse raciocínio dentro da espécie humana, como se fez desde o século XVIII e XIX, até início do século XX, rapidamente começamos a “hierarquizar”, por exemplo, as “raças” humanas, e vocês já sabem para onde isso leva...). Então, evolução biológica NÃO DEVE SER PENSADA a partir dessa metáfora visual e Darwin nunca adotou, por exemplo, essa ideia. É interessante que alguns criacionistas usam essas frases e imagens para dizer que essa é a visão dos evolucionistas sobre a evolução humana, mostrando que ela é falsa ou equivocada (pelo menos nisso concordamos, essa imagem não é boa!!!).


Mas como podemos então entender o padrão evolutivo para a divergência da espécie humana em relação às demais espécies? Como vimos antes, Darwin foi o primeiro a pensar no que foi chamado de “evolução horizontal”, que hoje acho que podemos expressar melhor pelo termo “diversificação”. O que acontece na natureza é um processo no qual populações mais ou menos isoladas reprodutivamente (ou seja, os indivíduos tendem a acasalar com outros em suas próprias populações, ou geograficamente mais próximos) vão variando ao longo do tempo, respondendo a diversos processos. Em função do isolamento, ao longo do tempo, elas podem se diferenciar cada vez mais. Algumas dessas populações terminam por se extinguir, enquanto outras persistem e se tornam cada vez mais diferentes das demais em sua morfologia, fisiologia, comportamento, etc. Há vários detalhes nesse processo de “especiação”, a origem das novas espécies, mas se pensarmos nisso em grandes escalas de tempo, teríamos então uma representação mais adequada da evolução como uma “arvore”, ou sequência de eventos de especiação, ou bifurcações (isso é mais uma questão metodológica...). Essas bifurcações representam as populações ficando isoladas, se diferenciando cada vez e gerando, após algum tempo, diferentes espécies. Ao mesmo tempo, esse “nó” na bifurcação é o ancestral comum entre as espécies. Como vimos anteriormente, essas foram ideias bastante originais de Darwin, em relação aos padrões evolutivos.


Na realidade, a ideia de representar a evolução como uma “árvore” já existia antes de Darwin (ver o artigo interessante de M. Ragan de 2009 sobre esse tema curioso), mas foi ele quem popularizou a ideia, pois de fato a é única figura na “Origem das Espécies” é justamente uma árvore evolutiva (e há também o rascunho de uma figura famosa com a expressão “I think”; ver abaixo). Além disso, ele percebeu as implicações da representação em termos de não adotar visões progressistas e sim de adaptações locais e sem direção ao propósito.



Portanto, o Homem e os macacos (atuais) possuem um ancestral comum. As muitas análises comparativas entre os macacos, baseadas em dados morfológicos e nas sequencias de DNA, mostram que o Homem e o chimpanzé são os parentes mais próximos. Darwin e Huxely achavam, diferente de outros antropólogos na época, que o Homem era mais parecido com os antropoides africanos, mas era difícil saber se o Gorila ou o Chimpanzé era o parente mais próximo (na verdade apenas nos anos de 1980 é isso ficou claro, a partir de comparações mais detalhadas em nível molecular). Na verdade, hoje podemos com relativa facilidade realizar o download de dados do genebank, a partir de toda a sequência do DNA mitocondrial (por exemplo), construir uma árvore evolutiva que representa a relação entre as espécies, como a da figura abaixo.



Uma rápida análise da relação entre os Hominoidea, a partir de uma matriz de distancia entre as espécie calculada com base na sequencia total do DNA mitocondrial. O babuíno é usado aqui como um grupo-externo. Essa árvore foi obtida utilizando um UPGMA, que é um metodo estatistico de agrupamento e não uma analise filogenética, mas sob o pressuposto de neutralidade é uma boa aproximação inicial e computacionalmente fácil de obter.

Se calibrarmos essa arvore evolutiva a partir das taxas de mutação e usando alguns fósseis conhecidos de primatas, chegamos à conclusão que as duas espécies possuem um ancestral comum que viveu entre 5 e 7 milhões de anos atrás (esses seriam os intervalos de confiança em nível de 95% de acordo com o “relógio molecular”). Mas também é importante ressaltarmos que as metodologias para realizar essas reconstruções filogenéticas e estimar realmente essas árvores só começou a ser realizada a partir dos anos de 1950, depois da Teoria Sintética da Evolução, começando com o trabalho pioneiro do entomólogo alemão W. Hennig (1913-1976), que criou a “cladística” (e posteriormente todo o campo da sistemática filogenética avançou enormemente, especialmente nos últimos 20-30 anos pela possibilidade de utilizar dados moleculares cada mais vez refinados). Então, até os anos de 1950, essas árvores eram apenas desenhos baseados na percepção dos especialistas de cada grupo.


Além disso, podemos avaliar se os tempos estimados de divergência correspondem ao que conhecemos do registro fóssil. Neste caso, essas estimativas de 5 – 7 milhões de anos para a divergência Homo-Pan coincidem razoavelmente bem com o fóssil mais antigo conhecido de um hominíneo, o Saelanthropus tchadensis, descoberto em 2002 no Chad, na África, pela equipe do paleoantropólogo Michel Brunet. Esse fóssil é um crânio completo, embora distorcido, e que sugere, pela posição do forame magno na base do crânio, uma postura bípede, caracterizando essa espécie, portanto, como parte da linhagem humana (e não na do chimpanzé).


CC (Creative Commons)

Então, podemos hoje estimar, a partir de dados moleculares e utilizando técnicas estatísticas sofisticadas, a idade da divergência entre Homo ePan (na verdade hoje, com a possibilidades da genômica, podemos entender muito mais coisas, claro – para aqueles interessados sugiro o artigo recente de Zev Kronenberg e colaboradores na Science, realmente impressionante...).


Mas percebam que, a partir dessa ideia do ancestral comum entre as duas espécies atuais, é muito fácil cairmos novamente no problema da “metáfora da escada” e imaginar que, nos últimos 5-7 milhões de anos, temos uma sequência linear e continua a partir deste ancestral...Todas as características iriam mudando gradualmente e continuamente do ancestral comum “em direção ao Homem” e “em direção ao Chimpanzé”. Entretanto, isso simplesmente “duplica” o problema anterior que mencionei sobre o progresso, e de fato só temos essa percepção porque, nesse caso específico da espécie humana, restam apenas duas “pontas” (Homo sapiens e Pan troglodytes) do processo de diferenciação a partir do ancestral.


O registro fóssil é, por definição, incompleto, por várias razões. Mas a palavra “incompleto” depende, por definição, do nosso interesse e de quanto “detalhe” queremos para entender um determinado padrão em um determinado grupo. No caso do registro fóssil humano, dizemos que ele é bastante incompleto e sempre vemos algumas surpresas, mas de fato isso é porque temos tanto interesse em nós mesmos que queremos sempre mais. Mas temos um grande número de fósseis humanos de diferentes épocas (claro que há mais registros para tempos mais recentes - digamos, nos últimos 500.000 anos!) que nos dão, na pior das hipóteses, uma boa visão dos padrões de evolução morfológica desde o ancestral comum com o chimpanzé em macroescala. Temos com certeza o quadro geral. O que vemos, na verdade, é uma evolução “em moisaco”, com as diferentes características mudando em diferentes velocidades e algumas linhagens se especializando em certos nichos ecológicos. Por exemplo, o bipedismo e mudanças na dentição na realidade definem a linhagem hominínea (a partir do ancestral comum Homo-Pan) e, portanto, surgem muito, muito antes do cérebro maior (e Darwin já sugeria isso, ao contrário de outros antropólogos da época). Mesmo as tendências de aumento no tamanho do cérebro no gênero Homo, a partir de 2 milhões de anos atrás, ocorrem de uma forma mais complexa do que se achava antes (com algumas formas de cérebro pequeno persistindo isoladas na África e na Ásia durante muito tempo).


O número de espécies e gêneros que reconhecemos depende muito, como já disse anteriormente, da concepção teórica-metodológica subjacente à classificação, e isso é ainda mais complicado quando pensamos em fósseis. Mas se considerarmos apenas algumas espécies para as quais temos material suficiente para reconstruir, a partir de características de dente e crânio, a história evolutiva na forma de árvore, e para as quais podemos calcular o tamanho aproximado do cérebro, temos algo como mostrado na Figura abaixo (veja nosso artigo recente publicado na Evolutionary Biology).




Espero então que as ideias apresentadas até aqui possam ajudar a entender os padrões gerais da evolução humana e, principalmente, que vocês possam entender os problemas e equívocos com as frases que relacionam “Homem” e “Macaco”. Somos um macaco antropoide que divergiu do ancestral comum com os chimpanzés há cerca de 6 milhões de anos. Embora ainda existam muitas lacunas no registro fóssil e haja muita discussão sobre os processos e mecanismos envolvidos na evolução de diferentes características de nossa espécie (especialmente em relação ao cérebro e suas implicações), não há muita dúvida sobre esse padrão geral.


Aceitar que o Homem é um macaco está na base conflitos ciência – religião há muito tempo. Mas por que? Há várias possibilidades...Não aceitamos ser parte do mundo animal e nos achamos superiores? Não gostamos de admitir isso porque, na nossa percepção do mundo natural, não há ética ou moral, pensamos na natureza cruel de sangue, garras e dentes, e o fato de termos sido “bestas” coloca em xeque nossa moralidade? Na melhor das hipóteses, aceitando ideias de evolucionismo teísta, podemos pensar até que somos “descendemos dos macacos” mas, na origem da nossa espécie (ou da nossa linhagem?) houve uma intervenção Divina e, a partir daí, passamos a ter uma alma e uma moral que emana de sua existência. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A morfologia humana pode até evoluir a partir das “formas inferiores”, mas a alma e tudo que dela derivaria, inclusive nossa mente e nossa moral, é Divina! Mais, o Homem seria o produto final da Evolução, o seu propósito desde o início, o objetivo último de Deus ao criar a vida como propriedades evolutivas. Essa tese tem sido usada como base do Evolucionismo Teísta e fortemente influenciada pelas ideias de evolução como progresso (que, por sua vez, derivam principalmente da influência de Herbert Spencer ainda no século XIX).


Mas, pensando melhor, como fica, nessa interpretação progressista, a questão do “Pecado Original” e a consequente “Expulsão do Paraíso”? A ortodoxia bíblica diz que éramos puros e fomos corrompidos pelo Demônio (e lembrem que foi Eva quem mordeu a maçã e convenceu Adão a fazer o mesmo...sem comentários). Se somos descendentes de seres inferiores e a partir de um dado momento ganhamos uma alma, criada à imagem e semelhança de Deus, não há “Pecado Original” e jamais fomos expulsos do Paraíso. Portanto, o que Cristo veio fazer aqui? (lembrando àqueles que não são cristãos que, pela ortodoxia, Cristo veio para nos salvar e nos redimir do Pecado Original com seu sacrifício na cruz). Os teólogos liberais, desde a época do Darwin, discutem essas questões e tentam redefinir o papel de Cristo (ele seria um modelo para a Humanidade, a expressão perfeita do que é o Homem, o “ponto ômega” de Teilhard de Chardin!). Obviamente nem todos os teólogos e religiosos aceitam essa visão, especialmente aqueles com uma visão fundamentalista...


Minha “síndrome do impostor” não me permite avançar além disso nesse tema, afinal não sou teólogo ou filósofo. Mas, de qualquer modo, entendo que essas questões estão fora da alçada da ciência, e cabe aos teólogos e filósofos tentar compatibilizar suas visões religiosas aos padrões empíricos que conhecemos (ou simplesmente rejeitar totalmente uma visão científica do mundo, arcando com as consequências – essa é posição dos criacionistas “de terra jovem”, como já discutimos anteriormente).


Em 1898, o zoólogo Ernst Haeckel, o grande popularizador do Darwinismo na Alemanha, publicou um pequeno livro ("Origin of Man") em que ele discutiu a questão das origens humanas e suas implicações filosóficas e sociais, e escreveu em suas conclusões:


“Permitam-me, para terminar, que faça uma rápida concessão, perante o futuro que se aproxima. Estou firmemente convencido de que não somente a Ciência do século XX aceitará, nas suas linhas gerais, a nossa doutrina transformista, como até a considerará como a mais importante conquista do espírito da nossa época. Os seus raios deslumbrantes dissiparam as espessas nuvens de ignorância e da superstição que, até hoje , projetavam uma obscuridade impenetrável no mais importante problema: a origem do Homem, da sua natureza real, e do seu lugar na natureza.”


Infelizmente, acho que as predições de Haeckel eram por demais otimistas...Sem dúvida a Ciência certamente lançou, como disse Darwin, luz sobre as nossas origens. Mas, por outro lado, continuamos, mais de 100 anos depois, lutando contra o obscurantismo e contra visões teológicas anticientíficas, muitas delas revestidas de um falso arcabouço “científico” , mantendo as pessoas reféns de sua própria ignorância! Em alguns aspectos, que vamos discutir em outro momento, as discussões entre ciência e religião hoje em dia são mais “primárias” do que aquelas que ocorriam com os teólogos liberais do século XIX e início do século XX. Tempos difíceis...Mas isso mostra, paradoxalmente, que talvez a visão de Darwin de uma evolução não-progressistas seja mais adequada do que a de Spencer, em vista de tantos retrocessos na nossa sociedade!


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