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Produtividade em Pesquisa, Carreira AcadĂȘmica e Desigualdade de GĂȘnero

  • Foto do escritor: JosĂ© Alexandre F. Diniz F
    José Alexandre F. Diniz F
  • 3 de fev. de 2024
  • 21 min de leitura

Atualizado: 5 de fev. de 2024

JĂĄ hĂĄ alguns meses aparecem na mĂ­dia vĂĄrias discussĂ”es envolvendo as Bolsas de “Produtividade em Pesquisa” (as bolsas PQ) do CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento CientĂ­fico-TecnolĂłgico. Vamos entender melhor o que sĂŁo essas bolsas PQ e porque elas se tornaram polĂȘmicas.


As bolsas “PQ” sĂŁo destinadas a pesquisadore(a)s e professore(a)s que atuam nas universidades ou institutos de pesquisa do Brasil, e existe hĂĄ muitos anos (veja aqui a Ășltima regulamentação de concessĂŁo dessas bolsas). Elas nĂŁo sĂŁo, portanto, bolsas de “formação”, pelo menos nĂŁo em um sentido mais estrito (como as bolsas de iniciação cientĂ­fica, de mestrado ou de doutorado, ou mesmo pĂłs-doutorado). O objetivo das bolsas PQ Ă© estimular a atuação de docentes mais fortemente em pesquisa e na pĂłs-graduação, por meio de um incentivo financeiro. Na prĂĄtica, atualmente esse incentivo financeiro se dĂĄ pela bolsa “em si”, realmente uma complementação de salĂĄrio (o valor para o nĂ­vel mais alto Ă© atualmente de R$ 1500,00 mensais), e por uma outra parte com valor mais ou menos equivalente que Ă© um “grant”, que o(a) pesquisador(a) recebe para pequenas despesas com o seu projeto ou com o laboratĂłrio, e que deve ser justificada na prestação de contas ao final da vigĂȘncia da bolsa).


A bolsa PQ do CNPq Ă© concedida por um perĂ­odo que varia com o nĂ­vel, sendo de 5 anos para o nĂ­vel mais alto, que Ă© a bolsa nĂ­vel “A” (atĂ© poucos meses denominada 1A). A cada ciclo, o(a) pesquisador(a) submete um novo projeto de pesquisa para os prĂłximos anos e passa por uma avaliação do curriculum pelo CNPq (mais detalhes abaixo). Em geral um pesquisador mais jovem começa no nĂ­vel “E” e, Ă  medida que vai produzindo e consolidando sua carreira, ao receber avaliaçÔes positivas a cada ciclo, vai sendo “promovido” atĂ© o nĂ­vel “A”. NĂŁo existe formalmente uma renovação dessas bolsas, e se um bolsista nĂŁo atender aos requisitos, ele ou ela podem perder a bolsa no ciclo seguinte (claro, as chances de perder a bolsa sĂŁo menores Ă  medida que o nĂ­vel aumenta, pelo menos atĂ© um certo ponto...). Existem algumas outras modalidades para pesquisadores mais “sĂȘnior”, que podem ser solicitadas depois de vĂĄrios anos como pesquisar(a) nĂ­vel “A” e que envolvem receber sĂł a bolsa (ficar sem com o “grant”) oou vice-versa (?). Mais recentemente apareceram as bolsas DT (Desenvolvimento TecnolĂłgico e ExtensĂŁo Inovadora), na onda no incentivo Ă  “inovação” (seja lĂĄ o que isso signifique...), mas a lĂłgica Ă© basicamente a mesma das bolsas PQ.


Claro, existem, em tese, muito mais pesquisadores atuando nas centenas de instituiçÔes de pesquisa e ensino superior do Brasil do que as cotas de bolsa PQ e DT disponĂ­veis, o que torna o programa muito competitivo (e, alĂ©m disso, o nĂșmero de cotas disponĂ­veis para os diferentes nĂ­veis, de “E” a “A”, variam entre as ĂĄreas do conhecimento por razĂ”es contingenciais e histĂłricas). Temos hoje algo como 15 mil bolsistas PQ, com um orçamento da ordem de R$ 400 milhĂ”es anuais. AtĂ© mesmo em função do alto nĂ­vel de competitividade e do destaque que isso dĂĄ ao pesquisador do CNPq em termos de reconhecimento, vĂĄrias avaliaçÔes tanto dos programas de pĂłs-graduação pela CAPES ou avaliaçÔes institucionais mais gerais usam mĂ©tricas relacionadas Ă s bolsas PQ, por exemplo, proporção do corpo docente com bolsas PQ (ou, refinando, % de docentes que recebem bolsas no nĂ­vel 1 - atualmente nĂ­veis de “A” a “D” -, isso quando tĂ­nhamos a divisĂŁo entre bolsas “1” e “2”).


Em resumo, essas sĂŁo as principais caracterĂ­sticas das bolsas PQ, e a partir dessa descrição geral podemos explorar a origem das duas principais polĂȘmicas que aconteceram recentemente (e estĂŁo acontecendo...) envolvendo essas bolsas.


 

Porque existe um programa de bolsas PQ no Brasil? A questĂŁo da carreira...


Um primeiro questionamento envolve justamente o incentivo financeiro para pesquisadores e docentes do nĂ­vel superior pela bolsa PQ. Como sempre comento aqui, o diferencial de um docente em nĂ­vel superior Ă© justamente a atuação mais forte em pesquisa e produção do conhecimento, e obviamente esse Ă© o trabalho de um pesquisador contratado em um instituto ou organização de pesquisa. Porque, entĂŁo, Ă© preciso incentivar esses docentes e pesquisadores? Eles jĂĄ ganham para isso, certo? Se o CNPq destaca alguns desses pesquisadores e dĂĄ a eles mais um incentivo, extra, isso nĂŁo cria uma “casta” dentro das instituiçÔes, com consequĂȘncias diversas? SerĂĄ que nĂŁo seria mais importante usar esse volume de recursos em editais de apoio Ă  pesquisa? Esses questionamentos sempre existiram, Ă s vezes de forma subliminar, mas ganharam força quando viralizaram comentĂĄrios de que o prĂłprio presidente do CNPq, o Dr. Ricardo GalvĂŁo da USP, levantou essas questĂ”es no ano passado; esses boatos foram negados posteriormente, mas ouvi pessoalmente dele em uma reuniĂŁo de coordenadores de INCTs realizada na Academia Brasileira de CiĂȘncias (ABC) em 24/01/2024, alguns comentĂĄrios e justificativas nessa mesma direção.

 


ReuniĂŁo dos Coordenadores dos INCTs na Academia Brasileira de CiĂȘncias (ABC), em 24 de janeiro de 2024, mediada pela Profa. Helena Nader (Presidente da ABC) e Prof. Renato Janine (presidente da SBPC), com participação do Presidente do CNPq, Ricardo GalvĂŁo, sendo uma das conferĂȘncias livres da ABC realizadas como preparação para a 5a. Conferencia Nacional de C&T.



Em tese parece mesmo difĂ­cil justificar essas bolsas PQ e DT se os pesquisadores das IES e institutos ganham para fazer pesquisa. Mas o ponto central da discussĂŁo (e da justificativa...) Ă© que, embora os pesquisadores e docentes das IES recebam para fazer pesquisa, de fato nĂŁo Ă© bem assim e a cobrança nesse sentido Ă© mĂ­nima (para falar a verdade, quase nula...) Assim, as bolsas PQ passaram inclusive a fazer parte da cultura cientĂ­fica do paĂ­s, sendo um sinal de prestĂ­gio e reconhecimento. A questĂŁo financeira, ainda que importante, vem inclusive diminuindo por causa da defasagem no valor das bolsas (as bolsas de mestrado e doutorado receberam aumento em 2023, mas as PQ e DT nĂŁo, embora tenha havido um pequeno incremento no “grant”, que passou a ser dado tambĂ©m para o nĂ­vel iniciante E, o que foi uma boa notĂ­cia).


JĂĄ havia discutido um pouco essa questĂŁo no contexto das falas do ex-ministro da educação Weintraub na Ă©poca do (des)governo Bolsonaro, no sentido de mostrar que um(a) docente com doutorado em uma IES tem possibilidades de fazer muitas coisas na Universidade que nĂŁo sĂł dar 8 horas de aula por semana. Embora as crĂ­ticas do ex-ministro, como colocadas Ă  Ă©poca, nĂŁo fizessem muito sentido no geral, atuar em pesquisa e pĂłs-graduação Ă© apenas uma das atividades possĂ­veis (envolvendo docĂȘncia, extensĂŁo ou administração...), e a proporção de docentes que realmente estĂĄ envolvida com produção de conhecimento de alto nĂ­vel varia muito entre instituiçÔes com diferentes nĂ­veis de maturidade e de cobrança. Em tese, todas essas atividades de ensino, pesquisa e extensĂŁo deveriam estar relacionadas sob o princĂ­pio constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensĂŁo, com foco na produção de conhecimento. Mas, na prĂĄtica, sabemos que as coisas nĂŁo sĂŁo bem assim...


O que vemos, na realidade, Ă© que a carreira docente, tanto nas instituiçÔes federais quanto nas estaduais, bem como nos institutos de pesquisa, Ă© muito curta, com poucos nĂ­veis e, para falarmos honestamente, com avaliaçÔes muito “flexĂ­veis” e baseadas, no geral, em indicadores muito frĂĄgeis. Em princĂ­pio, teoricamente, Ă© possĂ­vel que um docente em uma IES tenha uma atuação importante no ensino e na extensĂŁo sem que ele ou ela seja um pesquisador de alto nĂ­vel e com forte inserção internacional em sua ĂĄrea do conhecimento. Nesse sentido, seria realmente interessante ter indicadores em um espaço multidimensional que permitisse que esses docentes pudessem alcançar o topo da carreira considerando as diversas possibilidades de atuação...Mas temos ai duas questĂ”es para responder: com que frequĂȘncia isso REALMENTE acontece? Mais importante, que indicadores sĂŁo usados nesse espaço multidimensional? Por mais que a gente questione as mĂ©tricas e discuta os vieses e problemas na avaliação da produção cientĂ­fica, temos indicadores. E quais os indicadores para a qualidade do ensino e da extensĂŁo? Podemos medir o nĂșmero de horas de aula dadas, mas isso nĂŁo indica qualidade ou envolvimento...O mesmo vale para extensĂŁo.


Portanto, o que vemos na prĂĄtica Ă© que docentes com pouco ou nenhum destaque em pesquisa, ensino ou extensĂŁo, que de fato nunca deram uma contribuição relevante para a instituição, chegam ao topo da carreira e sĂŁo professore(a)s titulares em muitas IES... É justo que todos tenham o mesmo reconhecimento (e salĂĄrio) nas instituiçÔes independente da sua atuação e de sua contribuição? Tudo bem, as atribuiçÔes sĂŁo as mesmas sob um ponto de vista legal (ou seja, todos sĂŁo contratados para ensino, pesquisa e extensĂŁo), mas, mesmo que a avaliação dessas atividades fosse compatĂ­vel, justa e coerente (e nĂŁo Ă©...) nĂŁo seria importante ter incentivos de produtividade? Isso se mistura Ă  prĂłpria discussĂŁo do salĂĄrio dos docentes, por exemplo, em termos de atĂ© que ponto os salĂĄrios dos docentes sĂŁo altos ou baixos em relação a outros cargos da esfera pĂșblica federal, por exemplo? Certamente nossos salĂĄrios sĂŁo mais baixos (em termos relativos) que muitas outras carreiras, o que justifica a concessĂŁo das bolsas PQ para pesquisadores e pesquisadoras de maior destaque...Ao mesmo tempo, pode-se pensar que essa defasagem salarial faz parte do problema, jĂĄ que existe pouco incentivo Ă  produção de alto nĂ­vel para as promoçÔes, inclusive porque a diferença de salĂĄrio entre os nĂ­veis nĂŁo Ă© tĂŁo grande assim. AlĂ©m disso, o prĂłprio governo poderia utilizar isso para justificar que os salĂĄrios, nesse sentido de falta de produtividade e cobrança e de uma carreira mais estruturada por produtividade, nĂŁo precisam mesmo de reajustes (e esse argumento jĂĄ foi utilizado vĂĄrias vezes no passado, inclusive pelo Weintraub). Em resumo, Ă© complicado falar isso, eu sei, mas essa Ă© a realidade da carreira das IES e institutos de pesquisa no paĂ­s...


Assim, nesse contexto, ao conceder as bolsas PQ, o CNPq estimula a produção cientĂ­fica mais diferenciada e de alto nĂ­vel, e “passa uma rĂ©gua” em nĂ­vel nacional e elimina as variaçÔes que existem em cada instituição, em termos de avaliação. Isso torna mais igualitĂĄria inclusive as discriminaçÔes que existem em um contexto regional DENTRO do paĂ­s (jĂĄ ouvi algumas vezes no passado comentĂĄrios como "...nĂŁo Ă© possĂ­vel que existam pesquisadores de alto nĂ­vel fora do eixo Rio-SĂŁo Paulo, ou fora das regiĂ”es Sudeste e Sul do Brasil..."). Ônus e bĂŽnus de estar fora dos grandes centros de pesquisa e desenvolvimento cientĂ­fico-tecnolĂłgico. Mas a bolsa PQ, associada ao Lattes, deu transparĂȘncia e visibilidade a quem trabalha nas diferentes instituiçÔes do paĂ­s e mitiga esse tipo de comentĂĄrio infeliz...


Ao mesmo, claro, Ă© possĂ­vel mesmo que essas bolsas gerem um nĂ­vel “diferenciado” nas instituiçÔes e isso pode eventualmente levar a conflitos ou manifestaçÔes de “ciĂșme”, envolvendo por exemplo discussĂ”es sobre “produtivismo” e sobre a ideia de “categorizar as pessoas”. Mas o nosso sistema de promoção da carreira nas IES funciona assim tambĂ©m, de forma comparativa e em nĂ­veis, sĂł que Ă© pouco rigoroso e nĂŁo possui diretrizes claras e objetivas no sentido de aumentar a quantidade e principalmente a qualidade da produção cientĂ­fica brasileira.


O que ouvi recentemente do presidente do CNPq foi justamente isso, que ele entende os problemas das IES e da heterogeneidade regional no paĂ­s (depois que algumas pessoas se manifestaram explicando a "situação real"), mas ao mesmo tempo ele colocou que o CNPq e a CAPES nĂŁo teriam obrigação de resolver os problemas de falta de critĂ©rios das instituiçÔes...Tudo bem, se nĂŁo o CNPq e a CAPES, complicado, quem vai resolver o problema? O MEC, no caso das IES, vai estabelecer regras nacionais e de mais alto nĂ­vel para promoção na carreira? O MCTI vai fazer isso para seus institutos de pesquisa? Como coloquei aqui no “CiĂȘncia, Universidade e Outras IdĂ©ias” no começo de 2023, tudo bem que atĂ© 2022 tĂ­nhamos que preservar as instituiçÔes e tomar cuidado com os ataques vindos do prĂłprio MEC, porque tudo isso seria usado de forma equivocada contra todos nĂłs...Mas agora, ao dizer que “A CiĂȘncia Voltou”, Ă© preciso colocar o dedo na ferida. O presidente do CNPq estĂĄ, em um certo sentido, fazendo isso nesses questionamentos, mas nĂŁo adianta criticar as bolsas PQ sem apresentar a solução para esse problema que ocorre em uma escala maior...NĂŁo estamos na Europa ou nos EUA, onde o sistema funciona de forma muito diferente, para o bem ou para o mal, mas certamente com um nĂ­vel muito mais elevado de reconhecimento e valorização dos pesquisadores!


Enfim, Ă© um problema complexo com vĂĄrias facetas, e atĂ© por isso ele tem historicamente resistido Ă s vĂĄrias soluçÔes apresentadas, por diversas razĂ”es. O fato Ă© que, nesse sentido, a bolsa PQ Ă©, atualmente, o Ășnico diferencial de reconhecimento de um pesquisador no Brasil e, atĂ© que os problemas de avaliação e reconhecimento de mĂ©rito nas IES sejam resolvidos (e duvido que isso aconteça em curto prazo...), deverĂ­amos fazer um esforço para manter o programa e mesmo ampliĂĄ-lo, tanto em termos de nĂșmero quanto do valor das bolsas PQ. Esse Ășltimo ponto Ă© interessante tambĂ©m, porque uma das justificativas contra as bolsas PQ Ă© que esse recurso poderia ser aplicada em outros tipos de fomento Ă  pesquisa, em muitos e muitos projetos. Interessante como a academia e a comunidade cientĂ­fica adoram dar “tiros no pĂ©â€, que reforçam o argumento colocado acima. Ao invĂ©s de pedirmos MAIS RECURSOS para pesquisa, queremos acabar as bolsas PQ para distribuir mais recursos de forma menos rigorosa para mais pessoas...Ou seja, ao invĂ©s de incentivar alguĂ©m no inĂ­cio da carreira a produzir mais e melhor e ir gradualmente melhorando suas chances de conseguir uma bolsa PQ e mantĂȘ-la posteriormente, a ideia Ă© que ele ou ela tenha mais facilidade de acesso a projetos com recursos pĂ­fios, pulverizados e desconectados que nĂŁo vĂŁo levar a lugar algum em termos de produção de conhecimento de alto nĂ­vel (esse Ă© outro tema importante para prĂłximas postagens...).


Claro, o que coloquei acima Ă© um lado da moeda, no sentido de mostrar que o programa de bolsas PQ permite, de forma idealizada, uma correção de distorçÔes no sistema nacional de C&T, promovendo maior justiça em termos de valorização e reconhecimento. Na minha opiniĂŁo, essa seria SIM uma missĂŁo importante do CNPq, mantendo os pesquisadores em atividade e estimulados, ao contrĂĄrio do que ouvi do presidente do CNPq. Entretanto, Ă© preciso pensar tambĂ©m em atĂ© que ponto o sistema efetivamente faz isso e como poderĂ­amos aperfeiçoĂĄ-lo ao reconhecer diversos problemas. O que nos leva Ă  segunda polĂȘmica recente envolvendo as bolsas PQ...


 


O Sistema de ConcessĂŁo das Bolsas PQ e a QuestĂŁo da Desigualdade de GĂȘnero


No inĂ­cio da postagem expliquei brevemente as principais caracterĂ­sticas do programa de bolsas PQ, mas hĂĄ alguns detalhes importantes em termos de avaliação. Sabemos que o pesquisador deve submeter um projeto de pesquisa e que seu curriculum vitae Ă© avaliado para a concessĂŁo, e isso acontece a partir de um edital que o CNPq lança todos os anos (vejam aqui a Ășltima chamada de 2023). Mas, a partir da submissĂŁo, o que acontece de fato? O CNPq estĂĄ estruturado nos ComitĂȘs de Avaliação (CAs) que cuidam do processo, que envolve o envio do projeto a consultadores “ad hoc” e anĂĄlise dos CVs. O envio do projeto aos consultadores acontece de forma automatizada, e o papel dos CAs Ă© receber e avaliar os pareceres e estabelecer critĂ©rios de avaliação do currĂ­culo e pontuar os pesquisadores, concedendo as bolsas em função das cotas disponĂ­veis para cada ĂĄrea de avaliação. É inevitĂĄvel que os critĂ©rios variem de ĂĄrea para ĂĄrea (vejam mais detalhes sobre os critĂ©rios aqui). Esse processo, entretanto, tem alguns problemas que merecem discussĂŁo e que ganharam visibilidade recentemente...


Em primeiro lugar, Ă© importante entender que a demanda pelas bolsas PQ Ă© muito grande, e soube que tivemos algo em torno de 12 mil solicitaçÔes em 2023!!! Muita gente...Os CAs sĂŁo formados por bolsistas PQ, em nĂșmero variĂĄvel dependendo do tamanho da ĂĄrea, eleitos pela comunidade cientĂ­fica para um mandato de 3 anos, que devem avaliar e pontuar os CVs de cada um dos milhares de pesquisadores que encaminharam projetos (o que Ă© em parte apoiado pelo sistema Lattes do CNPq) e, mais importante, combinar isso com os pareceres de cada projeto. Essa participação dos pesquisadores no CAs Ă© voluntĂĄria e nĂŁo hĂĄ, mais uma vez, grandes incentivos e a valorização desse trabalho Ă© mĂ­nima, ou simplesmente nĂŁo existe, principalmente por parte das instituiçÔes de origem dos membros (digo que essa participação em um CA do CNPq em geral nĂŁo Ă© reconhecida pela instituição no sentido de haver alguma liberação de outras atividades de ensino ou administração, por exemplo; um membro do CA pode atĂ© ganhar “pontos” em uma avaliação qualquer de produção na progressĂŁo na carreira, mas de fato alguĂ©m que Ă© eleito(a) e indicado(a) para participar de um CAs nĂŁo vai realmente precisar disso para progredir na carreira...).


HĂĄ um enorme esforço dos tĂ©cnicos do CNPq para conseguir 2 ou 3 pareceres “ad hoc” para cada um dos projetos apresentados a partir de um sistema automatizado de escolha por linhas de pesquisa e palavras-chave (ou seja, nĂŁo Ă© o CA que indica e convida quais pesquisadores devem avaliar qual projeto com base em sua expertise e experiĂȘncia). Sabemos e ouvimos com frequĂȘncia dos colegas que fazem ou fizeram parte dos CAs que muitos dos pareceres sĂŁo pouco relevantes, equivocados, e nĂŁo ajudam muito ou mesmo atrapalham (como vamos ver...) a avaliação da concessĂŁo das bolsas. Como a avaliação dos projetos Ă© realizada por milhares de pessoas de forma independente nas diferentes ĂĄreas, hĂĄ pouca padronização nos pareceres e Ă© difĂ­cil dizer que um projeto estĂĄ ou nĂŁo adequado, ou Ă© ou nĂŁo relevante ou propĂ”e a investigação de problemas atuais e de impacto a partir dos pareceres. Dado o volume de trabalho, nem sempre os CAs conseguem filtrar e realmente avaliar se o parecer foi ou nĂŁo relevante e se tem o mĂ­nimo de coerĂȘncia. Os pareceres ficam disponĂ­veis apenas para os pesquisadores, de forma privada, na plataforma Carlos Chagas do CNPq. Vejam que esse esquema Ă© bem diferente do que acontece na avaliação dos PPGs pela CAPES, que jĂĄ discutimos diversas vezes aqui.


Alguns CAs entendem e percebem os problemas com a avaliação dos projetos, e colocam que esse componente teria um peso muito pequeno em relação Ă  anĂĄlise do CV, o que para mim faz total sentido. Primeiro, talvez pela minha ĂĄrea de atuação em ecologia teĂłrica e evolutiva, e pela maneira como eu trabalho, nĂŁo sou muito focado em “projetos” sob um ponto de vista mais formal. Para mim as perguntas e ideias vĂŁo surgindo e vou tentando resolver. Mas sei que na maioria dos casos nĂŁo Ă© bem assim, tudo bem. Claro, Ă© preciso tentar deixar organizado e apresentar de forma consistente as ideias do que se pretende fazer principalmente quando o(a) pesquisador vai precisar adquirir equipamentos ou realizar trabalhos de campo ou laboratĂłrio e vai pedir recursos para isso...Mas, pensando em uma bolsa PQ, a minha ideia sempre foi que o melhor seria mesmo avaliar a produção passada do pesquisador e conceder a bolsa na expectativa de que essa produção continue ou melhore, de fato (de forma indutiva, eu sei...). Claro, Ă© inevitĂĄvel que haja alguma discussĂŁo sobre como medir a qualidade ou impacto da produção cientĂ­fica, como discutimos recentemente em relação ao QUALIS da CAPES, mas entendo que isso nĂŁo seja tĂŁo complicado, especialmente dentro de ĂĄreas mais especĂ­ficas do conhecimento (em princĂ­pio, o somatĂłria do fator de impacto das revistas pelo Web of Science ou CiteScore da SCOPUS, eventualmente com alguma correção e ajuste por critĂ©rios de autoria, vai funcionar razoavelmente bem nas ciĂȘncias naturais, pela minha experiĂȘncia...mas estou sempre aberto a discussĂ”es em relação Ă s mĂ©tricas, como sempre insisto tudo isso sĂŁo acordos operacionais, nada disso Ă© “real”).


A avaliação das solicitaçÔes de bolsas PQ, envolvendo tanto dificuldades na avaliação dos projetos de pesquisa quanto no estabelecimento de mĂ©tricas de produtividade nas diferentes ĂĄreas do conhecimento abre uma sĂ©rie de questionamentos e aĂ­, finalmente, chegamos ao ponto da ultima polĂȘmica que aconteceu no final de 2023, quando foram divulgados os resultados da Ășltima avaliação das solicitaçÔes de bolsa PQ, que serĂŁo implementadas a partir de março de 2024.


A professora Maria Carlotto da UFABC divulgou no seu twitter que sua solicitação de bolsa PQ tinha sido indeferida e que o parecer argumentava “...provavelmente suas gestaçÔes atrapalharam” a realização de pĂłs-doutorado fora do paĂ­s, “o que poderĂĄ ser compensado no futuro”...Isso criou uma grande polĂȘmica e uma revolta na comunidade cientĂ­fica e abriu muitas frentes de discussĂŁo, especialmente no contexto da desigualdade de gĂȘnero na distribuição das bolsas PQ (a questĂŁo do pĂłs-doutorado fora do paĂ­s merece uma discussĂŁo Ă  parte...; vejam algumas das reportagens sobre o tema no G1, Folha de SĂŁo Paulo, Forum e no jornal Opção, onde fui entrevistado sobre a questĂŁo). Essa questĂŁo, claro, nĂŁo Ă© exclusiva da academia, e ocorre com muitas (ou todas) as posiçÔes, cargos ou benefĂ­cios de nĂ­vel mais alto e prestigio, em diferentes esferas da nossa sociedade (vejam aqui um excelente relatĂłrio sobre desigualdade de gĂȘnero na concessĂŁo das bolsas PQ, realizado em 2023 pelo movimento Parent in Science) Na realidade alcançar a igualdade de gĂȘnero Ă© uma das metas de desenvolvimento sustentĂĄvel da ONU. Claro, pelo que apresentei acima em relação a como os sistema de avaliação funciona, poderĂ­amos dizer que isso foi um caso isolado e que o consultor “ad hoc” fez uma colocação infeliz, equivocada, e que o CA nĂŁo conseguiu filtrar isso e excluir esse parecer inadequado do sistema (ainda que esse parecer possa nem ter sido considerado na avaliação). NĂŁo precisarĂ­amos nos preocupar tanto com isso e muito menos nĂŁo precisarĂ­amos questionar todo o sistema de concessĂŁo de bolsas PQ em função disso...


Entretanto, mais uma vez o presidente do CNPq se envolveu nessa controvĂ©rsia (desnecessariamente) ao comentar o caso, em diversas ocasiĂ”es. Basicamente, o que ele quer dizer Ă© que dizer Ă© que nĂŁo hĂĄ “preconceito” pelo CNPq e que a desigualdade seria consequĂȘncia de uma demanda menor por parte das mulheres, o que por sua vez Ă© culpa das instituiçÔes (das Universidades?) que prejudicam a progressĂŁo das mulheres na carreira. Como assim? Realmente nĂŁo entendi essa fala que ouvi dele na reuniĂŁo na ABC e que aparece em vĂĄrias das respostas do CNPq aos questionamentos... Como mencionei acima, nem temos esse rigor nessas avaliaçÔes institucionais...NĂŁo sei o que ele quer dizer com isso, mas por exemplo ele coloca a questĂŁo da demanda de forma bem confusa, escrevendo que:

 


"Em fĂ­sica, por exemplo (minha ĂĄrea) a demanda por pesquisadoras nĂŁo passa de 30%; em engenharia elĂ©trica de 10%. Portanto, nĂŁo adianta aumentar o nĂșmero de bolsas para mulheres nessas ĂĄreas, se o teto de vidro sobre elas estĂĄ em suas instituiçÔes e comunidades de trabalho, e nĂŁo nas agĂȘncias de fomento!” (carta do CNPq em 01/02/2024)







 



Sim, esse Ă© JUSTAMENTE o problema que tem sido colocado no mundo todo, existe uma menor DEMANDA das mulheres, principalmente em posiçÔes de nĂ­vel acadĂȘmico mais elevado, justamente por causa do chamado “efeito tesoura”. Esse efeito mostra que a proporção de mulheres/homens estĂĄ negativamente correlacionada com o nĂ­vel nas carreiras. De forma otimista, quero crer que o efeito tesoura tenderĂĄ a desaparecer ao longo do tempo, atĂ© pelas prĂłprias lutas e manifestaçÔes que levam Ă  conscientização, de modo que ele ocorre ainda que isso ocorra por razĂ”es histĂłricas (ou seja, as pesquisadoras nĂ­vel "A" do CNPq sĂŁo raras porque, na Ă©poca em que elas ingressaram na carreira, digamos 30-40 anos atrĂĄs, havia realmente poucas mulheres atuando em pesquisa na maior parte das ĂĄreas do conhecimento). Se esse componente histĂłrico for realmente forte, o efeito irĂĄ diminuir no futuro se as polĂ­ticas de inclusĂŁo estĂŁo funcionando...vamos ver. De qualquer modo, o efeito existe hoje e para dizer que o problema nĂŁo Ă© preconceito na avaliação precisamos ter uma ideia da relação concessĂŁo/demanda por gĂȘnero em cada ĂĄrea do conhecimento.


Entendo que parte do argumento do presidente do CNPq (apresentado, claro, de forma confuso e "torta"...) Ă© que a “culpa” do efeito tesoura nĂŁo Ă© do CNPq, e sim da prĂłpria carreira nas instituiçÔes e da estrutura social, e que nĂŁo haveria discriminação por parte dos CAs etc. NĂŁo faz sentido pra mim em relação Ă s IES, como jĂĄ disse, e de qualquer modo hĂĄ evidĂȘncias de sexismo nos processos de “peer review”, que inclusive justificam sistemas "cegos" de avaliação (nĂŁo tenho a pretensĂŁo de revisar a extensa literatura sobre isso, mas achei uma discussĂŁo disso em 1997 na Nature!!! Vejam aqui uma revisĂŁo sistemĂĄtica recente publicada na PLoS). Mas, enfim, entendo que em tese nĂŁo deveria haver mesmo qualquer discriminação em relação aos projetos apresentados por pesquisadorAs. Digo isso porque nĂŁo haveria, em princĂ­pio, diferença nos temas de pesquisa ou em termos de relevĂąncia cientĂ­fica em projetos propostos por homens e mulheres (mas, ao mesmo tempo, acho que isso Ă© tambĂ©m parte de uma visĂŁo limitada de ciĂȘncia pelos pesquisadore(a)s da nossa ĂĄrea de ciĂȘncias naturais, mas esse Ă© um outro tema legal para uma postagem futura, um tĂłpico que acho que tem sido negligenciado nas discussĂ”es sobre desigualdade de gĂȘnero na ciĂȘncia por aqui, pelo menos). Mas isso nĂŁo significa que nĂŁo haja problemas em termos de avaliação pelo CNPq.


Passamos então ao problema que pode (e deve...) existir em termos de avaliação, relacionado ao aspecto mais geral do papel da mulher na nossa sociedade (e que foi, inclusive, tema da redação do ENEM no final de 2023, certo?). Mesmo que não haja preconceito (e não estou dizendo que não hå...), o problema na avaliação vai aparecer porque a mulher acumula, no geral, muitas outras atribuiçÔes e tarefas domésticas, o que pode, claro, afetar a sua produtividade por um período de tempo até consideråvel, algo reconhecido jå hå muito tempo em vårios países. Temos que analisar os dados (que não eram tão fåceis assim de compilar, pois apenas recentemente o CNPq colocou essa informação sobre maternidade no Lattes, depois de muitos pedidos de vårios movimentos, incluindo especialmente o Parent in Science), mas entendo que esse problema vai ser mais frequente nas solicitaçÔes das bolsas PQ do que eu níveis mais baixos, por causa da questão etåria e da posição profissional.


Uma mulher que solicita bolsa PQ jĂĄ vai ter concluĂ­do seu doutorado hĂĄ pelo menos 2 ou 3 anos, vai ter uma posição permanente em uma instituição de ensino ou pesquisa e deve estar jĂĄ vinculada a um PPG, de modo que ela jĂĄ deve estar na faixa de 30-35 anos talvez, e espera-se que nessa faixa etĂĄria ela jĂĄ tenha filho(a)s ou esteja planejando tĂȘ-lo(a)s em muitos casos, o que certamente possui um impacto em termos de reduzir sua produtividade por algum tempo, pensando em termos gerais. Claro, diferentes mulheres terĂŁo realidades diferentes em função de muitos aspectos, incluindo apoio familiar, tipo de trabalho, linha de pesquisa, etc, mas nĂŁo hĂĄ dĂșvida de que hĂĄ um efeito...O mesmo vai acontecer com candidatas a bolsas de pĂłs-doutorado e mesmo para o ingresso na carreira nas Universidades e Institutos de Pesquisa. Em função disso, jĂĄ Ă© comum em vĂĄrios editais de vĂĄrios paĂ­ses ampliar o tempo de avaliação do CV, por exemplo, ampliando um ano a mais na janela de avaliação para cada filho(a). Se os CVs sĂŁo analisados por um perĂ­odo de 10 anos, por exemplo, a janela de avaliação passaria a 12 anos se a mulher, nesse perĂ­odo, teve 2 filhos. NĂŁo Ă© muito, e sabemos que a demanda pode ser bem maior, mas entendo que Ă© uma boa sinalização e jĂĄ ajuda. Depois do escĂąndalo com a Profa. Carlotto, o CNPq estabeleceu isso como norma (e sei que alguns CAs jĂĄ adotavam essa prĂĄtica hĂĄ um bom tempo).


EntĂŁo, temos diferentes causas para o problema da DEMANDA e da AVALIAÇÃO em relação Ă  desigualdade de gĂȘnero. Consequentemente, as soluçÔes sĂŁo diferentes para cada um dos desses componentes. A ideia de ampliar a janela de avaliação dos CV para mulheres com filhos Ă© uma tentativa de mitigar a questĂŁo do diferencial de avaliação, nĂŁo resolve a questĂŁo da demanda. Esta deve ser resolvida por açÔes afirmativas e que incluem diversas estratĂ©gias, que vĂŁo desde conscientização e estĂ­mulo Ă  participação no sistema desde criança ou adolescente atĂ© eventualmente o estabelecimento de cotas para resolver passivos histĂłricos (e vejam que Ă© a mesma discussĂŁo que temos para desigualdades Ă©tnico-raciais ou regionais). O problema Ă© reconhecer passivos e ter boa vontade para tentar resolver as questĂ”es. Notem que a SBPC jĂĄ havia encaminhado aos dirigentes do sistema de C&T do paĂ­s uma “Moção de Apoio: aumento de bolsas e de mulheres bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq”, um documento aprovado durante a 75ÂȘ ReuniĂŁo Anual da SBPC, realizada em julho de 2023, na UFPR. A resposta do CNPq à essa moção reforça alguns dos pontos equivocados e polĂȘmicos colocados acima, inclusive dizer que o problema vem das instituiçÔes de ensino e da carreira docente...


Em uma fala no dia 30/01/2024 em um evento na UNICAMP (que foi em geral muito semelhante Ă  fala dele na ABC na semana anterior...), o presidente do CNPq voltou a cometer os mesmos equĂ­vocos que comentei acima, mas foi explicitamente agressivo em relação ao movimento Parent in Science, aumentando consideravelmente a polĂȘmica. O Parent in Science é justamente um movimento fundado no Brasil que visa discutir todas essas questĂ”es de desigualdade de gĂȘnero e inclusĂŁo e propor soluçÔes nos diferentes nĂ­veis (vejam aqui uma reportagem detalhada no boletim da ABC sobre esse movimento e o vĂ­deo no final da postagem). O movimento aparece na esteira de diversos movimentos e iniciativas globais nessa direção, como o Mothers in Science (por razĂ”es sociobiolĂłgicas bĂĄsicas, o foco termina sendo nas mulheres, mas hĂĄ sempre um efeito, ainda que menor, sobre os homens pais).





Por uma feliz coincidĂȘncia, no mesmo dia da fala totalmente inadequada e desnecessĂĄria do presidente do CNPq na UNICAMP foi publicado um comentĂĄrio na Nature assinado pela Profa. Fernanda Staniscuaski, da UFRGS, fundadora do movimento, comentando o caso da Profa. Carlotto. Essa publicação reforça a importĂąncia do movimento e do tema em geral na Academia hoje, e mostra como as falas do presidente do CNPq estĂŁo na contramĂŁo do que tem sido discutido e da necessidade de uma mudanças importantes de concepção nesse e em outros aspectos ligados Ă s desigualdades que vemos no Brasil e no mundo.








NĂŁo vou repetir todos os pontos acima, mas vejam a nota de repĂșdio do Parent in Science sobre a fala de GalvĂŁo. Assisti ao vĂ­deo no dia com a fala infeliz do presidente do CNPq no dia, mas aparentemente o vĂ­deo foi retirado do domĂ­nio pĂșblico (a fala dele criticando o movimento aparece mais ou menos aos 90 minutos do vĂ­deo, se alguĂ©m conseguir acessar...). HĂĄ muitos equĂ­vocos e pontos confusos na fala dele, como ao dizer que as mulheres produtivas querem ser reconhecidas pelo trabalho e nĂŁo usar cotas ou coisas do tipo. A fala do presidente do CNPq nessa reuniĂŁo imediatamente levou a diversas manifestaçÔes e notas de repĂșdio por vĂĄrias outras entidades alĂ©m do Parent in Science, claro!


Notem, finalmente, que ele fez essa crĂ­tica ao movimento e mostrou a mesma fala confusa em relação Ă s bolsas PQ mesmo depois de ter sido “sutilmente” alertado dos equĂ­vocos na reuniĂŁo anterior na ABC do dia 24 de janeiro, tanto em relação Ă  questĂŁo da carreira docente quanto sobre os problemas de desigualdade de gĂȘnero, respectivamente pelos Profs. Renato Janine (presidente da SBPC) e pela Profa. Mercedes Bustamante (Ă  Ă©poca presidente da CAPES; vou resistir Ă  tentação de comentar a saĂ­da dela da CAPES essa semana, prĂłxima postagem...). Vejam tambĂ©m que a frase dele acima dizendo que a demanda das mulheres Ă© baixa estĂĄ na carta resposta dele ao Parent in Science divulgada no dia 01/02/2024! EntĂŁo, Ă© um pensamento recorrente e equivocado mesmo, nĂŁo estĂĄ legal mesmo...Nas palavras (sempre inigualĂĄveis) do saudoso Stephen Jay Gould, “...nĂŁo se atinge o status de Galileu sĂł por ser perseguido, Ă© preciso estar certo” (em 1977, no “Darwin e os Grandes Enigmas da Vida).

 

 

É isso...Esse tipo de polĂȘmica, principalmente envolvendo o dirigente mĂĄximo de uma instituição como o CNPq, tem o potencial de criar, desnecessariamente, um enorme problema e levar a polĂ­ticas equivocadas que, mais uma vez, vĂŁo atrapalhar a ciĂȘncia no Brasil. O ponto nĂŁo Ă© cancelar ou suspender o programa de bolsas PQ e DT, ou usar o recurso para outros projetos, mas sim AMPLIAR o fomento Ă  pesquisa cientĂ­fica no Brasil, e melhorar todos os sistemas de avaliação, tornando-os mais justos mas sem deixar de considerar o mĂ©rito acadĂȘmico e cientĂ­fico, que Ă© de fato o Ășnico impulsionador do desenvolvimento cientĂ­fico e tecnolĂłgico em um paĂ­s. NĂŁo tem como fazer ciĂȘncia de qualidade sem pessoas, e essas pessoas sĂł vĂŁo continuar ou ingressar na academia se houver um mĂ­nimo de reconhecimento e recompensa (essa Ă© uma concepção bem bĂĄsica em filosofia e sociologia da ciĂȘncia, pelo menos em uma visĂŁo Mertoniana...). NĂŁo estĂĄ muito claro que isso estĂĄ efetivamente acontecendo, dadas as contĂ­nuas preocupaçÔes com o orçamento anunciadas na CAPES e nas manifestaçÔes de instituiçÔes como ABC e SBPC, bem como os jĂĄ anunciados cortes nos orçamentos das Universidades federais, alguns dos problemas que jĂĄ aparecem na LOA para 2024...Como ouvi recentemente de um colega, serĂĄ mesmo que a “...a CiĂȘncia no Brasil voltou, estĂĄ voltando ou voltou mas jĂĄ foi embora?” Na esteira das discussĂ”es, vamos em seguida para o prĂłximo caso polĂȘmico sobre a saĂ­da da Prof. Mercedes Bustamante da presidĂȘncia da CAPES!!! TĂĄ difĂ­cil...

 



 

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