• José Alexandre F. Diniz F

Escolha a Catástrofe...

Isaac Asimov (1920 – 1992) foi talvez o mais importante escritor de ficção científica do século XX e um dentre os seus muitos livros, Escolha a Catástrofe, sempre foi um dos meus favoritos desde a adolescência (a minha edição é de 1982; a edição original nos EUA é de 1979, com o título em inglês “A Choice of Catastrophes”). Curiosamente, esse não é um livro de ficção científica. Ele contém uma longa discussão sobre as possibilidades de extinção da espécie humana ou da nossa civilização. Reli esses dias o livro com certa apreensão, pois lembrava da ideia geral mas não de todos os detalhes...Embora nesses últimos 40 anos muita coisa tenha mudado e muitos dados e ideias precisem ser atualizados, o livro é bastante atual (mostrando a perspicácia de Asimov), com muitas discussões interessantes.



Um aspecto que sempre me chamou atenção é que Asimov organiza a questão de forma hierárquica, classificando as catástrofes em 5 “níveis” ou “graus”, começando de escalas maiores (o fim de todo o Universo, Grau I) e terminando em escalas mais restritas temporal e geograficamente e que levariam à extinção da civilização atual, mas não da espécie humana (Grau V). À medida que passamos do Grau I para o Grau V, reduzimos as escalas e as catástrofes vão se tornando assustadoramente mais prováveis ou plausíveis...E aí a coisa fica realmente MUITO atual!


As catástrofes de Graus I e II implicariam no fim da humanidade como consequência da destruição e do fim do Universo e do Sistema Solar, respectivamente. Já a catástrofe de Grau III implicaria na eliminação do Planeta Terra, tanto no sentido físico quanto no sentido dele se tornar totalmente inóspito e incapaz de sustentar a vida (por exemplo, pelo impacto de grandes corpos extraterrestres, aumento da radiação solar nociva à vida, colapso no campo magnético, mudanças nos padrões orbitais desestabilizando as correntes oceânicas e mares, dentre outros).


É interessante que Asimov coloca e discute bastante a questão dos impactos extraterrestres como catástrofes de Grau III (tornando a Terra um planeta inabitável), mas temos que lembrar que isso já aconteceu, por exemplo, no final do período Cretáceo, há cerca de 65 milhões de anos! A Terra com certeza já foi atingida alguma vezes por corpos extraterrestres de dimensões maiores, mas apenas nesse caso do final do Cretáceo há evidências mais claras do impacto e das suas consequências, em termos de extinção em massa, mais conhecida pela extinção da maioria das espécies de dinossauros (mesmo assim lembrando que algumas delas sobreviveram e evoluíram para as aves modernas). Vejam que quando Asimov publicou o livro originalmente, a hipótese dos Louis e Albert Álvarez ainda não havia sido lançada (isso só ocorreu em 1980!). As outras extinções em massa foram causadas muito provavelmente por eventos geológicos de derramamento de basalto e vulcanismo em grande escala, que por sua vez desencadeiam uma série de mudanças no clima (vejam os vários livros excelentes do paleontólogo Peter Ward sobre esse tema). Obviamente, se o asteroide se chocando com a Terra for um pouco maior do que o que nos atingiu há 65 milhões de anos (em princípio algo em torno de 10 km de diâmetro), os efeitos poderiam ser muito maiores e a vida poderia ser realmente eliminada da Terra (embora eu ache improvável; microorganismos e pequenos invertebrados poderia sobreviver em ambientes escondidos e extremos e eventualmente recomeçar todo o processo evolutivo; como disse Ian Malcom, o excêntrico matemático de Jurassic Park de Michael Crichton, “...life will find a way”).


De qualquer modo, essas grandes catástrofes que conseguimos associar com eventos de extinção em massa não foram suficientes para eliminar a vida no Planeta e, pela hierarquia de Asimov, poderiam ser talvez melhor classificadas como de Grau IV, assumindo no caso que a espécie humana seria uma das espécies que se extinguiria. Mas, mesmo assim, uma catástrofe de Grau IV, na qual a espécie humana se extingue e muitas outras sobrevivem, não seria muito provável em curto prazo, pelo menos em princípio. Pelo que sabemos a partir das extinções atuais (causadas em grande parte pela própria espécie humana nos últimos 50,000 anos...) é que a extinção de toda a espécie humana seria pouco provável dada a elevadíssima abundância (número de indivíduos) da nossa espécie, que hoje chega a algo como 7 bilhões de pessoas (e aumentando...) e sua enorme distribuição geográfica, ocupando praticamente todo o Globo. Mesmo que muitas espécies desapareçam e não consigam persistir, como aconteceu no final do Permiano e no final do Cretáceo, a espécie humana dificilmente estaria entre elas, pelo menos em curto/médio prazo (ou seja, pensando em tempo “ecológico”, curto, não necessariamente em tempo evolutivo). O mesmo se aplicaria a muitos dos nossos animais domésticos, pela sua grande abundância.


Assim, o limite entre Grau IV e V é tênue, claro, pois o próprio Asimov já tinha escrito que não necessariamente toda a espécie humana se extinguiria. Entretanto, no Grau IV os indivíduos que permanecem vivos podem estar em uma situação tão isolada em pequenos grupos e bandos, sem recursos e sujeitos a ação de processos seletivos que não se manifestavam há tanto tempo, que haveria uma chance baixa de persistir ecológica ou evolutivamente. Então, a diferença de Grau IV e V depende, me parece, mais da intensidade dos fatores do que da sua definição.


Vamos então pensar com mais calma nas catástrofes de Grau V, que indicariam o fim da nossa civilização moderna do final do século XXI, a despeito da persistência da espécie humana. É como se voltássemos ao “início da História”, a partir do qual novas trajetórias poderiam conduzir a humanidade a novas civilizações totalmente diferentes espalhadas pelo mundo. Esse nível é mais interessante inclusive porque há, na minha compreensão, mais novidades e pontos a ressaltar considerando o que tem acontecido desde o final dos anos de 1970, no contexto científico-tecnológico, social, econômico e político. Além disso, para fins de argumentação, vou seguir o argumento de Yuval Harari (em seu fantástico 21 Lições para o Século XXI) que, apesar das muitas diferenças culturais e sociais entre os países e entre os povos, vivemos hoje em uma civilização global.


Na realidade, desde o início da nossa civilização, nós eliminamos a maior parte das nossas espécies competidoras e que pudessem nos causar problemas, especialmente as de grande e médio porte, principalmente os mamíferos. Ainda temos algumas dificuldades para erradicar insetos que podem ser vetores ou pragas agrícolas, mas os avanços científicos têm sido capazes, pelo menos por enquanto, de lidar com esses problemas. Certamente temos colapsos econômicos e sociais eventuais em função desses problemas e tanto mortalidade quanto fome às vezes se tornam problemas mais sérios, mas principalmente em escala local. Mas me parece que esses problemas são gerados mais por má gestão e problemas ideológicos do que por dificuldades científica e tecnológica. Demograficamente, não temos hoje mais de 7 bilhões de pessoas na Terra à toa...Somos extremamente bem sucedidos como espécie e como civilização, apesar do principal “efeito colateral”, que é a praticamente total destruição da natureza e o esgotamento dos recursos naturais (que podem levar, em última instância, à efetivação de uma catástrofe de Grau V de Asimov, como vamos discutir). De forma otimista, esse efeito colateral poderia ser revertido dependendo de como os políticos e líderes mundiais serão capazes de prestigiar a ciência e a tecnologia a ponto dela ser capaz de antecipar os problemas. Mas as tendências atuais não permitem ser muito otimista nesse sentido...Mas chegamos lá.


Entretanto, apesar desse “sucesso” da espécie humana hoje, em termos demográficos, há algumas questões que emergem de toda essa discussão e que podem apontar para muitos problemas, que talvez Asimov não tenha previsto há 40 anos atrás (pelo menos isso não transparece no texto, acho...). Talvez um dos fatores críticos nesse sentido sejam os efeitos colaterais do aumento na densidade populacional humana, que potencializa, e muito, o efeito de alguns dos fatores envolvidos nas catástrofes de Grau IV e V (e que já discutimos em parte em uma postagem anterior). Então, ele aparentemente tratou da maior parte desses fatores como INDEPENDENTES! Ele não pensou – pelo menos em princípio ou explicitamente - que eles poderiam estar correlacionados de múltiplas formas, em diferentes escalas, e que eles estariam também fortemente relacionados a fatores políticos/ideológicos e econômicos. Esses fatores podem não só estar correlacionados, mas eles podem também interagir, no sentido estatístico da palavra; ou seja, quando dois fatores acontecem juntos, seus efeitos se reforçam mutuamente, aumentando o impacto de forma mais drástica do que a simples soma dos efeitos. Na verdade, essas interações são muito mais complexas do que podemos imaginar...Mas podemos discutir algumas coisas.


Para não perdermos o timing, vamos pensar na crise atual da COVID19. Escrevo essa postagem após quase 80 dias de quarentena em minha cidade e quando o Brasil passa de meio milhão de casos confirmados e quase 35 mil mortes oficialmente registradas. Por enquanto, a melhor chance de resolver o problema são medidas oficiais de distanciamento social que aumentem o isolamento entre as pessoas, desacelerando o contágio e a expansão e permitindo que os sistemas de saúde de cada país ou região sejam capazes de lidar com a situação (vejam as postagens anteriores, especialmente uma discussão sobre como o isolamento social reduz “mecanisticamente” a expansão da pandemia). Como essas medidas tendem a demorar a ser aceitas e muitas vezes entram em choque com questões econômicas e políticas, elas às vezes demoram a ser implantadas. Isso causa o problema sério que vimos na Itália, Espanha, Inglaterra e alguns outros países da Europa e, pior ainda, nos EUA e aqui no Brasil.


Apesar de alguns insistirem em teorias da conspiração, o SARS-COV-2 que causa a COVID19 tem claramente origem na China, a partir do contato com morcegos e outras espécies (pangolins), assim como outras formas de coronavírus. Esse vírus é, portanto, mais uma zoonose, como tantas outras que temos visto (vejam sobre isso o excelente livro de David Quammen, Spillover, e uma recente entrevista no Nexo, além de postagens excelentes do meu colega Leandro Monteiro sobre os morcegos e outros "reservatórios" das viroses). Algumas pessoas insistem em dizer que a pandemia não está associada com questões ecológicas e ambientais, com o argumento de que a Humanidade sempre esteve associada à natureza, na realidade até mais do que hoje no passado recente, já que havia uma maior população rural, mais caça, etc.


É verdade que, no passado, as populações humanas teriam mais contato direto com a natureza, mas aí é que começam a aparecer as correlações e interações. O que precisamos entender é que, realmente, as zoonoses sempre existiram e, de fato, algumas doenças bem conhecidas e totalmente “antropizadas” na cabeça das pessoas (no sentido de serem doenças “humanas”), como malária e sarampo, provavelmente vieram do contato com animais na antiguidade, há mais de 4000-5000 anos atrás. Nesse sentido, deve ter havido continuamente uma transmissão de vírus e outros microorganismos para populações humanas, mas precisamos entender melhor isso em um contexto evolutivo. Se uma virose ou patógeno com uma mortalidade muito alta se torna capaz de infectar populações humanas, ela poderia exterminar toda uma população local antes de ser capaz de se expandir para outros locais. Isso deve ocorrido muitas e muitas vezes em diferentes locais do mundo por milhares de anos à medida que a espécie humana avançava sobre o planeta há pelo menos 100.000 anos e entrava em contato com diferentes espécies de animais e plantas, biomas e ecossistemas. Uma doença com uma mortalidade menor, por outro lado, poderia se expandir um pouco mais facilmente. Mais importante, se algumas pessoas possuíssem algum grau de resistência ou imunidade natural, um processo de seleção natural faria com que quaisquer genes (humanos) de resistência à doença se fixassem na população (ainda hoje somos capazes de observar gradientes associados à resistência à peste negra na Europa, mais de 700 anos depois, há muita discussão e literatura científica sobre isso!). Por outro lado, o vírus ou microorganismos também vai evoluir, pois aqueles que conseguem se sobrepor aos efeitos de resistência se multiplam com mais frequência, o que dá início a um processo de coevolução entre o patógeno e o hospedeiro. Mas essas doenças, de qualquer modo, se expandiriam de forma relativamente lenta e dificilmente se tornaria uma “pandemia” no sentido moderno, estando com mais frequência associadas à populações locais ou regionais (por exemplo, passariam a ser “típicas” ou "endêmicas" de certas regiões).


Não podemos esquecer que, para uma doença infecciosa mediada por um vírus, a dinâmica evolutiva é muito mais rápida, dado o curtíssimo intervalo de gerações. Precisamos abstrair em termos de “escala temporal” e lembrar que, nesse sentido, o que vemos para uma virose em alguns meses, ou anos, é equivalente à evolução dos macro-organismos em milhões de anos. Cada novo hospedeiro individual, e especialmente quando estamos falando na passagem de uma espécie de hospedeiro para o outra, representa uma enorme variação de ambiente que, por sua vez, gera uma forte pressão seletiva no microorganismo.


Assim, em resumo, à medida que avançamos e eliminamos os ambientes naturais, entramos em contato com outras espécies animais, caçamos e consumimos essas espécies, dando oportunidade à eventos de spillover. Entretanto, agora há um efeito sério de velocidade de expansão dada a nossa civilização global. Um vírus com um equilíbrio “adequado” entre mortalidade e transmissão (sob o ponto de vista “dele”, do vírus) torna-se muito rapidamente uma pandemia, como estamos vendo no caso da COVID19. Além disso, esse evento de expansão para diferentes populações humanas ao redor do mundo, com características biológicas ligeiramente diferentes e com climas diferentes, abre mais ainda oportunidades de evolução e diferenciação genética do vírus (como já vemos na COVID19). Em um certo sentido, somos sim responsáveis pela pandemia...Como disse Thomas Lovejoy, “...Esta não é uma vingança da natureza, nós fizemos isso a nós mesmos. A solução é ter uma abordagem muito mais respeitosa da natureza, que inclui lidar com as mudanças climáticas e tudo o mais”. Mas vamos discutir essa questão da "culpa" depois, com mais calma.


Então, embora eventos de spillover sempre tenham acontecido, agora eles têm uma chance muito maior de se tornarem pandemias e evoluir ainda mais rapidamente. Aí temos uma correlação...Ao mesmo tempo, as mudanças ambientais em geral, tanto em termos de perda de habitat quanto mudanças climáticas, alteram também os hospedeiros e reservatórios e assim aumentam o potencial evolutivo das viroses. Vejam que Jared Diamond já discutiu justamente o colapso de várias civilizações e sociedades mais antigas em função do clima, mas nós continuamos achando que, em escala global, somos imunes a esses efeitos que nós mesmos criamos. Não é tão simples assim...


Então, as grandes mudanças ambientais em termos de destruição de habitats e clima, associadas a um enorme aumento no potencial de transmissão de epidemias para todo o mundo (gerando pandemias, portanto) são ambas consequências do maior tamanho populacional e da própria globalização da nossa civilização. Entretanto, como já discutimos anteriormente, o aumento do tamanho populacional por si só não implica necessariamente em colapso, pelo menos em teoria, pois depende de como lidamos com isso. Vamos lembrar de Condorcet e não só de Malthus, podemos ser otimistas e pensar que, à medida que a população aumenta, aumentam também as chances de inovação tecnológica e de alguém ser capaz de gerar uma sociedade melhor. Infelizmente, não sei se há motivo para otimismo, e podemos pensar em mais um componente da correlação e interação: à medida que a população aumenta, pelo menos no início do século XXI, temos percebido uma população cada vez mais ignorante, mais distante do conhecimento atual sobre o universo, a natureza e a humanidade! Parece que estamos cada vez mais longe dos ideais iluministas de Concorcet!


No nosso contexto específico da pandemia, vemos toda a sorte de atitudes não-científicas que estão levando a um aumento da mortalidade, desde setores econômicos gananciosos que continuam a se preocupar apenas com o lucro, a despeito das consequências desastrosas da mortalidade excessiva e da perda das expectativas para a própria economia, até pastores que querem combater o vírus com orações e rituais de exorcismo! Essas atitudes são, direta ou indiretamente, apoiadas em alguns lugares pelos Governos em diferentes níveis hierárquicos, mas nada se compara ao negacionismo de Donald Trump e, claro, de Jair Bolsonaro.


As mesmas atitudes anticientíficas que permeiam, por exemplo, o debate sobre mudanças climáticas e sobre evolução biológica, que discutimos algumas vezes aqui no "Ciência, Universidade e Outras Ideias", surgem agora no contexto da pandemia da COVID19. Isso é possível porque toda essa atitude de negacionismo reflete, de fato, um problema mais amplo de falta de conhecimento e educação em nossa sociedade. Temos hoje 7 bilhões de pessoas, mas muitas delas continuam vivendo como “sempre”, quase que à margem, intelectualmente falando, da nossa civilização tecnológica. Elas até usam parte da tecnologia, quando têm acesso, mas não estão conscientes da origem dessa tecnologia e muito menos das bases científicas subjacentes a elas, o que sempre me lembra da 3ª. Lei de Clarke (qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia"). Então, precisaríamos de líderes que pudessem manter a civilização, mas paradoxalmente o próprio processo democrático, em função da ignorância e de interesses obscuros, parece nos levar cada vez mais longe dos ideais iluministas. Nada de ciência, nada de pensamento crítico...Difícil resolver, e acho curioso lembrar que o próprio Asimov, em sua série mais famosa de livros, Fundação, chega até a usar a ideia de que os cientistas poderiam usar a “religião” como uma forma de dominação social a fim de controlar a sociedade e manter o poder.


Então, como coloca Yuval Harari, embora tenhamos hoje grandes nações com milhões de habitantes, em muitos aspectos agindo de forma coordenada por organizações internacionais globais, como a ONU e OMC, continuamos pensando e atuando no dia-a-dia como grupos muito menores, e o nosso cérebro, em termos de interações sociais, continua funcionando como se fôssemos caçadores-coletores paleolíticos. O problema é que nossos problemas são mesmo cada vez mais globais, pois o nosso impacto como civilização já está nessa escala. Isso é realmente impressionante e até poucas décadas atrás não imaginávamos que somos capazes realmente capazes de afetar o clima global (e ainda hoje muita gente não consegue entender isso...)!


De certo modo paradoxalmente, a internet e o surgimento das mídias sociais, que seriam pretensamente universais e democráticas, estão claramente estruturadas em “bolhas” de relacionamento que enviesam a percepção dos problemas e nos impedem cada vez mais de ter uma visão “do todo”. Isso porque a informação, paradoxalmente, é filtrada e as pessoas não são capazes de pensar de forma independente e racional, e voltamos então ao nosso cérebro Paleolítico/Neolítico. Então, nossos problemas são globais e estão todos correlacionados, mas somos incapazes de perceber isso como uma única civilização, para poder enfrenta-los de forma adequada e a partir do conhecimento em ciência e tecnologia que adquirimos.


Em síntese, acho que temos que manter constantemente em mente os dois principais pontos de toda essa discussão:

  • Apesar de vivermos em um mundo estruturado em países, nossa sociedade está estruturada em grupos ainda bem menores e com uma percepção muito local. Mas claro que nossos grandes problemas como civilização, em termos de ameaças “externas”, como clima ou patógenos, ou internas, ligadas à economia e questões políticas/ideológicas, são globais. Portanto, apesar da nossa inércia no sentido de mantermos nosso cérebro de caçadores-coletores, precisamos cada vez mais pensar em termos globais, o que é um grande desafio;


  • A solução desses problemas passa por avanços científicos-tecnológicos, não há como voltar para civilizações locais sofrendo ameaças globais, seguindo uma visão de mundo medieval e dominada pelo misticismo e superstições...Precisaríamos avançar realmente para uma sociedade global e integrada, equilibrando o respeito às tradições e diversidade cultural local e a capacidade de nos entendermos em relação às prioridades de combate às ameaças. Mas as tendências mostram, infelizmente, uma direção contrária, o que obviamente coloca em risco toda a Humanidade.

Então, hoje, no dia mundial do meio ambiente (5 de junho de 2020), vemos que os nossos problemas são globais e estão correlacionados. Em princípio, poderíamos reverter algumas das tendências que estão destruindo os habitats naturais, mudando o clima e nos tornando cada vez mais suscetíveis a pandemias com consequências desastrosas em termos de saúde pública e economia. Alguns mais otimistas acham que a atual pandemia da COVID19 pode desencadear um esforço nessa direção, mas tendo a concordar com meu colega Rafael Loyola em sua coluna recente no Eco, que os efeitos serão complexos e não sei se essa visão muito idealizada não é ingênua, dada a nossa situação atual. Essa frase dele expressa isso muito bem:“...Portanto, é preciso retomar nosso lugar no mundo como parte da natureza e não como seres acima dela. Sem essa percepção, não há ODS que resolva, não há pandemia que nos faça refletir, não há ambientalismo que seja suficiente”.


Sendo assim, para resolver isso precisaríamos de líderes com uma visão moderna, global e idealista, com uma grande empatia pela humanidade; precisamos de ciência e tecnologia, precisamos de educação. Vamos lembrar que, no caso da COVID19, está bem claro que os países liderados por mulheres se saíram melhor no combate à pandemia, o que pode nos dar uma ótima pista de como podemos avançar nesse sentido...Mas, infelizmente, não é isso que temos visto em geral no mundo hoje; temos um enorme movimento anti-ciência e um ambiente de comoção social, com aumento da intolerância e do ódio. No Brasil em particular essa correlação é impressionante, inclusive com o Governo Federal se colocando claramente contra as medidas de isolamento social (na contramão de toda a evidência científica em todo o mundo), não se importando com o colapso potencial do sistema de saúde e todas as suas consequências. Ao mesmo tempo, o Governo se aproveita da crise gerada pela pandemia para intensificar ainda mais ações contra o meio ambiente, algo explicitamente assumido pelo ministro Ricardo Sales. Isso sem contar com o apoio a movimentos fascistas e antidemocráticos, além de disseminação de fake news. Enfim, pelo exemplo brasileiro, as chances de termos uma grande civilização global, unificada, racional e com liberdade, parecem cada vez mais remotas...


Embora Asimov tenha uma visão relativamente otimista do futuro da Humanidade e do papel da Ciência, ao contrário de alguns outros escritores de ficção científica, não podemos ignorar o momento delicado pelo qual estamos passando e que não parecia tão evidente nos anos de 1970 (tínhamos outros problemas à época, especialmente uma ameaça série de um confronto nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética). Relendo o livro, e agora pensando nas correlações, quem sabe as catástrofes de Grau V não sejam tão implausíveis como poderíamos achar na época que o livro foi publicado. Mas Asimov conclui que



Creditos: wiki commons

“...não há catástrofes que não possam ser evitadas. Não há nada que nos ameace com a destruição eminente de modo tal que fiquemos de mãos atadas. Se nos comportarmos racional e humanitariamente; se nos concentrarmos objetivamente nos problemas que afligem toda a Humanidade, em vez de emocionalmente em assuntos do século XXI, como segurança nacional e orgulho regional; se reconhecermos que não é nosso vizinho o nosso inimigo, mas sim a penúria, a ignorância e a fria indiferença da lei da selva – então poderemos solucionar todos os problemas que se nos defrontam”





Realmente é brilhante e visionário, e concordo com cada palavra! Mas na semana em que estouram protestos nos EUA e em todo o mundo contra as atrocidades ligadas ao racismo e a intolerância, quando vermos tantas loucuras acontecendo no Brasil, não é fácil ler essas palavras de Asimov com otimismo. Acho que a situação é um pouco diferentes do que ele previu, por causa das correlações e interações entre tantos fatores negativos, como tentei mostrar acima. Mas vamos aguardar... Desculpem, estou hoje mais pessimista ainda em relação ao meio ambiente, neste 05 de junho de 2020...Seria mesmo uma pena perdermos tudo que conseguimos até agora como civilização e como sociedade, pensando em Tales, Platão, Aristóteles, Arquimedes, Hipácia, Eratóstenes, Arquimedes, Agostinho, Da Vinci, Galileu, Michelangelo, Shakespeare, Condorcet, Hume, Kant, Anning, Gandhi, Newton, Einstein, Noether, Darwin, Franklin, Russel, Curie, Mendel, Popper, Kuhn, Lakatos, Debussy, Mozart, Sagan, Fisher, Wright, Haldane, Simpson, Gould, Wilson, Kerr, McClintock, Turing, Churcill, Diana, Lennon (& McCartney, claro!), Jagger, Luther-King, Mandela, Spielberg, Dali, Merkel, Picasso, Verne, Clarke, Asimov, Harari, Diamond, Roddenberry, a santíssima trindade Clapton-Page-Beck (+Hendrix e Malmsteen), Jobim (+João), Madonna, Thunberg, e tantas outras grandes figuras da Humanidade (desculpem pelos vieses e esquecimentos nesse panteão bem pessoal). Mas que seja, que venha um novo Neolítico ou Paleolítico, quem sabe não encontramos, como espécie, uma trajetória que nos leve a uma sociedade melhor em um futuro distante...




Creditos imagens: Pixabay

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