• José Alexandre F. Diniz F

Racismo e a Diversidade Biológica Humana



"Luz será lançada sobre a origem do Homem e sua história...

(Charles Darwin, "A Origem das Espécies", 1859)



Nas postagens aqui do “Ciência, Universidade e outras Ideias” deste ano nos concentramos na discussão racial, desencadeada pelo ensaio de Monica McLemore sobre a morte de E. O. Wilson. Posteriormente a revelação da associação dele com supremacistas brancos me levou a uma discussão sobre a variação biológica humana e o racismo, e cheguei a comentar no ensaio do dia de Darwin que se as pessoas não estão preparadas para discutir a variabilidade humana de forma madura e entender quais processos ecológicos e evolutivos estão subjacentes a ela sem que isso apoie movimentos racistas, eugenistas e discriminatórios, realmente talvez seja melhor tornar esse assunto um “tabu” científico.


Entretanto, não fiquei realmente satisfeito com essa posição e confesso que ela tem me incomodado...Quase arrependi de ter escrito isso, pois acho que há muitos pontos conflitantes nesse tipo de raciocínio, alguns mais gerais (sob um ponto de vista epistemológico) e outros mais específicos em relação à diversidade evolutiva na espécie humana. Pensando bem, não concordo com a ideia de “tabus científicos”, na verdade nem sei se isso faz sentido, pois de certo modo esse argumento termina levando a uma forma de relativismo, já que admitimos que existem fortes componentes ideológicos que guiam e podem restringir o pensamento científico (como já discuti aqui diversas vezes, sabemos que isso acontece e não podemos ter uma visão positivista ingênua da ciência, mas isso não significa que isso não seja um problema em vários casos...). Além disso, obviamente os geneticistas e antropólogos não vão deixar de estudar esse assunto, apesar das controvérsias em potencial e do que eu pense sobre isso!


Especificamente em relação à espécie humana, o problema está em assumir que somos muito diferentes das outras espécies e de toda a biodiversidade, que não estamos sujeitos aos mesmos processos ecológicos e evolutivos durante a nossa evolução. Durante toda a minha carreira e em todos os cursos que ministrei relacionados a esse tema tento mostrar que somos parte da Natureza, por mais que tenhamos uma maior complexidade cultural, comportamental e social. Por mais que sejamos, como dizia Stephen Gould, um primata Africano degenerado e bem particular que é capaz de rastrear sua própria história, não somos “especiais”, ou, melhor dizendo, somos tão especiais como qualquer outra espécie. Nas palavras inigualáveis do antropólogo inglês Robert Foley, somos “apenas mais uma espécie única”. Não podemos nos colocar em um lugar especial na natureza, em um pedestal, pois esse tipo de visão pode ter várias consequências tão nefastas quanto o racismo (estou falando de visões negacionistas ligadas à evolução e, mais recentemente, sobre a associação do conceito de raça e da eugenia com os movimentos ambientalistas – muito estranho, mas isso vai ser outra estória...). Negar a variação humana é negar a biodiversidade, e como disse na postagem inicial sobre E. O. Wilson, nesse momento de crise da nossa civilização em relação à questão ambiental, é importante assumirmos um profundo compromisso com a diversidade, incluindo a diversidade na nossa própria espécie. Então, ao contrário do que pode ficar subentendido no ensaio de Monica McLemore na Scientific American, estudar a diversidade humana e seus componentes genético-evolutivos não pode, de forma alguma, ser vinculado com uma posição racista.


Assim, resolvi voltar atrás e assumidamente discutir a questão da variação entre as populações humanas. Também fiquei motivado a voltar a esse assunto após ler uma revisão da antropóloga Noreen von Cramon-Taubadel publicada em 2013 no Journal of Anthropological Sciences, no qual ela revisa detalhadamente as análises já feitas sobre a variação no tamanho e na forma do crânio em populações humanas. No meio desse artigo mais técnico ela discute como os arcabouços conceituais de pesquisa na “Nova Antropologia Física” foram redefinidos após a 2ª. guerra mundial justamente para mitigar o efeito da associação entre variação morfológica e questões raciais, seguindo o movimento emergente da Teoria Sintética da Evolução. Então, fiquei pensando que, mesmo que as pessoas continuem fazendo confusão e usando os argumentos de forma equivocada, temos que insistir na interpretação “científica” da questão, inclusive porque a discriminação, o racismo e o sexismo não se justificam com base na ciência, embora alguns possam utilizar argumentos científicos distorcidos ou equivocados para justificar suas ações. Isso caracteriza bem a pseudociência e já sabemos que temos que combatê-la. Assumir que discutir o assunto da diversidade humana leva a problemas de interpretação e torná-lo um “tabu” não vai impedir que algumas pessoas continuem pensando de forma pseudocientífica e convencendo outras pessoas a acreditar em ideias equivocadas ou absurdas. Afinal, essa não seria a única falha séria na formação científica das pessoas hoje em dia, já que vivemos em um “mundo assombrado pelos demônios” no qual milhões de pessoas acreditam que a Terra é plana e que fomos criados à imagem e semelhança de Deus há pouco mais de 6000 anos atrás!


Então, vamos em frente, apertem os cintos, é uma longa estória...E mantenham sempre em mente a frase de Robert Foley, “somos apenas mais uma espécie única”.




Origem e Evolução de Homo sapiens


A espécie humana, Homo sapiens, surgiu na África há cerca de 200-300 anos atrás e há mais ou menos 50-70 mil anos atrás, pelo menos, começou a dispersar e ocupar gradualmente todo o mundo (essas datas tendem a recuar com novas descobertas do registro fóssil e arqueológico, são apenas uma aproximação inicial aqui). Quando isso ocorreu, boa parte da Europa e da Ásia já estava ocupada por outras espécies de hominíneos do gênero Homo que haviam evoluído anteriormente, sendo a mais conhecida delas o Homem de Neanderthal (H. neanderthalensis). As rotas de dispersão de H. sapiens a partir da África não foram ao acaso e seguiram as grandes variações e mudanças climáticas ao longo do tempo, em meio aos famosos ciclos glaciais e às “eras do Gelo”. Claro, há muitos eventos e detalhes do processo de dispersão que não sabemos, claro, mas temos uma visão global do processo e podemos entender, a partir do nosso conhecimento geral sobre ecologia e evolução, o que pode ter acontecido. Os mais interessados podem consultar as excelentes revisões recentes de Nielsen e colaboradores (2017) e de Anders Bergstrom e colaboradores (2021), ambas publicadas na Nature! Espero que possamos entender que a ligação desse conhecimento empíricos e teórico sobre nossa evolução com o racismo se forma a partir de interpretações equivocadas e de pseudociência.


A partir dessas informações básicas apresentadas acima, temos dois pontos que estão claros já há algum tempo para os cientistas: o Homo sapiens surgiu há relativamente pouco tempo na África e sua distribuição geográfica se expandiu para todo o mundo nos últimos 50-70 mil anos pelo menos. Um terceiro ponto importante, que não estava tão claro até pouco mais de 15 ou 20 anos atrás, é que nesse processo as populações humanas que chegavam se misturaram com as populações das outras espécies próximas que já ocupavam a Europa e a Asia (ainda que em proporções pequenas, entre 2% e 3%). Esse é um tema bastante complexo por várias razões e precisamos discutir com mais calma, mas o fato é que as análises realizadas nos últimos anos do genoma humano e do Neanderthal (e outras formas relacionadas, como os Denisovanos - uma espécie próxima a Neanderthal) mostram que houve o que chamamos de “introgressão gênica”, ou seja, não só houve relações sexuais entre os indivíduos dessas duas espécies, quanto isso foi suficiente para deixar um “rastro” nas populações modernas. Não temos muitas informações (nenhuma, de fato...) sobre o contexto ecológico, sociológico e comportamental dessas relações, mas o que importa aqui é que esse contato entre H. sapiens e as espécies próximas que já existiam nessas regiões “injetou” variabilidade nas populações da nossa espécie que se expandiam por todo o mundo.



Expansão da População Humana (extraído de Nielsen et al. Nature, 2017).



Podemos então pensar no seguinte cenário: temos uma espécie de grande porte e com grande complexidade social e comportamental, predadora, que evoluiu inicialmente em algum lugar em um continente (África), cujas populações se espalharam primeiro por esse continente e depois pelo resto do mundo. Suas rotas de dispersão foram mediadas por grandes mudanças no clima, levando a diferentes possibilidades de encontrar recursos variados, incluindo novas espécies de presa e patógenos, e encontrando e acasalando com outras espécies próximas ao longo do caminho. O que podemos esperar sob esse cenário em termos de variação biológica nas populações? É importante já ressaltar que quando falo em “populações” nas discussões a seguir estou me referindo ao que chamamos às vezes de populações locais, ou “demes” (daí vem a palavra “demografia”, aliás), que no nosso caso seriam tribos, aldeias, pequenas comunidades cujos indivíduos interagem continuamente e no qual a maior parte dos acasalamentos e interações sociais, no caso da nossa espécie, ocorrem. Não estamos falando, por exemplo, de “população brasileira”, como às vezes usamos de forma coloquial.


Mas vamos seguir uma estratégia metodológica muito comum em Ecologia e Evolução (e em Ciência, de modo geral) e começar simplificado esse cenário, para depois ir adicionando mais fatores e avaliar seu efeito sequencialmente. Vamos hipoteticamente pensar que a espécie humana surgiu na África e se espalhou muito rapidamente pelo mundo (em algumas dezenas de gerações, digamos), mundo este que seria muito homogêneo em termos de clima e ambiente de forma geral. Ou seja, estamos assumindo que as populações humanas que se expandiam muito rapidamente pelo mundo encontraram os mesmos tipos de plantas e animais para se alimentar, estavam sujeitos às mesmas doenças e expostos aos mesmos patógenos, encontrando um mesmo tipo de clima similar ao encontrado em seu lugar de origem, em um mundo totalmente desocupado por outras espécies de hominíneos. Essa população inicial que começou a se expandir seria bastante pequena e homogênea. Nesse cenário simples e irreal, os indivíduos que encontraríamos em diferentes lugares do mundo depois de algumas gerações seriam todos muito semelhantes biologicamente. Além disso, justamente por serem semelhantes, não veríamos nenhum padrão geográfico de semelhança, claro. Não seríamos iguais, claro, pois sempre há uma pequena variação ao longo do processo de reprodução, pois herdamos as características dos nossos pais e mães, mas sempre há mutações que criam variabilidade. De qualquer modo, nesse cenário, seríamos todos muito, muito parecidos com nossos tatara-tatara-tatara-tatara avôs e avós que evoluíram na África há algum tempo.


Vocês já perceberam que esse cenário tem vários problemas, mas estamos agora mais bem preparados para entender as consequências de torná-lo mais realista ao incorporar gradualmente mais complexidade a ele. Seria muito tedioso explorar todas as possibilidades de incorporar gradualmente realismo a esse cenário inicial hipotético e simples, então vamos pensar nos dois conjuntos principais de possibilidades de como, ao longo do processo de origem e expansão da nossa espécie, adquirimos variabilidade biológica.


Vamos começar pensando que, na realidade, o processo de expansão não pode ser tão rápido assim. As populações humanas não estão “correndo” para chegar a algum lugar, de forma dirigida, elas estão se expandindo, explorando e ocupando novos territórios, gradualmente. Portanto, houve bastante tempo, em termos de algumas centenas ou mesmo milhares de gerações, para que mutações se acumulassem em diferentes partes do globo, criando variabilidade entre os indivíduos. Esse é um ponto importante e é intuitivo, mas não custa reforçá-lo para que possamos generalizar o raciocínio. Cada indivíduo da nossa espécie é único, e podemos ver diferenças em várias características mesmo entre irmãos e irmãs de uma mesma família. Por outro lado, todos nós conhecemos algumas pessoas que, ao olhar, já se parecem entre si e sabemos intuitivamente que eles e elas são da mesma família, irmãos ou primos. Todos têm “um mesmo jeitão”, se parecem na forma do rosto ou no olhar, no jeito de andar ou de falar. Isso porque a similaridade morfológica e anatômica, pelo menos em parte, está correlacionada com a distância genética entre os indivíduos, que por sua vez é algo que conhecemos em termos de estrutura familiar, irmãos, primos-primeiro, primos em 2º., 3º. grau etc. Isso está em nosso dia a dia, e podemos agora pensar em como esse balanço entre variação individual e semelhança familiar pode ser usado em um cenário maior de origem e expansão da espécie humana.


Vamos voltar a algum lugar da África (que, diga-se de passagem, é um continente enorme, heterogêneo ambientalmente, e não um “lugar”...) e pensar no surgimento da espécie H. sapiens a partir de uma outra espécie ancestral. Essa origem se deu gradualmente a partir do momento em que uma população na África passou a ter uma série de características que constituem o que os paleoantropólogos chamam de “humano anatomicamente moderno”. Vamos assumir que temos agora uma população dessa nova espécie e que ela passa a estar isolada reprodutivamente do ancestral (isso é uma simplificação, mas vamos em frente...). Essa população vai começar a crescer e se estabelecer, e ao mesmo tempo alguns desses indivíduos da nova espécie, com suas características únicas, colonizam novos lugares em torno da população original e estabelecem novas populações. Essas são populações pequenas, com poucos homens e mulheres, de modo que há menos oportunidades de acasalamento. Consequentemente, começa a haver mais endogamia (acasalamento entre indivíduos aparentados) e essas populações passam a ser mais homogêneas geneticamente. Simultaneamente, se por acaso alguns dos indivíduos que foram para o norte tinham algumas características que eram um pouco diferentes daquelas encontradas em indivíduos que foram explorar territórios mais para o sul, digamos, gradualmente essas diferenças vão se acentuar nessas populações pequenas e com menor oportunidade de acasalamento. Vai ocorrer o que chamamos de deriva genética, ou seja, algumas variações genéticas vão se estabelecer nas populações (pequenas) simplesmente por acaso.


Vamos agora imaginar que o processo descrito acima vai se repetindo por várias e várias gerações e que cada uma dessas populações vai gradualmente crescer e aumentar (embora algumas possam desaparecer, se houver por acaso – por enquanto – uma redução de fertilidade ou se vários indivíduos por acidente morrerem) e se expandir em sucessivas ondas de expansão em todas as direções. Esse é um processo de expansão da distribuição geográfica da espécie. Ao longo do tempo, quanto maior a distância geográfica entre as novas populações que vão se formando em todo o mundo, mais diferenças irão se acumular por acaso. Como a possibilidade e a distância de dispersão a cada geração são baixas, mesmo que haja algumas idas e vindas e que esses eventos possam homogeneizar em parte essas diferenças oriundas de deriva genética, isso vai ocorrer bem mais frequentemente entre as populações geograficamente mais próximas. No final, aparece sob esse processo o que chamamos tecnicamente de “Isolamento-por-Distância”, no qual observamos um decaimento exponencial entre a similaridade genética e a distância geográfica. Entretanto, como esse processo não ocorreu de forma uniforme (no tempo) ao longo de toda a distribuição geográfica da espécie, já que se inicial em um local específico na África, vemos também que quanto maior a distância a esse ponto de origem, maior será também essa diferença genética. Temos então como consequência esses dois “gradientes” (ou seja, uma variação gradual e contínua) aparecendo simultaneamente quanto comparamos populações humanas ao longo do planeta: 1) Quanto mais distantes da origem na África, mais diferentes geneticamente estas populações vão ser da população no local de origem, ou das populações que continuaram ali mais próximas; 2) populações próximas no espaço geográfico serão mais similares entre si, independentemente de onde estejam.


Extraído de Handley et al. 2007, Trends in Genetics.



Todo esse processo é o que podemos chamar de diferenciação ou evolução NEUTRA, no sentido de que não há vantagem adaptativa (ou seja, não afeta sobrevivência e/ou fecundidade) de ter uma ou outra característica genética. Existe variação genética e diversidade entre os indivíduos de uma população e entre populações que é consequência apenas do processo de reprodução e acúmulo de mutações ao acaso, que se estrutura em gradientes em função do efeito do isolamento geográfico gradual e do acasalamento preferencial entre pessoas que já eram mais semelhantes em uma mesma população local. Quando analisamos usando marcadores moleculares e sequência de DNA a variação genética entre indivíduos das várias populações humanas, vemos esses dois padrões, sugerindo que realmente uma boa parte dessa variação é consequência dessa dinâmica neutra.


Mas claro que há outras questões que temos que adicionar ao cenário de evolução neutra, sendo o mais importante deles a variação ambiental. À medida que ocorreu a expansão geográfica, cada uma das populações foi se estabelecendo em ambientes diferentes. Uma nova população, por exemplo, pode ter chegado, depois de uma andança mais longa explorando novas possibilidades para fundar uma nova vila, em um local onde os invernos são bem mais rigorosos. Na nova região existiriam novas espécies de grande porte que esses homens e mulheres nunca tinham visto, e eles iriam ter que descobrir quais plantas poderiam ser consumidas e quais seriam venenosas (e que teriam diferentes compostos químicos que poderiam afetar de forma diferente seu metabolismo e sua microbiota). Nesse ambiente poderiam existir novos patógenos como bactérias, vírus e fungos, além de parasitas nos animais que poderiam ser transmitidos aos humanos quando do seu consumo. Essas são apenas algumas possibilidades e, além disso, essas condições também vão mudando com o tempo. Mas o ponto importante aqui é que essas novas características do ambiente poderiam afetar a viabilidade das novas populações e causar maior mortalidade, por exemplo. É possível que essas condições fossem insuperáveis e, nesse caso, os indivíduos simplesmente não conseguiriam se estabelecer ali, ou então a população desapareceria em poucas gerações porque a mortalidade seria mais alta do que os nascimentos. Entretanto, de modo geral as diferenças no ambiente são mais sutis e seus efeitos mais lentos, de modo que quase sempre houve a possibilidade de ADAPTAÇÃO. Isso ocorre se alguns dos indivíduos forem capazes de tolerar melhor essas novas condições e se, ao se reproduzirem (eventualmente com mais frequência, e teriam assim mais filhos), passarem essa tolerância aos filhos e filhas. Com isso, gradualmente a população como um todo ficará mais bem adaptada àquele novo ambiente. Esse é basicamente o processo de SELEÇÃO NATURAL descrito por Charles Darwin e Russel Wallace em 1858 (e que se tornou famoso depois da publicação da “Origem das Espécies” por Darwin no ano seguinte).


Teríamos muita coisa para discutir então nesse outro cenário de evolução ADAPTATIVA e que se soma, portanto, ao cenário anterior mais simples de evolução neutra. É importante entender que esses dois cenários não são excludentes, muito pelo contrário, eles ocorrem simultaneamente. Temos a expansão e o acúmulo da variação neutra como descrito acima, criando os dois gradientes acoplados no espaço geográfico, mas ao mesmo tempo parte da variação que essas populações encontram a cada momento pode ser adaptativa e “fortalecer”, digamos assim, algum tipo de variação naquele lugar. Com isso, aparece agora não só um padrão geográfico, mas um padrão de correlação entre a variação de certas características com o tipo de ambiente no qual as populações são encontradas.


Há vários aspectos particularmente interessantes em termos de evolução adaptativa. Voltando ao exemplo hipotético, vamos imaginar que a nova população encontre novos animais de grande porte, espécies que não conheciam e que exijam, por exemplo, uma diferente técnica de caça, em termos de novas abordagens para se aproximar furtivamente da presa (essas novas presas poderiam ter uma visão pior, mas um olfato melhor, por exemplo, frustrando a estratégia dos caçadores), ou novas ferramentas mais poderosas ou que pudessem ser disparadas de uma maior distância. Ou as presas ali poderiam ser mais sazonais, forçando a população a entender melhor essa dinâmica e a adotar alternativas alimentares quando a presa não estava ali. Ou então seria preciso desenvolver novas técnicas para conservar a carne por mais tempo. Isso poderia desencadear um processo de adaptação e evolução cultural, análogo ao processo de seleção natural Darwiniana, mesmo que não haja componentes genéticos envolvidos (mas notem que há transmissão da informação entre as gerações e os padrões são estabelecidos, porque as pessoas vão ensinar tudo isso aos filhos e filhas). Podemos imaginar outros exemplos de como características culturais e comportamentais, sociais e sexuais poderiam de alguma forma responder a variações no ambiente. É possível, além disso, fazer uma mesma analogia com o cenário anterior e pensar que essas características que observamos poderiam se estabelecer de forma neutra, simplesmente por acaso e se fixar nas diferentes populações. A variação entre as línguas pode ser um bom exemplo disso, embora haja algumas possibilidades de pensar em termos adaptativos (e essa é uma área extremamente ativa de pesquisa). Vejam também que a partir do momento que certos comportamentos e estruturas sociais se estabelecem, em termos por exemplo de crenças religiosas ou valores sociais, isso pode reforçar comportamentos de coesão de grupo e diminuir a chance de que “forasteiros” sejam aceitos naquela sociedade, o que reforça a estrutura genética populacional (e isso vai ocorrer, novamente, de forma independente de qualquer base genética para a origem dessas crenças).


Outra coisa importante para pensarmos em relação à variação adaptativa é que, se as condições ambientais que duas populações diferente encontram são semelhantes, a adaptação poderia ocorrer de uma forma semelhante (aumentando a frequência de um mesmo grupo de genes, por exemplo) ou de forma diferente, como se houvesse diferentes “soluções” para um mesmo problema. O que vai ocorrer em termos de novas adaptações depende do “problema” em si e de outros fatores associados e que sejam diferentes em cada uma das populações. Não é uma regra, mas em geral, a evolução de características morfológicas ou fisiológicas, por causa das várias correlações e restrições de desenvolvimento, pode ser mais similar (ou seja, pressões seletivas exercidas por um mesmo tipo de ambiente levam à uma mesma solução adaptativa, gerando uma convergência nas características). Por outro lado, é fácil imaginar que em sistemas mais complexos e com menos restrições - e aí podemos incluir os sistemas culturais ou sociais - seria possível responder de formas alternativas às mesmas pressões seletivas, levando por exemplo à evolução de diferentes estratégias de caça para um mesmo tipo de presa em diferentes culturas.


Um exemplo muito importante de variação adaptativa em grande escala refere-se justamente à variação de uma das características mais importantes em termos de discussão racial, que é a cor da pele. Há muito tempo se percebe uma certa relação entre a cor da pele e fatores ambientais, especialmente temperatura, já que observamos um gradiente de coloração da pele, indo de peles mais escuras (com mais melanina) nas regiões mais quentes e tropicais, para peles mais claras nas regiões temperadas. Entretanto, apenas a partir dos anos 2000, com a possibilidade de obter dados ambientais em macroescala e com novas abordagens analíticas, passou a ser possível testar de forma mais coerente algumas ideias. Essas novas análises mostraram um quadro mais complexo (e mais interessante) do que se achava antes e que normalmente está descrito nas chamadas “regras ecogeográficas” nos livros texto de Ecologia e de Biogeografia, tanto para a espécie humana quanto para outras espécies, e que foram exploradas por uma série de trabalhos pioneiros de Nina Jablonski e sua equipe (ver Ted Talk ao final da postagem, e seu livro de 2006, "Skin: a natural history").


No caso da variação da cor da pele nas populações humanas, temos que considerar inicialmente que os novos parentes mais próximos na África, os gorilas e os chimpanzés, têm a pele clara (com pouca melanina), mas eles são cobertos de uma pelagem espessa. Entretanto, logo no início da evolução dos hominíneos essa cobertura se perdeu, provavelmente por um processo complexo ligado à termorregulação e perda de água durante a colonização de ambientes abertos e sazonais (e essa é outra estória longa...). O fato é que, muito antes do surgimento de H. sapiens, a exposição ao sol nas savanas levou à uma maior acumulação de melanina para proteção contra uma exposição da pele à radiação UV ainda nas primeiras espécies do gênero Homo. O problema dessa exposição é principalmente ligado à uma maior degradação do ácido fólico, que termina levando à uma forte redução na fertilidade das mulheres. Vejam, portanto, que esse maior acúmulo de melanina levando à uma pele escura é fortemente, explicitamente, adaptativo, nessas regiões. Entretanto, quando as populações humanas (mesmo as populações anteriores à H. sapiens) começaram a ocupar regiões mais temperadas e com menor incidência de UV, se esperava que essa maior produção de melanina passasse a ser desnecessária, e se “reverteria” à condição primata ancestral de pele mais clara. Entretanto, não é bem isso que acontece, inclusive porque o custo de produção não é tão alto assim, em termos energéticos. O que passa a acontecer é que há outra pressão de seleção que atua à medida que se reduz a intensidade de UV, que é a carência de vitamina D. Além da redução de UV, com a redução de temperatura é preciso usar roupas grossas a maior parte do ano, o que diminui ainda mais a possibilidade de sintetizar o pouco de vitamina D que seria preciso. Haveria, também, efeitos de seleção ligados à uma maior incidência de melanomas nessa região, conforme alguns trabalhos mais recentes do grupo de Saioa Lopéz e colaboradores. Temos, assim, pelo menos dois fatores seletivos distintos atuando e que criam então um gradiente temperado-tropical na cor da pele (e vejam que, diferente do que se pensava, a cor da pele não tem relação direta com temperatura e termorregulação, que se aplica, em princípio, a outros mamíferos e aves; provavelmente em muitos casos isso é só uma correlação indireta por múltiplos fatores, também...). Outro ponto interessante é que se, de alguma forma, a carência de vitamina D é suprida de outras formas (dieta, por exemplo), então o gradiente de seleção na região temperada deixa de atuar de forma mais intensa, de modo que populações de pele mais escura poderiam continuar a persistir em regiões frias.



Variação contínua na cor da pele das populações humanas, segundo os trabalhos de Nina Jablonski e outros (creditos: UPV/EHU e Scientific Blogging Science 2.0)



Existem, claro, muitos outros gradientes de seleção, e um deles que também é interessante refere-se à tolerância à lactose, que está relacionada à expansão e desenvolvimento da pecuária. Outro exemplo nos livros didáticos é o padrão de variação no gene S que altera a forma da hemácia ligado à coexistência com a malária, que cria gradientes direcionais antagônicos que dão vantagem aos indivíduos heterozigotos (que apresentam anemia falciforme), pois estes tendem a morrer menos de malária. Há muitos outros exemplos.


Em resumo, os cenários de evolução neutra e adaptativa nos ajudam a entender a variação em diferentes características das populações de Homo sapiens, por processos ecológicos e evolutivos que conhecemos teoricamente e que têm sido corroborados tanto no caso da nossa espécie quanto para entender padrões de biodiversidade como um todo. Claro, é mais fácil pensar todos esses efeitos atuando sobre populações tradicionais e sem vivendo em estado “natural”, e a maior parte dos estudos de ecologia e evolução humana nesse sentido são feitas a partir de sociedade de caçadores-coletores. Mas, de fato, os fatores descritos brevemente acima continuam a atuar hoje, só que com mais variação. Por um lado, as distâncias de dispersão e migração hoje são muito maiores, esses eventos são muito mais rápidos e com menos influência de rotas associadas a recursos e clima. Isso faz com que o potencial de homogeneizar a variação genética é muito maior. Ao mesmo tempo, a tecnologia tende a fazer com que certas pressões seletivas, ligadas à resposta à variação do clima ou defesa contra patógenos, sejam menores (mas elas continuam a existir). Na sociedade atual, de modo geral, existe mais liberdade individual e (de forma otimista) uma menor restrição por tradições culturais e sociais, de modo que a variação tende a ser também mais independente desses padrões. Consequentemente, com tudo isso, é muito mais difícil analisar dados de populações humanas “modernas” e encontrar muitos dos padrões descritos acima.


Então, existe variação entre populações humanas e ela está estruturada no espaço. Mas a questão importante é, agora, entender qual a relação de tudo isso com o racismo!




Diversidade Humana e Racismo


Boa parte da pesquisa antropológica a partir do século XIX consistia em estabelecer classificações para a espécie humana e reconhecer “tipos”. Depois de reconhecer esses tipos, definindo assim raças e sub-raças, etc, muito rapidamente se atribuía a eles uma conotação de mais ou menos “avançados”, e posteriormente de mais ou menos “evoluído”. Claro, o grupo racial mais “avançado” ou “evoluído” seria a raça branca e mais especificamente as populações européias, como discutimos na postagem publicada no último “Darwin Day”. Essas classificações e os valores associados a elas foram usados para, de certo modo, justificar o colonialismo (e mesmo Darwin defendeu essa posição, como vimos, como forma de “ajudar os selvagens...”) e a escravidão. Ao mesmo tempo, como vimos no contexto da eugenia, mesmo que não houvesse uma base de classificação explícita, muito da discussão sobre política de imigração no início do século XX e a política de superioridade racial da Alemanha nazista partem do princípio de que existem grupos raciais. Foram elaboradas várias classificações hierárquicas com grupos e subgrupos, mas em um nível mais amplo sempre se fala em 3 grandes grupos, as raças “negra” (África), “branca” (Europa) e “amarela” (Asia e América).


Vamos imaginar, apenas para fins de raciocínio, que esses 3 grupos principais são originários de populações que ocuparam originalmente cada um dos respectivos continentes e evoluíram de forma isolada há, digamos, 2 milhões de anos. Ou seja, teríamos na África uma espécie humana que dispersou para esses 3 continentes e a partir daí as populações em cada um deles se expandiram e cresceram, mas com pouco ou nenhum contato entre si, dando origem aos 3 grandes grupos. Se analisássemos, hoje, os padrões de variação genética comparando populações nesses continentes teríamos que a diferença entre os grupos seriam muito grandes (por exemplo, muito maior do que observamos hoje entre representantes desses possíveis “grupos”). Mais importante, sob esse cenário todas as populações em cada continente (correspondendo às 3 raças) seriam originários de uma população ancestral comum em cada um deles. Na verdade, esse cenário foi popular durante algum tempo e foi chamado de modelo “Multi-Regional”, muito discutido na década de 1940-1950, no qual as “raças” humanas modernas seriam originadas da primeira saída da África por Homo erectus há quase 2 milhões de anos pelo menos. Ou seja, nesse modelo H. sapiens não seria, de fato, um grupo único, com um ancestral comum e coerente no sentido evolutivo (usamos o termo “monofilético”). Uma versão mais “conciliatória” desse modelo tem sido considerada mais recentemente, principalmente por causa das descobertas recentes do acasalamento entre H. sapiens e as populações ancestrais que ele encontra ao se expandir para fora da África. Mas de fato esse componente de hibridização entre as espécies ancestrais é sempre pequeno e não justifica a ideia de que as variações atuais dentro de H. sapiens estão realmente ligadas à primeira saída de H. erectus da África. Esse modelo multi-regional só foi realmente abandonado – em grande parte - depois das análises com dados genético-moleculares realizadas a partir dos anos de 1970-1980 e principalmente com a confirmação das predições do modelo de “saída da Africa” a partir de dados de DNA mitocondrial, publicado em 1987 por Rebbeca Cann e colaboradores (com a definição poética da chamada “Eva Negra Africana”), e de muitos outros trabalhos subsequentes (mas vejam o trabalho famoso do importante geneticista e biólogo evolutivo Allan Templeton, na Nature de 2002, com uma posição diferente).


De qualquer modo, algumas pessoas pensaram que uma vez que existissem esses grupos biológicos (ou seja, se a evolução de H. sapiens tivesse seguido realmente um modelo multi-regional), seria preciso demonstrar em seguida que esses grupos possuem “níveis” diferentes e que os Europeus seriam mais “avançados”. Na verdade, o próprio fato da civilização européia estar à frente dessa discussão e ter se expandido pelo resto do mundo sugere isso, para essas pessoas! De fato, toda a pseudociência do racismo científico seguiu essa lógica durante muitos anos (os testes de QI são um bom exemplo). Claro, nunca se demonstrou efetivamente essas diferenças e hierarquias em termos comportamentais, sociais e culturais, e os muitos testes e análise realizados sempre foram enviesados, no sentido de refletirem valores que são atribuídos por quem procura essas diferenças. Muitos se preocupam com o fato de que diferenças sejam herdadas ou ambientais, mas isso também não é relevante, pois mais uma vez trata-se de atribuir valores (a questão se algumas características, principalmente comportamentais, serem ou não herdadas é importante, mas é uma outra discussão que também tem gerado muita confusão...).


Curiosamente, apenas para fins de raciocínio, é curioso notar que uma das grandes preocupações da eugenia no início do século XX era justamente que haveria uma “deterioração” da civilização europeia porque as “raças inferiores” (para eles na época os negros, judeus, pessoas do leste europeu, do oriente médio etc – ou seja, aqueles que não eram os europeus “civilizados”) procriavam mais e iriam, assim, terminar dominando a sociedade, que entraria então em colapso. Boa parte da discussão no importante livro de Sir Ronald Fisher de 1930 (The Genetical Theory of Natural Selection), um dos marcos do início da teoria evolutiva moderna, era justamente essa. Entretanto, vejam que a ideia seria que essas populações “inferiores” possuem uma taxa de crescimento populacional mais alta, ou seja, têm mais filhos e filhas, e essa é justamente uma medida de aptidão Darwiniana! Ou seja, essas populações das raças “inferiores” estariam mais “adaptadas” do que as raças européias, de modo que biologicamente (e ironicamente) elas é que deveriam ser consideradas as raças superiores. Fisher e os demais eugenistas sabiam (ou queriam acreditar) que esse efeito não era necessariamente “intrínseco”, determinado geneticamente, dependendo em grande parte das condições sociais e culturais, mas ainda assim eles estavam preocupados com isso. De fato, a busca deles seriam por mostrar que as diferentes raças corresponderiam a “picos adaptativos” com alturas diferentes e que os europeus seriam o grupo evolutivamente dominante, mas de fato os dados empíricos mais básicos sugeriam o contrário (essa é uma discussão mais técnica, mas refere-se ao máximo de aptidão em cada grupo sob condições ideais; e nunca se mostrou isso efetivamente, por várias razões). Claro, nada disso faz sentido hoje em dia, mas mostra que mesmo sob um conceito absolutamente claro e simples de aptidão Darwiniana que já era conhecido na época o raciocínio dos eugenistas era confuso e tortuoso, na melhor das hipóteses.


Entretanto, como vimos na seção anterior, desenvolvi o raciocínio nos parágrafos anteriores apenas para fins didáticos, já que esse modelo multi-regional não se aplica e o cenário de origem do H. sapiens é muito diferente. Em resumo, não existem “grupos evolutivos” humanos, e sim uma continuidade ao longo do espaço geográfico ou de gradientes ambientais que refletem evolução neutra e múltiplas pressões seletivas, muitas vezes antagônicas. Podemos até querer estabelecer grupos, mas eles não vão ser coerentes, pois se as populações formam um continuum, divisões são por definição totalmente arbitrárias (veja abaixo). Além disso, os gradientes são diferentes (e incongruentes) para várias características morfológicas, fisiológicas ou bioquímicas, embora claro que apareçam algumas correlações entre elas (e isso complica mais ainda a análise, porque às vezes podemos achar que uma característica está respondendo a um fator ambiental, mas o efeito é apenas indireto e sobre outra característica que não tínhamos percebido, mas as duas características estão ligadas geneticamente; ou seja, como já discutimos, não é tão simples estabelecer relações causais e/ou mecanísticas a partir de dados observacionais e com forte componente histórico).


Um outro ponto que às vezes se discute é que a variação genética entre as “raças” seria, de qualquer modo, muito pequena e que a maior parte da variação é entre os indivíduos independente de sua origem ou “raça” (pensando na visão equivocada dos grupos e tipos, como definido acima). Esse é um raciocínio confuso por pelo menos duas razões principais, na minha opinião. Primeiro, porque o argumento, ainda que desenvolvido de forma a rejeitar a questão racial, assume que existem esses grupos ou raças para poder fazer a afirmação sobre a proporção de variação pequena entre elas. Segundo, esse raciocínio gera uma falsa impressão de que não existe diversidade na espécie humana, o que pode ser também perigoso porque não é coerente com o que observamos principalmente em termos fenotípicos e pode soar como um falso argumento para evitar ideologicamente o racismo. O problema é que na verdade temos muitas questões metodológica subjacente à essa discussão, vamos tentar explicar melhor porque é algo importante.


Esse argumento de variação “entre raças” é baseado em métricas (ou mais corretamente, estimadores) que avaliam essa proporção e que são derivados do que chamamos de estatística-F, originalmente elaboradas por Sewall Wright, um dos fundadores da teoria sintética da evolução, ainda nos anos de 1940. A estatística básica é conhecida como Fst (o subescrito “st” refere-se a “subpopulations in respect to total variation”), que mede o quanto existe de variação entre grupos de indivíduos e a variação total, que seria por sua vez a variação entre populações – na realidade entre as médias das populações - somada à variação dentro das populações, ou seja, entre os indivíduos que vivem nessas populações. Essas estatísticas procuram, portanto, desdobrar a variação de forma hierárquica e calcular métricas ou estatísticas que descrevem proporções de variação e testem, estatisticamente, se os grupos definidos “a priori” (no nosso exemplo, “raças”) existem ou se a variação está distribuída ao acaso entre esses grupos – ou seja, não existem grupos (aqueles que já estudaram um pouco de estatística vão lembrar da Análise de Variância, ou ANOVA).

A ideia é que se amostrássemos indivíduos das diferentes raças ao acaso em toda a sua distribuição geográfica (por exemplo, indivíduos ao longo de toda a África que representem a “raça negra”, e indivíduos em diferentes locais da Europa e da Ásia representando as demais “raças” branca e amarela) e fizéssemos um desdobramento da variância para algumas características, de fato a proporção de variação entre os grupos seria pequena para boa parte das características, digamos entre 2% ou 3%. Aí usa-se o argumento de que as raças, portanto, não existem ou não têm significado. De fato, está tecnicamente correto, mas há algumas questões que precisamos manter em mente. De fato, a maior parte da variabilidade genética é comum a todos os humanos, já que somos uma única espécie e a maior parte dos genes, de fato, vai estruturar aspectos funcionais e carregam uma história comum não só a H. sapiens mas também a seus ancestrais. Mas esse valor muito baixo de Fst depende, de fato, da definição de grupos e como eles foram definidos, isso sem falar na origem das amostras e do tipo de dado molecular que está sendo analisado. Esse valor baixo, por exemplo, pode ser função de “quebrar” o continuum em 3 grupos, e não porque não existe variação entre os continentes. Isso ocorre porque estamos misturando, em um mesmo “grupo” (raça), populações que são diferentes entre si e que têm uma história de diferenciação, como falamos anteriormente. Essa análise seria equivalente a pensar em “populações” em um sentido amplo, como falamos anteriormente em termos de “população brasileira”, o que não tem de fato muito realismo biológico.


Se, ao contrário, comparamos para algumas características uma única tribo ou vila vivendo em um lugar específico na Escandinávia, na África Central ou em uma ilha na Indonésia esses valores de Fst seriam mais altos, porque aí a variação relativa dentro dessas vilas (ou seja, a diferença entre os indivíduos em cada uma) seria menor quando comparada à variação entre as vilas em um mesmo continente, percebem? O grupo assim definido faria mais sentido biologicamente porque é nele que ocorrem os processos genéticos e demográficos que levam à variação. Mas o valor do Fst muda porque agora estaríamos comparando extremos no continuum e a nossa referência de grupo mudou, de “raças” (que de fato não existem, como já vimos) para populações locais, diminuindo assim a variação “dentro” dos grupos estabelecidos “a priori” para a análise. Mesmo assim, alguns estudos tradicionalmente mostravam valores baixos de Fst, por exemplo entre 5% e 12%, para a diferenciação genética populacional a partir de marcadores pontuais (SNP) em diferentes continentes, reforçando a unicidade de H. sapiens (mas ver a seguir). Finalmente, a proporção de variação será mais alta se a característica estudada estiver evoluindo sob efeito de seleção, como seria o caso de muito da variação fenotípica que observamos, incluindo a cor da pele que discutimos acima, e talvez em algumas características morfológicas, como tamanho do corpo e em algumas características de forma do crânio, além de algumas características fisiológicas.


Então, avaliar a variabilidade humana (ou de qualquer espécie, claro) utilizando essas estatísticas depende, de fato, da nossa definição de “grupo” e dos processos evolutivos subjacentes à variação na característica que estamos estudando, além do tipo de marcador molecular utilizado. Portanto, a sua interpretação nesse contexto de racismo pode ser perigosa, porque algum racista pode rapidamente encontrar valores mais altos da estatística F e sustentar que sim, que as “raças” humanas são muito diferentes entre si, simplesmente mudando a definição de grupo. Na realidade, tornando real esse aspecto, estudos recentes utilizando o genoma total de quase 1000 indivíduos em todo o mundo, sequenciados no contexto do programa Human Genome Diversity Project (HGDP)-CEPH encontram muito mais variação do que se suspeitava anteriormente, com valores de Fst bem mais elevados chegando até 20% ou 30%, e associados (como esperado) ao nível de ancestralidade entre as populações (vejam o artigo de Anders Bergstrom e colaboradores na Science de 2020). Entretanto, os padrões geográficos gerais são similares aos descritos anteriormente. Então, esses novos estudos seriam suficientes agora para “justificar” separações raciais? Claro que não, porque na verdade continuamos não temos grupos, o que está se mostrando é que as populações são diferentes! Ao pensar em grupos perde-se, propositalmente ou não, a ideia dos gradientes e do “continuum” e isso muda totalmente a percepção dos padrões.


Embora não existam “grupos” humanos evolutivamente consistentes, como discutimos, podemos arbitrariamente usar a geografia para definir grupos ou escalas regionais de análise e aí avaliar como a variação muda com o efeito da distância entre populações ou do tamanho da região, e muitos estudos usam essa abordagem (às vezes calculando o Fst de forma hierárquica, para diversos níveis). Embora os grupos de populações assim definidos sejam arbitrários também, essa é uma maneira simples de justamente mostrar o gradiente e o efeito espacial que discutimos na seção anterior. Mas eu nunca achei que essas estratégias de definir grupos hierarquicamente (ainda que arbitrários) sejam uma boa maneira de estudar populações biológicas, e o mais óbvio é simplesmente mapear a variação ou utilizar técnicas específicas de análise espacial para isso, conforme os trabalhos pioneiros do geneticista italiano Luigi Cavalli-Sforza e seu grupo ainda nos anos de 1970-1980 (vejam uma síntese em seu livro “History and Geography of Human Genes”).


Mas voltando à discussão de Cramon-Taubadel que mencionei no início da postagem, o ponto que ela levanta é justamente que, até meados do século XX, a antropologia estava focada na ideia de grupos, mas com o avanço da teoria sintética que incorpora um pensamento mais populacional e menos tipológico (ou seja, focado na definição de tipos e grupos), para toda a diversidade biológica, houve uma mudança de pensamento e nos métodos de investigação na direção que discutimos na primeira seção e que foram sendo absorvidos na antropologia. Gradualmente o avanço das técnicas de análise molecular também permitiu corroborar as ideias discutidas acima, na primeira seção, e mostrar toda a continuidade entre as populações humanas e a origem única da nossa espécie. Um pouco mais recentemente, passou-se a reconhecer que gradientes em grande escala podem ser gerados por dinâmica neutra, como discutimos acima, e que de fato a maior parte da variação seria explicada pelo processo de expansão das populações humanas a partir da África, embora possamos identificar efeitos adaptativos em muitos caracteres e que aumentaram a aptidão de diferentes populações vivendo em diferentes locais do mundo.


Claro que o fato de mostrarmos que a variação é contínua e que não faz muito estabelecer grupos evolutivos coerentes de populações não afasta, por definição, o racismo. Continua sendo possível distorcer as interpretações dos padrões e processos de evolução e dizer, por exemplo, que já que as populações africanas são as populações ancestrais, então isso significa que os asiáticos e especialmente os europeus, mais recentes, seriam mais “evoluídos” e, portanto, superiores. Não tem jeito, voltamos à discussão sobre a questão da visão progressista da evolução que discutimos na última postagem...Claro, seria curioso por outro lado contra-argumentarmos com esse racista que, tudo bem, europeus e asiáticos (e americanos) contém muitas mutações derivadas, segundo as análises genômicas recentes, mas por outro lado contém também introgressões de Neanderthal e dos Denisovanos. Por outro lado, algumas populações humanas ainda possuem genes que podem ser oriundos das populações ancestrais e anteriores a H. sapiens. Tudo isso é bobagem, claro, mas seria divertido pelo menos ver a expressão de um supremacista branca ao saber que ele ou ela tem mais genes dos “brutos” e “trogloditas” Neanderthais do que um africano (isso sem falar no fato de que os chimpanzés têm a pele branca!).




Concluindo, finalmente...


Espero que toda essa discussão nos ajude a entender de onde vem, historicamente, a associação entre variação biológica e racismo. Mas claro que ela não se justifica mais de qualquer modo, pelo que sabemos hoje da dinâmica evolutiva na nossa espécie...Vejam que mesmo que existissem grupos, como se pensava no início do século XX, seria ainda preciso demonstrar que esses grupos possuem “níveis” diferentes e que os Europeus seriam mais “avançados”, o que nunca aconteceu (ou se demonstrou por experimentos e analises enviesadas). Repetindo, a evolução de H. sapiens não seguiu um modelo multi-regional, e embora exista muita variabilidade em vários aspectos nas populações humanas segundo as últimas análises genômicas (ao contrário do que às vezes tenta se falar com base em estatísticas de desdobramento de variação, por exemplo), o ponto central é que essa variabilidade está distribuída de forma contínua no espaço, tempo e ambiente e não formando “grupos” (de pessoas) que por qualquer razão possam ser considerados “inferiores” em nenhum sentido!


Mas vejam que tudo pode ser distorcido, e precisamos estar sempre vigilantes. Me ocorreu agora que se pensamos cientificamente na variação populacional humana, como fizemos acima (não gosto desse termo, mas vocês entendem...), e dizemos que não temos “grupos”, então na realidade não faria sentido, biologicamente falando, pensar em “movimento negro”, por exemplo. Ou seja, já que não existem “negros” ou não existe uma “raça negra”, por que incentivar essas discussões e por que assumir certas posturas políticas e ideológicas em relação a isso? Ouvimos muito esse tipo de raciocínio quando discutimos, por exemplo, cotas PPI (Pretos, Pardos e Indígenas) para ingresso na Universidade. É comum os biólogos dizerem (corretamente, em princípio) que esses grupos são arbitrários e que isso não faz sentido, que principalmente no Brasil essa diferenciação racial é muito tênue e que até por isso é difícil operacionalizar a implementação desse tipo de política. Confesso que eu mesmo pensei assim durante muito tempo, imerso na típica ingenuidade política e sociológica dos “nerds” das ciências naturais!


Opa, problemas no horizonte...Em princípio isso pode fazer algum sentido, mas ao mesmo tempo esse raciocínio pode ser usado para ENFRAQUECER esses movimentos sociais o que, paradoxalmente, pode reforçar o racismo e não ajudar a combatê-lo!!! A saída para esse paradoxo aparente é justamente que, no final, nada disso é biológico mesmo! Esse conceito de raça e sua definição EXISTE, e por isso é que temos problemas, mas ele é uma construção social e não reflete mesmo algo biológico, embora em algum momento do passado – e mesmo hoje - elementos científicos tenham sido distorcidos para dar suporte a ele, na forma de pseudociência.


Vejam que esse tipo de raciocínio sobre os movimentos sociais em torno da questão étnico-racial também faz sentido em termos do que discutimos rapidamente sobre evolução cultural. A partir do momento em que um grupo heterogêneo de populações e indivíduos passa a ser classificado como uma “raça” por um grupo dominante e passa a ser explorado, como por exemplo no caso da escravidão Africana promovida pelos europeus a partir do século XVI, esse grupo passa a ser, para fins práticos, “real”. Isso porque se cria uma identidade entre essas pessoas, mesmo que isso não tenha uma base genética ou evolutiva coerente em princípio (embora muito provavelmente uma estruturação a posteriori possa ter ocorrido, pois acho que escravos de diferentes etnias africanas originais passaram a conviver na América, e claro que além disso temos contatos destes com os europeus, certamente com muitos problemas sociais envolvendo sofrimento e abuso sexual, também...). Ou seja, passamos a ter uma grande construção social e cultural em torno dos valores comuns a esses povos e etnias, que pode inclusive em alguns casos direcionar a evolução futura da diversidade genética entre esse conjunto de pessoas na nova região ocupada (América).


Então, finalizando, vemos que qualquer ideia de agrupar pessoas tende a ser arbitrária porque a nossa dinâmica evolutiva foi totalmente diferente. Mas, como disse anteriormente, não devemos negar que existe diversidade, na realidade ela é o que temos de mais precioso na natureza!!! Mais uma vez, como insisti na postagem anterior sobre Ronald Fisher e a eugenia, temos que mudar a concepção de evolução direcional e progressista e abraçar o conceito de diversidade, inclusive (e principalmente) na espécie humana. Por outro lado, como biólogos, ao fazer isso nós não podemos ser ingênuos e simplesmente ignorar a discussão étnico-racial por entendermos que ela não tem base biológica. Ela existe, ponto final. O que podemos fazer é, com cuidado, desacreditar argumentos pseudocientíficos que busquem justificar o racismo com base biológica.





Créditos: Infrastructure Intelligence

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