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  • Foto do escritorJosé Alexandre F. Diniz F

Por que precisamos de mulheres na Ciência?

 

Comemoramos há alguns dias atrás o “Dia de Mulheres e Meninas na Ciência” e hoje, 8 de março, o “Dia Internacional da Mulher”. Esses dias comemorativos fazem parte de um movimento global que visa diminuir a discriminação contra a mulher e promover a igualdade de gênero. Em um contexto da atividade científica, o movimento tem recebido muita atenção nos últimos tempos, a partir da constatação da menor inserção de mulheres na ciência e do reconhecimento de uma série de casos históricos emblemáticos de preconceito, discriminação e falta de reconhecimento. Só como um exemplo importante na área de genética, temos o caso de Rosalind Franklin, que contribuiu de forma decisiva para que Watson e Crick elucidassem a estrutura do DNA, conferindo a eles (e a Maurice Wilkins, que trabalhava com ela) o prêmio Nobel em 1962. Em um exemplo não só de misogenia, mas principalmente de falta grave de conduta científica, os dados gerados por Franklin (a famoso “imagem 51” de difração de raios-X da molécula de DNA) foram utilizados sem seu consentimento – na verdade um eufemismo para “roubo” - e ela não fez parte da publicação de 1958 na Nature, e muito menos foi reconhecida na premiação posterior (inclusive porque tinha falecido 4 anos antes, mas duvida-se que ela receberia o prêmio no lugar mesmo que estivesse viva....). Aliás, aproveitando, não deixem de ler o excelente “A Decodificadora”, a biografia de Jennifer Doudna, professora na Universidade de Berkeley e ganhadora do prêmio Nobel de Quimica em 2020, junto com sua colega Emmanuelle Charpentier, por seus trabalhos com edição gênica - o sistema CRISPR; nele há muitos detalhes do caso Franklin e muitas outras histórias ligadas ao tema dessa postagem, além de discussões super interessantes sobre relação entre academia e empresa, inovação tecnológica etc).


Há, certamente, muitos e muitos outros casos semelhantes, ou mesmo piores, ao longo dos anos, e temos muitos trabalhos descrevendo esses casos históricos e emblemáticos e diversas análises recentes em revistas científicas importantes como o PNAS e documentos oficiais de órgãos internacionais mostrando que a inserção das mulheres em ciência é consideravelmente menor do que a dos homens, de modo geral, e em particular em algumas áreas, com um dos focos da discussão sendo as chamadas STEMs (Science, Technology, Engineering, and Mathematics). Nesse sentido, ainda que haja alguma variação entre as áreas do conhecimento e em diferentes países do mundo, temos em geral o chamado “efeito tesoura”, que mostra que à medida que avançamos no nível acadêmico e na carreira essa proporção de mulheres diminui (e vejam aqui uma excelente matéria na "Piaui" sobre esses padrões, de 2023).

 


Trata-se de um exemplo mais antigo da Nature Biotechnology de 2011, mas é bem ilustrativo do "efeito tesoura"

 


Huang et al. 2020 (PNAS, https://doi.org/10.1073/pnas.1914221117)

 


 

De forma otimista, entendo que esse padrão combina efeitos históricos e atuais, no sentido de que como os movimentos de inclusão e de promoção da igualdade de gênero são relativamente recentes e ligados principalmente aos movimentos sociais mais amplos que se consolidaram a partir dos anos de 1970-1980. Assim, a menor proporção de mulheres na ciência, nos níveis mais altos (no Brasil, podemos pensar na proporção de pesquisadoras 1A do CNPq, ou de membros permanentes da Academia Brasileira de Ciências) refletiria não um preconceito e interesse atual das mulheres na ciência, mas sim aquele que existia, digamos, 40 ou 50 anos atrás. Dependendo do componente histórico e atual, podemos predizer que esse efeito tenderá a diminuir no futuro (vamos ver...).



"Efeito tesoura" nas bolsas PQ do CNPq, do relatorio do "Parent in Science"




Independente da dinâmica subjacente ao “efeito tesoura”, em termos de causas históricas ou atuais, entendo que ele é um PADRÃO que podemos avaliar “objetivamente” nos dados, em princípio sem grandes discussões...Entretanto, ainda assim vemos alguma dificuldade das pessoas para entender o efeito e sua origem, como vimos na recente polêmica envolvendo as declarações do presidente do CNPq em relação às bolsas de produtividade em pesquisa e que discutimos detalhadamente em uma postagem recente. Alguns questionam o padrão “em si”, outros dizem que precisamos entender melhor as suas causas a fim de propor ações para mitigá-lo, em termos de ações afirmativas (enquanto outros, e esse parece ser o caso do presidente do CNPq, não entendem bem a importância e o funcionamento das ações afirmativas, de modo geral...).


Em termos de causas do efeito tesoura, há uma discussão bastante importante e que se generaliza para vários outros casos de discriminação na nossa sociedade, sobre as origens “evolutivas”, digamos assim, da desigualdade de gênero. Ou seja, será que existem diferenças “inatas” (“genéticas”, se preferirem, embora não seja uma expressão muito acurada) entre os sexos? Sabemos que em todos os animais, e em particular nos mamíferos e nos primatas, existem diferenças claras entre o papel ecológico e os padrões comportamentais de machos e fêmeas de uma espécie. Em grande parte, isso é função da diferença no investimento parental, ou seja, as fêmeas fazem um investimento MUITO maior na próxima geração por causa dos custos energéticos envolvidos na gestação e na amamentação por parte delas. Por sua vez, a diferença no investimento parental parece gerar efeitos sobre a estrutura social e na divisão de trabalho, embora à medida que os sistemas sociais de tornam mais complexos e os componentes culturais passam a ter um papel mais importante (e isso se acentua nos hominíneos e Homo sapiens), essas correlações se tornam mais fracas e o que vemos é uma maior variação nas “soluções” sociais possíveis para criar diferentes tipos de sociedade vivendo em diferentes condições ambientais. Existe muita variação entre espécies próximas, e inclusive muita diferença, por exemplo, entre os padrões comportamentais as duas espécies de chimpanzé próximas a nós (Pan troglodytes e o Pan paniscus). Essa é uma narrativa “clássica” dentro da sociobiologia, não vejo muito problema até aí, e entendo que não seria estranho dizer que existem sim diferenças biológicas “inatas” em termos de padrões de interação social e visão de mundo entre homens e mulheres (voltaremos a isso em seguida, vai ser importante no segundo nível de discussão).


Claro, é sempre difícil definir, em particular no caso de comportamento humano, quais diferenças são “inatas” ou dependem apenas do ambiente, em maior ou menor grau, ou o quanto esses dois componentes interagem entre si. De qualquer modo, é importante notar que, nesse contexto de investimento parental diferencial, parte das ações afirmativas para ampliar a inserção de mulheres na ciência é justamente reconhecer que é preciso considerar os efeitos da maternidade que tendem a reduzir a “produtividade” científica relativa das mulheres, como discutimos anteriormente e bastante popularizado hoje no Brasil com o movimento “Parent in Science”. Entretanto, é muito fácil deixar de reconhecer as influências culturais e ambientais, avançando a narrativa para dizer, por exemplo, que a dinâmica adaptativa “moldou”, ao longo da história evolutiva dos mamíferos e dos primatas, uma divisão de trabalho que faz com que as mulheres tenham menor capacidade de resolver problemas científicas e até uma menor capacidade cognitiva (vejam o excelente “A Falsa Medida do Homem”, de Stephen Gould, para um relato histórico detalhado dos testes de QI e da analises precárias da diferença no tamanho do cérebro entre homens e mulheres; notem que esse tipo de raciocínio pode ser generalizado também para os casos de racismo e discriminação de toda a sorte).  


Assim, apesar de todas as evidências tanto do padrão quanto do reconhecimento de práticas pseudocientíficas na construção de narrativas sociobiológicas até meados do século XX (mas que ainda persistem atualmente em alguns casos...), há ainda dificuldade de perceber o problema da desigualdade de gênero na ciência e aceitar algumas proposições para tentar resolvê-lo. É interessante tentar entender por que existe essa resistência, mas vou agora “mudar de direção” e colocar alguns pontos que certamente são AINDA MAIS POLÊMICOS e que, na minha percepção, têm recebido menor atenção (talvez até porque sejam mais polêmicos, pensando bem...).


Falamos de aumentar a inserção das mulheres na ciência, mas por que isso é importante? A resposta que estamos acostumados a ouvir é que isso é uma questão, digamos assim, de “justiça social”, que vivemos em uma sociedade democrática cujos valores incluem o reconhecimento da igualdade, inclusão e respeito à diversidade, não só de gênero, mas de raça, religião, etnia, outros aspectos culturais, etc. Em princípio tudo certo com esse argumento, (e vamos voltar a ele mais no final da postagem), mas de forma provocativa quero dizer que isso é apenas a “ponta do iceberg”. Mais importante, temos que tomar cuidado porque há muitas possibilidades de contrapor esse argumento e inverter a narrativa, o que abre espaço para muitas discussões. Se o argumento de inclusão e igualdade está baseado nos valores que queremos para nossa sociedade ocidental e civilização tecnológica no século XXI, alguns podem usar um argumento de relativismo cultural e de “liberdade de expressão” (vejam a discussão anterior aqui no “Ciência, Universidade e Outras Ideias” sobre o “paradoxo da tolerância”) e dizer que temos que aceitar outros valores “milenares” que outras sociedades adotam e preservam hoje...Assim, não poderíamos recriminar, por exemplo, práticas absurdas e violências perpetradas contra mulheres ainda hoje em diversas sociedades, incluindo mutilação genital, casamento (forçado) com adolescentes ou mesmo crianças, etc., e essa questão se torna inclusive um desafio em termos de discutir direitos humanos inalienáveis.


Como coloquei anteriormente, outra possibilidade é que alguns podem distorcer e ampliar a narrativa sociológica e dizer que não é “natural” que as mulheres se envolvam em certos assuntos e desempenhem certos papeis na sociedade, que elas devem se preocupar em garantir a perpetuação da espécie ao cuidar do marido e dos filhos. Vemos isso inclusive no discurso da extrema direita no Brasil (e entendo que em todo o mundo, infelizmente...), que defende uma posição conservadora para a sociedade focada na ideia de valorizar “a família”. Por mais que a gente não concorde com isso, o argumento está aí, convence muita gente e, portanto, temos que lidar com ele de alguma forma.


Seguindo esse raciocínio, um outro ponto que pode dificultar uma maior inserção de mulheres na ciência é que, ainda que apoiemos as ações e movimentos nessa direção, esse não é um OBJETIVO da ciência (vejam aqui mais detalhes desse argumento, mas em um contexto racial). Ou seja, podemos pensar na igualdade como um valor geral da sociedade e, ainda que aceitemos que precisamos combater todas as formas de preconceito e discriminação, o problema da desigualdade “em si” não afetaria o funcionamento da ciência. Desse modo, se uma determinada área da ciência está “funcionando bem” mesmo sem que as mulheres se interessem por ela (e esse poderia ser o caso das STEMs?), sem problemas, elas podem fazer outra coisa, se dedicar a outras tantas atividades possíveis no mundo moderno. Como veremos a seguir, considerando a maneira como boa parte dos pesquisadores (principalmente nas STEMs) entende o funcionamento da ciência, esse argumento pode muito facilmente ser considerado “aceitável”. A ciência funciona com evidências, fatos e teorias sobre o funcionamento da natureza (e da sociedade) que independem de nossas ideologias e valores, então qual o problema de ter menos mulheres (ou qualquer outro grupo social)? Poderíamos, portanto, dar o assunto por encerrado sem prejuízo e, na cabeça dessas pessoas, isso nem sequer refletiria algum preconceito ou discriminação (pelo menos assim espero)...Mas, claro, esse é uma visão bastante ingênua da ciência e, como veremos mais adiante, esse não é bem o caso! Chegamos então ao ponto central que quero abordar aqui nessa postagem, mas ainda temos um longo caminho a percorrer na argumentação!


Precisamos então avançar um pouco mais e ir além do argumento de igualdade como um valor geral da sociedade, quando estamos falando em mulheres na ciência (e, de novo, qualquer outro grupo social). Vamos pensar então na questão do “feminismo na ciência” de forma mais ampla. Como sempre, muito da discussão a seguir se baseia no excelente “Why Trust Science” da historiadora e filósofa de Harvard, Naomi Oreskes, e no texto mais geral “Theory and Reality” de Godfrey-Smith, mas há muitos outros livros mais específicos e interessantes sobre o tema (uma ótima introdução está no livro de Elizabeth Potter, Feminism and Philosophy of Science) e no capítulo de Elizabeth Anderson na Enciclopedia livre de Filosofia da Universidade de Stanford.

 



 

Existem várias possibilidades de classificar os vários movimentos ligados à questão do feminismo na ciência, mas gosto de pensar em três “níveis de discussão” que envolvem questões a serem respondidas sequencialmente, em ordem crescente de complexidade e necessidade de abstração. O primeiro nível é o que discutimos até agora e se refere ao padrão (de desigualdade) que observamos de pouca inserção de mulheres na ciência, mas os outros dois níveis se referem às consequências de uma maior inserção potencial, e são bem mais polêmicos. Entendo que o primeiro nível é principalmente sociológico, assim como o segundo nível, embora neste segundo nível já possamos vislumbrar também algumas implicações que levam a questões mais epistemológicas/filosóficas, que se tornam dominantes no terceiro e último nível de discussão.


No primeiro nível, como já discutimos, o ponto central é reconhecer que há um PADRÃO ligado à menor inserção das mulheres na ciência (o “efeito tesoura”) e entender as causas desse padrão, os mecanismos atuais ou históricos que levaram a ele. Temos então que encontrar soluções para o problema (uma vez que entendemos esse padrão como um problema) e implementá-las, e isso inclui mudanças culturais e educacionais (e.g., evitar jargões do tipo “meninas brincam de boneca e meninos brincam de carrinho”) e outras ações afirmativas (cotas em editais, maior janela de avaliação do CV para mulheres com filhos, por exemplo, como discutimos na postagem anterior em relação aos problemas no CNPq...). Em princípio estamos nesse caminho, tudo certo, e já discutimos que isso é uma questão de maior justiça social, mas que de fato não responde realmente à questão colocada no título da postagem, ou seja, por que precisamos de mulheres na ciência? Entendo que podemos avançar e nos perguntar qual seria a consequência de termos mais mulheres na ciência? Com isso podemos tornar as nossas justificativas para políticas de inclusão e diversidade mais elaboradas e interessantes, e ao mesmo tempo, usá-la como contra-argumento a problemas com o relativismo cultural. Mas, para isso, precisamos entender melhor o funcionamento social e as bases epistemólogicas da ciência no século XXI.


 


As Mulheres e Prática Científica


Passando para a questão das consequências potenciais de uma maior inclusão, gosto de pensar em dois níveis adicionais para as consequências de uma maior presença feminina na ciência, em relação ao que discutimos até aqui. No segundo nível de discussão, podemos então pensar que a maior inserção das mulheres na ciência poderia mudar a PRÁTICA CIENTIFICA, algo que tem sido muito discutido atualmente pois passamos a ver uma maior complexidade social em termos de carreira acadêmica e o papel social da ciência, bem como um maior interesse econômico em função de aplicações tecnológicas crescentes. Vemos hoje uma comunidade científica cada vez mais competitiva e com muitos interesses imediatos e de curto prazo, muito em função do sistema capitalista que domina nossa sociedade e rege as carreiras dentro e fora da academia. Já discutimos que, apesar das muitas discussões e possibilidades, muito da avaliação da nossa atividade científica reflete essa visão de mundo. Tentando não cair em estereótipos e jargões, e tentando não voltar ao ponto das diferenças inatas ou socialmente/culturalmente adquiridas, muitos entendem que essas características de maior competitividade, com maior ou menor agressividade, envolvendo acúmulo de poder, dominação e controle, são mais ligadas à personalidade “masculina”. Na realidade, algumas filósofas do movimento feminista ligado à ciência, como Sandra Harding, colocam que a própria origem da ciência reflete essa visão de poder e dominação. Por exemplo, Francis Bacon (1561-1626) dizia algo como “ciência é poder” e que o objetivo da ciência é “controlar a natureza”. Muitas filósofas feministas entendem que essa ideia de Bacon reflete, implicitamente, uma ideia de dominação das mulheres (“natureza”) pelos homens (os cientistas brancos europeus dos séculos XVII-XVIII), já que a nossa visão cultural tradicional de “natureza” é feminina, pensando por exemplo nos rituais de fertilidade de muitas sociedades antigas, em tempos nem tão longínquos assim.


Claro, essa já é uma interpretação e narrativa mais ideológica/filosófica da história do início da ciência que se propaga e “explicaria” a situação que temos hoje, e já imagino muitos colegas torcendo o nariz nesse momento...Mas não precisamos chegar nessa narrativa histórico/filosófica mais “extrema” para entender a origem dos problemas de inserção das mulheres (mas vamos voltar à filosofia da ciência daqui a pouco e as coisas só vão “piorar” para esses colegas...). Mais pragmaticamente, temos alguns indicadores de problemas ligados à ideia de competição e poder. Por exemplo, vemos um aumento de casos de assédio moral e ambientes de trabalho “tóxicos” e que geram problemas emocionais e psicológicos sérios nas pessoas envolvidas, e esses problemas tendem (me parece...) a envolver homens com maior frequência do que mulheres. Ouvimos que muitas mulheres se sentem, para dizer o mínimo, “desconfortáveis” nesses ambientes e, por outro lado, há algumas críticas de que as mulheres que se tornam mais bem sucedidas adotando essas práticas competitivas estariam de certo modo “se forçando” a aceitar essas condições de trabalho, digamos assim, dadas as diferenças inatas ou esperadas de percepção, valores e visão de mundo (mas notem que isso pode ser novamente distorcido e em parte questionado por voltar ao argumento do relativismo e de um papel “natural” das mulheres; sei que nem todas as feministas aceitam essas diferenças).


Vejam que, de qualquer modo, independente das causas dessa diferença entre homens e mulheres em relação a um mundo mais competitivo em potencial, esse padrão de desconforto em ambientes mais competitivos e agressivos é explorada inclusiva como parte das estratégias políticas, atualmente. Sabemos que (felizmente) certos comportamentos e práticas agressivas, como a defesa do porte de armas e discursos e práticas de violência, levaram à uma perda do eleitorado feminino de Bolsonaro, ainda que este seja conservador na pauta de costumes, nas nossas últimas eleições presidenciais (e vemos estrategicamente que a extrema direita está tentando mitigar esse problema com uma mudança de discurso e dando um maior destaque à ex-primeira dama, Michele Bolsonaro, como vimos na última manifestação dos bolsominions na Avenida Paulista, no último dia 25 de fevereiro de 2024; desnecessário dizer que a extrema direita não apoia o feminismo...). E notem que o efeito tesoura é muito forte na política também, e hoje temos apenas 18% de parlamentares mulheres na Câmara Federal.


Assim, dadas essas diferenças potenciais de personalidade e perfil de interação social entre os sexos, poderíamos pensar que a prática científica do dia-a-dia mudaria com uma maior inserção das mulheres na ciência, já que elas seriam mais colaborativas e tenderiam a ver as questões sociais e de relacionamento interpessoal de outra forma, valorizando outras habilidades e competências nos laboratórios e grupos de pesquisa, criando talvez ambientes menos “tóxicos” em muitos casos. Alguns podem argumentar que uma menor competição poderia “reduzir a produtividade”, mas claro que essa é uma visão tautológica ligada à visão competitiva da ciência por si e sua avaliação de qualidade, como já discutimos aqui recentemente...Sabemos que cada vez mais as questões complexas da atualidade e em escala global exigem uma maior colaboração entre pesquisadores de diferentes áreas e com diferentes visões e habilidades. Então, será que não seria melhor se tivéssemos ambientes menos competitivos e se mudássemos totalmente a maneira de avaliar a produção científica? E, claro, se o ambiente em um laboratório é tóxico por pressões de competitividade, não entendo como isso pode ter qualquer efeito benéfico para a comunidade científica (ainda que alguns pesquisadores individuais tenham se beneficiado disso em curto prazo...). 


Claro, muitos vão argumentar que essa discussão é irrelevante porque a mudança de um sistema mais competitivo para um sistema mais colaborativo, ainda que salutar, não estaria intrinsicamente ligada com a questão de sexo/gênero, inclusive se pensamos que as diferenças entre homens e mulheres seriam apenas moldadas culturalmente. Voltamos a ideia de que a ciência “em si” é independente dessas questões ideológicas que tendem a ser associar à questão da desigualdade de gênero. O importante seria, então, voltar à questão dos valores e da justiça social... Talvez, é mesmo difícil avaliar “objetivamente” essa questão inclusive porque há muita inércia nos sistemas de avaliação e da maneira como a ciência e as mulheres, como comentamos anteriormente, tendem a replicar o modelo vigente para serem bem sucedidas, o que perturbaria as avaliações.


Outro ponto importante nesse contexto da prática científica que é bem conhecido se refere à própria questão da "Agenda de Pesquisa", principalmente pensando em um nível institucional. Em um primeiro momento, sempre imaginamos, de forma idealizada, que os pesquisadores vão escolhendo individualmente ou em pequenos grupos suas linhas de pesquisa e definem o que é relevante investigar. É verdade, mas temos também outros componentes mais “institucionais” em diferentes escalas e níveis da hierárquica da sociedade, e isso é particularmente importante em áreas que requerem muito recurso e que precisam de muito financiamento. Quem decide quais linhas de pesquisa são mais importantes e merecem mais financiamento de grande monta? No Brasil temos a Agenda Nacional de Pesquisa (que será, aliás, definida nos próximos meses no contexto da discussão da 5ª. Conferência Nacional de C&T, que ocorrerá em junho de 2024, e vários grupos já estão se mobilizando para contribuir para essa discussão) e que, pelo menos em tese, definirá as prioridades de pesquisa e inovação. Se os principais gestores e tomadores de decisão são homens (bem como os políticos que, em última instância, aprovam os orçamentos dessas agências) então a ciência, não só em termos de prática do dia-a-dia mas em termos de “direção” de investigação futura, poderia ser dirigida em direções que tenham um componente mais “masculino”, por exemplo? Será que o apoio à diferentes linhas de pesquisa e de investigação seria diferente se houvesse mais mulheres determinando prioridades e a agenda de pesquisa?


De qualquer modo, pensando um pouco além da questão coletiva da agenda, ainda podemos avançar mais e chegar à questão mais complicada (e mais interessante...). Vamos “dar mais uma volta”, como dizem meus amigos espanhóis, a partir desse argumento e chegar ao terceiro e último nível de discussão. Poderíamos argumentar que uma maior inclusão das mulheres na ciência poderia mudar não só a prática científica, mas poderia mudar a “CIÊNCIA EM SI”, ou seja, será que as nossas TEORIAS CIENTÍFICAS, como explicação do mundo, não seriam diferentes se houvesse mais mulheres na ciência?



 

Epistemologia Feminista


Sei que para muitos dos meus colegas, especialmente nas ciências naturais, como Física, Química e Biologia, essa última questão não faz nenhum sentido...Como assim, teorias diferentes??? As nossas teorias científicas, como explicações para o que observamos na natureza, refletem uma realidade subjacente ao mundo em que vivemos e essa realidade é independente de nós, no sentido de que variações de raça, sexo e etnia não mudam essa realidade, certo? Na realidade não é tão simples assim, por várias razões, e o ponto é que vários dos movimentos feministas na ciência sugerem que a própria ciência, em termos de suas teorias, ou seja, de como entendemos o mundo, seria diferente se houvesse mais mulheres na ciência...Existem muitas ideias e posições aí, muitos “ismos”, como sempre formando gradientes ao longo de visões mais ou menos radicais, e os leitores que quiserem se aprofundar podem procurar os trabalhos de Sandra Harding, Helen Longino, Elisabeth Lloyd, Natalie Ahston, Evelyn Fox Keller  (e, claro, é sempre uma boa ideia ler primeiro os textos mais gerais que mencionei antes, como o de Naomi Oreskes e o de Godfrey-Smith). Sem dar muito “spoiler”, vamos chegar ao final da longa digressão a seguir - e já peço desculpas por isso - à uma visão mais moderada do ponto de visto do construtivismo (feminist standpoint theory), baseado no “conhecimento científico situacional”, e que conversa razoavelmente bem com uma visão filosófica da ciência que aprecio, do perspectivismo científico.


Temos pelo menos 200 anos de discussões em filosofia da ciência sobre a questão do significado das teorias científicas e sua relação com o “real”, a começar por Kant (embora podemos ver muitos ecos de Platão aí...). Entretanto, a visão mais comum e popular é a ciência é “objetiva” e que descreve a realidade de fato, independente de quaisquer valores ou ideologia, principalmente quando conversamos com os cientistas naturais (e acho que isso pode ser a origem de vários problemas sociais que temos hoje, em termos de avanço da pseudociência, fundamentalismo religioso, dificuldade de comunicação com a sociedade; mas vamos discutir isso com mais calma depois...). É difícil sintetizar tantas discussões para chegar à questão do feminismo, mas vamos lá, vou tentar resumir (provavelmente sem sucesso, na opinião de muitos...).


As teorias científicas são explicações para os padrões que conseguimos observar no mundo que nos cerca, na natureza ou na sociedade, e podemos pensar de forma simplificada que essas explicações vêm de uma interação complexa entre sugestões que se originam das próprias observações do mundo e de construções mentais que fazemos a partir de pressupostos sobre o seu funcionamento. Nos extremos, essas ideias de como surgem as teorias científicas representam pensamentos mais “indutivos” e “dedutivos”, respectivamente. De modo geral, independente da origem da teoria, a sua validação em geral é pensada em termos de contrastar predições originadas delas com o que somos capazes de observar no mundo “real”, de modo que a ciência tem uma forte tradição “empiricista”. Mas a grande questão é, uma vez que temos uma “explicação” para um determinado fenômeno (uma teoria) e suas predições correspondem ao que vemos no mundo real, isso significa que “descobrimos” ou “entendemos” esse mundo real? Tendemos a pensar que teorias indutivas são mais fáceis de confirmar porque elas podem ter sido “geradas”, digamos assim, pelos próprios dados, criando um viés e uma tautologia que faria com que elas tendam a ser equivocadamente aceitas. As teorias dedutivas seriam mais confiáveis, porque se originam de ideias e pressupostos que são combinados r organizados para propor uma solução. Mas não é tão simples...Ainda que haja uma sequência lógica de pensamentos, será que outras explicações não poderiam gerar predições semelhantes? Como podemos saber que estamos “certos” em nossa explicação? Esse é o famoso problema da “subdeterminação” das teorias pelos dados empíricos, chamada de tese de Duhem-Quine (para os mais interessados, vejam aqui um trabalho recente do nosso grupo de pesquisa discutindo essa ideia em biogeografia e macroecologia).


O problema da subdeterminação reflete, na verdade, uma discussão mais profunda sobre o que significa testar ou confirmar uma teoria científica, formando um gradiente de pessimismo otimismo em termos de sua relação com a realidade. Nos extremos, os mais otimistas acham que é pouco provável que haja outras explicações para o fenômeno que estamos estudando e, portanto, se uma teoria, especialmente sendo ela de origem dedutiva, é validada por observações e aceita, ela representa uma “verdade”, ou no mínimo uma “verdade parcial”, sobre o mundo, apoiando assim uma corrente de pensamento filosófico chamada de “REALISMO”. Em um outro extremo desse gradiente, os mais pessimistas acham que tudo bem, ótimo que as predições estão funcionando, mas elas não dizem (necessariamente) muito sobre o mundo real, deveríamos ser mais céticos e agnósticos quanto a isso. Deveríamos pensar que as teorias são apenas “ferramentas” para trabalharmos e resolvermos nossos problemas do dia-a-dia (e isso inclui aplicações tecnológicas), levando a uma visão que chamamos de INSTRUMENTALISMO.


O gradiente REALISMO-INSTRUMENTALISMO reflete, portanto, o nosso otimismo-pessimismo em relação à capacidade das nossas teorias descreverem uma “realidade” subjacente ao mundo, mas temos outros gradientes aí, envolvendo inclusive a nossa capacidade de perceber a realidade do mundo à nossa volta independente das nossas próprias concepções sobre ela. Ou seja, o que é a “realidade” (cientifica)? Por exemplo, será que existem “dados” reais e objetivos que sejam inquestionáveis? Até que ponto as nossas escolhas, os nossos valores e o nosso “background” cultural afetam a nossa capacidade de perceber o mundo, e consequentemente levam também a algumas explicações sobre esse mundo? Toda essa discussão passou a ser muito popular a partir dos anos de 1960, especialmente com a adoção da ideia de paradigmas científicos com a publicação do livro de Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas” (vejam aqui uma discussão mais ampla sobre “o que é ciência” e mais detalhes sobre esses pontos). Existem muitos pontos para discutirmos aqui e várias polêmicas envolvendo as questões acima, mas o livro de Kuhn mudou todo o campo da sociologia da ciência e abriu espaço para discussão sobre a ideia de “relativismo científico”. Existem, claro, proposições mais moderadas em termos de estrutura (substituindo, por exemplo, a ideia mais radical de paradigma por programas, tradições e perspectivas científicas), e o próprio Kuhn jamais foi um radical, de fato. Mas, em resumo, a ideia é que as teorias científicas fazem sentido em um contexto social e cultural mais amplo, de modo que a sua realidade, bem como das observações que usamos para validá-las, precisa ser entendida nesse contexto. Passa a ser mais difícil pensar em mensurar uma “realidade objetiva” e precisamos entender o contexto no qual as teorias foram elaboradas, de modo que as teorias devem ser entendidas como “construções” mentais, em uma ideia de “CONSTRUTIVISMO (SOCIAL)”. Entendo que, em um certo sentido essa visão construtivista está relacionada ao instrumentalismo, mas filosoficamente forma um outro gradiente no qual a teoria é construída a partir de um contexto social e cultural e, em um extremo (pós-modernismo), não haveria inclusive realidade fora desse contexto. Ou seja, a pergunta aqui é o quão otimistas somos de que as teorias descrevem uma realidade que existe independente de nossas concepções sobre elas que, por sua vez, seriam moldadas pelo nosso background social e cultural (em um extremo, vamos para visões pós-modernas de que a “realidade” não existe).


Didaticamente, gosto de representar essas três ideias (REALISMO, INSTRUMENTALISMO e CONSTRUTIVISMO) em um triângulo, no qual teríamos um gradiente relativo ao otimismo e péssimo na relação da teoria com a realidade, com intercepção por outro gradiente que reflete a influência do background social e cultural no gradiente otimismo-pessimismo, mas com outras implicações relativas inclusive à nossa própria percepção do mundo em termos de obter dados e informações sobre o que achamos que é “real”. Podemos pensar em várias correntes filosóficas e ideias de diferentes filósofos da ciência e posicioná-los nesse espaço triangular e entender, talvez de forma um pouco “caricata”, como diferentes áreas ciência percebem a relação entre teoria e realidade. A maior parte dos cientistas naturais vai estar mais próximo do REALISMO, embora alguns possam ir um pouco mais na direção do INSTRUMENTALISMO, mas em geral estarão mais distantes do CONSTRUTIVISMO. Os cientistas sociais, por outro lado, tendem a se aproximar mais do construtivismo, em maior ou menor grau, na melhor das hipóteses indo um pouco na direção do instrumentalismo. Talvez isso ilustre, de fato, as dificuldades que temos, apesar dos muito esforços, de unificar ciências naturais e sociais. Gosto de pensar que o PERSPECTIVISMO de Ronald Giere (1938 – 2021), um filósofo que admiro muito, tente se colocar mais ao centro dessa figura, ainda que mais próximo do gradiente realismo-instrumetalismo.

 



 

Desculpem a longa digressão, mas entendo que agora estamos (quase) prontos para voltar à questão do feminismo e das teorias científicas, e é aí que o perspectivismo e uma posição mais moderada, em termos de não radicalizar em direção a qualquer um dos vértices do triângulo, pode ajudar. Podemos, por exemplo, pensar que se olhamos o mundo de forma “perspectiva”, ou seja, a partir de um determinado ponto de vista que é em parte dado por nosso “background” cultural e social, admitimos um papel do construtivismo na ciência (para um realista extremo, observamos a natureza de forma objetiva, sem ponto de vista, a “view from nowhere”;  e não é incomum ouvirmos a ideia paradoxalmente perturbadora de que a ciência veria o mundo do “ponto de vista de Deus” – “God’s eye view”! Como assim???).


Entretanto, o fato de termos consciência de que existem diferentes pontos de vista científicos e que esses pontos de vistas vão determinar várias questões metodológicas inclusive não significa que não exista uma realidade objetiva, ainda que não possamos necessariamente alcançá-la e compreendê-la de forma integral hoje (nos colocamos, portanto, em uma posição intermediária no gradiente otimismo-pessimismo). Podemos pensar, como Giere propõe, em um “realismo perspectivo”. Talvez possamos entender “a origem” da nossa perspectiva, ou seja, definir “de qual ponto de vista” estamos olhando para aquele fenômeno. Será que conseguiríamos ver o mesmo fenômeno de outro “ângulo”, e o que ganharíamos com isso? Chegamos então ao centro da nossa discussão, pois se entendemos que isso é possível, podemos então pensar que, se olharmos a natureza ou um dado fenômeno sob diferentes ângulos, vamos entendê-lo melhor! BINGO, precisamos então de DIVERSIDADE de “backgrounds” sociais e culturais a fim de perceber o fenômeno ou a natureza de diferentes perspectivas e conseguir, portanto, uma visão mais completa da “realidade”. Ufa...


Dentro de uma visão perspectiva, podemos agora entender o argumento de Harding, Longino e outras filósofas da ciência, e fortemente defendido por Naomi Oreskes, de pensamos em teorias (feministas) de "pontos de vista" (standpoint theory). Especificamente, o argumento é que a perspective das teorias científicas é masculina e talvez isso se reflita em como entendemos o mundo, e, portanto, precisamos avaliar isso com outros pontos de vista. Entendo que falamos muito em diversidade e igualdade, e alguns podem estar pensando agora que fiz um longo caminho para chegar aonde já sabíamos (e na realidade essa ideia mais ampla da importância epistemológica e ideológica da diversidade já aparece, por exemplo, em John Stuart Mill (1806 – 1873). Mas quis fazer essa discussão porque entendo que quando falamos em “diversidade” e “igualdade” no contexto de inserção e ações afirmativas estamos, de fato, no primeiro nível de discussão em termos de justiça social, e não sei até que ponto temos clareza das implicações filosóficas de termos uma maior diversidade. Na verdade, nesse contexto da epistemologia feminista proposta por Harding e Longino é justamente que DIVERSIDADE GERA OBJETIVIDADE, algo que pode parecer totalmente paradoxal na visão mais tradicional de ciência, mas é totalmente compreensível sob um ponto de vista de teorias perspectivas. Estamos acostumados a pensar que a ciência é "objetiva", mas isso pressupõe que somos capazes de eliminar sempre todos e quaisquer vieses de observação e percepção (e que somos MUITO espertos para conseguir realmente capturar a realidade subjacente a fenômenos complexos com nosso cérebro primata de 1300 cc...). Como está ficando cada vez mais claro que isso não é nada fácil, em todas as áreas da ciência, o melhor mesmo é olharmos para o problema de diversos ângulos para que esses vieses tendam a se "anular" e, ai sim, tenhamos um compreensão mais abrangente das explicações que podemos ter para um fenômeno natural ou social.


A nossa ciência foi feita, em grande parte, por homens brancos europeus a partir da revolução científica dos séculos XVII e XVIII, e isso inclui os nossos ídolos e os grandes heróis da ciência, como Newton, Einstein e Darwin, e tantos outros...Entretanto, as suas visões de mundo estão, hoje, em grande parte superadas e foram ampliadas ou completamente reorganizadas, como seria mesmo de se esperar pela dinâmica científica (sempre insisto aqui, no contexto das discussões sobre criacionismo, que a Biologia Evolutiva do início do século XXI tem pouca relação, de fato, com a teoria original de Darwin/Wallace de 1858, a despeito do seu pioneirismo). A questão é, portanto, será que o progresso não teria sido mais rápido, ou levado a outras ideias diferentes das que temos hoje, se fosse feito de forma mais plural? Não estou falando só de mais mulheres, mas também de outras culturas, outras etnias, enfim, mais diversidade de modo geral...Em geral temos dificuldade de perceber isso, inclusive porque estamos justamente “travados” em nossas perspectivas (não vou usar “paradigma” porque o significado técnico é mais restrito, mas vocês entenderam a ideia). Temos dificuldade em pensar que, por exemplo, a evolução seria explicada de forma diferente se as teorias iniciais tivessem sido pensadas por mulheres, que a seleção natural não seria o mecanismo dominante para gerar adaptações. Mas essa explicação é mesmo “real”? Podemos até "medir" a seleção natural em algumas situações, mas há algumas outras explicações para adaptações, além de outros processos de evolução, e não temos como saber "objetivamente" como essas várias explicações se combinam ao longo da história dos diferentes grupos de organismos. O sistema em si é extremamente complexo e dinâmico e dizer que a evolução adaptativa ocorre por seleção natural é uma enorme simplificação apenas para nos ajudar a começar a discussão.


Sei que é difícil para nós pensarmos nesses questões nas ciências naturais, e em um contexto de feminismo as teorias perspectivas se aplicam mais facilmente a questões envolvendo sexo e gênero, sem dúvida. Mas na biologia temos alguns casos bem interessantes que podemos explorar. Por exemplo, podemos tentar entender como as ideias sobre o comportamento sexual de primatas (e humanos) mudaram a partir dos anos de 1970-1980 quando mais mulheres começaram a estudá-lo, como discute Godfrey-Smith com base no trabalho de Sarah Hrdy, isso sem falar na ideia clássica da dualidade homem caçador/mulher coletora na antropologia. A ideia da fêmea passiva e submissa que domina(va) a sociedade cristã ocidental foi rapidamente transferida para os primatas pelos antropólogos (homens) europeus, algo que sabemos que tem pouca relação com a “realidade” dessas espécies e sociedades. Temos aí tanto um problema de interesse dirigido e observação enviesada como uma concepção “a priori” socialmente referenciada das expectativas teóricas do que eles esperavam observar (aliás, Harding e Longino começaram a pensar na epistemologia feminista nos anos de 1980 nesse contexto menos polêmico dos vieses de observação, no "empiricismo feminista", mas essa ideia rapidamente evoluiu para as teorias mais complexas de ponto de vista). Não estou dizendo que, em alguém momento, é possível que jovens antropólogos brancos europeus pudessem se dar conta do viés, mas o ponto é que a mudança aparentemente só aconteceu quando mulheres passaram a estudar esses padrões!


As teoria de ponto de vista feministas, portanto, poderiam ser pensadas como casos mais particulares de uma visão perspectiva mais geral, mas há, como discute Natalie Ashton, algumas características particulares em relação ao perspectivismo mais amplo de Giere. Um ponto crucial é entender qual perspectiva é adotada em certos casos, e por que estas se tornam dominantes como explicações. A ideia é que o problema aparece quando questões particularmente ligadas ao gênero e sexo são levantadas sem considerar todos os “lugares de fala” (no sentido de serem pensadas apenas por homens) e, mais interessante, que o efeito das teorias terem sido apresentadas por homens as torna mais “confiáveis” ou “aceitas” (o que mostra assim uma interação com as discussões nos dois níveis anteriores, em termos sociológicos). Ao mesmo, as perspectivas alternativas só seriam percebidas pelos grupos minoritários (no caso, mulheres) e pessoas nesses grupos é que precisariam questionar a perspectiva dominante, o que nos leva de volta ao primeiro nível da discussão.


Por outro lado, é interessante notar também que há críticas à teoria epistemológica do ponto de vista, no sentido dela ser “essencialista” ao pensar, digamos, no ponto de vista da “mulher”, que não seria uma categoria homogênea e independente de outras estruturas sociais. Por exemplo, a possibilidade de uma jovem mulher branca européia se tornar uma cientista é muito maior do que uma jovem negra na América Latina ou na África. Isso leva a visões mais radicais e pós-modernas, indo para um extremo da visão construtivismo social e relativismo. Nesse sentido, perdemos totalmente a capacidade de generalidade e teríamos que pensar caso a caso, e de qualquer modo não tenho nem muito como avançar nesse discussão pós-moderno, pois aí estaríamos de fato muito mais “longe” do que estamos dispostos a aceitar em termos de pluralidade de visões nas ciências naturais, pelo menos...


Enfim, a partir do momento que compreendemos (e eventualmente aceitamos) os três níveis de discussão do feminismo na ciência que coloquei acima, podemos ter diferentes ações e justificativas para defender o movimento e buscar soluções efetivas para ampliar a participação das mulheres (e de outros grupos, de fato...) na ciência. Então, em síntese, vamos manter em mente que:


1) Precisamos ampliar a participação das mulheres na ciência por uma questão ideológica de igualdade e justiça social, eliminando preconceitos que, em geral, são originados de concepções pseudocientíficas que reforçam um ponto de vista de que as mulheres seriam intelectualmente inferiores aos homens, e que o caminho natural, dada as diferenças inatas entre os sexos, é que se mantenha o papel que a sociedade tradicionalmente estabeleceu para elas;


2) Precisamos, ao mesmo tempo, avançar no argumento simples de igualdade e justiça social até como uma forma de contra-argumentar o relativismo cultural, pensando em consequências positivas para a ampliação da inserção das mulheres na ciência. Em um primeiro momento, podemos conjecturar sobre as consequências dessa maior inclusão mudando favoravelmente a prática na atividade científica, tornando-a menos competitiva e agressiva. Eventualmente, isso deve permitir uma maior colaboração efetiva entre pesquisadores em um ambiente menos tóxico e estressante, fortalecendo a necessidade de ações multidisciplinares e interdisciplinas que são fundamentais para resolver os problemas complexos da nossa sociedade;


3) Finalmente, em um contexto mais “perspectivo”, talvez uma maior inserção de mulheres (e outros grupos), ampliando a pluralidade na ciência, mude a nossa maneira de ver o mundo e gere concepções teóricas mais interessantes e que nos permitam ter uma visão mais coerente da natureza e da sociedade. Se entendemos que as nossas teorias científicas são sempre construções mentais humanas e influenciadas, em maior ou menor grau, pelo nosso “background” cultural e social, podemos pensar que olhar para a natureza e para a sociedade sob diferentes pontos de vista pode nos ajudar a desenvolver teorias mais explicativas e consistentes. Precisamos, portanto, aumentar a pluralidade na ciência.

 

Notem que nem todas as ideias acima são de fato “testáveis” sob um ponto de vista mais “objetivo”, até porque, em termos auto-reflexivos, isso nem faria muito sentido. A objetividade é perspectiva, no sentido de que só faria (minimamente) sentido em um contexto específico, e não é surpreendente que, nesse contexto da epistemologia feminista, haja muitas discussões sobre a ideia de objetividade. De qualquer modo, podemos pensar em casos e exemplos históricos em um contexto mais “naturalístico” em filosofia da ciência, como o caso do comportamento sexual em primatas, para defender esse ponto de vista mais filosófico. Tudo isso vai nos permitir entender muito melhor as ações afirmativas que têm sido amplamente discutidas hoje para ampliar a participação das mulheres e de grupos minoritários não só na ciência, mas em diferentes esferas da sociedade.

 


Coda


Finalizando, não podemos fugir, em toda essa discussão das ações afirmativas, do fato de que sempre teremos uma questão ideológica subjacente às nossas ideias, no sentido mais amplo da palavra (e aqueles que se incomodam mais com a palavra “ideologia” podem agora substituí-la, se quiserem, por "perspectiva", sem grandes prejuízos de compreensão...). Não podemos também ignorar que há componentes de ativismo pragmático que envolvem não só entender o mundo e a sociedade a partir dessas concepções, mas mudá-la de acordo com algumas convicções e valores (e notem que isso vai acontecer por exemplo também nas ciências naturais e na ecologia, em um contexto atual de forte degradação ambiental, ainda que adotemos um discurso mais cientificista ao dizer que estamos sendo “conservativos” e que precisamos usar o “princípio da precaução” ao tomar decisões ambientais...).


Temos que fazer em algum momento aqui no “Ciência, Universidade e Outras Ideias” uma discussão mais ampla das ações afirmativas para resolver o tipo de problema que discutimos nesta postagem em relação à inserção das mulheres na ciência. Se defendemos a pluralidade em função das concepções filosóficas que coloquei acima, e conseguimos mostrar que isso torna a ciência mais interessante e dinâmica a partir de uma abordagem naturalística, ótimo! Mas nem sempre é fácil “validar” essas concepções filosóficas, e alguns dizem que não seria mesmo possível...E notem que ainda que tentemos fazer essa avaliação “científica” disso, voltando a perspectivismo fica muito claro que há muitas dificuldades metodológicas nesse sentido e temos que assumir várias coisas para “medir” o impacto dessas ações e seu funcionamento. Poderíamos definir um protocolo para, depois de 50 anos, avaliar se grupos de pesquisa mais plurais são mais produtivos ou geram ideias mais inovadoras. Mas até que ponto nossos indicadores e métricas seriam “reais” (na realidade nunca são...) e não regidos por concepções pré-concebidas? Quais são essas concepções e o que queremos de fato demonstrar? E, mais importante, podemos esperar 50 anos? Precisamos esperar 50 anos?


Não quero ser pessimista e parecer negacionista, inclusive porque o próprio perspectivismo nos sugere que sim, podemos e devemos fazer essas avaliações, e elas são importantes! Mas temos que manter em mente que isso não é “objetivo” no sentido que as pessoas tradicionalmente pensam ao fazer ciência. Ao mesmo tempo, sabemos que temos alguns problemas e excessos na pauta identitária e nem sempre podemos excluir interesses políticos e econômicos escusos subjacentes à defesa dessas pautas por algumas pessoas. Portanto, é perfeitamente legítimo que adotemos ações afirmativas para aumentar a representatividade na ciência a partir de uma opção ideológica construída a partir de princípios mais amplos de justiça e ética, calcados em honestidade científica e interesse social genuíno, e avaliando da melhor forma possível seu resultado. De qualquer modo, é uma discussão complexa e entendo que, desde que feitas de forma honesta, as duas práticas me parecem válidas e podem ser facilmente combinadas. Como tenho ressaltado aqui em relação à própria concepção (ai sim, em um sentido amplo e plural), o mais importante é manter uma atitude científica honesta, coerente, tolerante e plural em relação ao conhecemos e ao que queremos nos tornar como sociedade!





Paineis de mulheres na ciência do CNPq (muito orgulho de ter minha esposa, Mariana Telles, no painel de jovens pesquisadoras!!!



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