• José Alexandre F. Diniz F

Guerra de Informações e as Mentiras sobre as Bolsas da CAPES

Atualizado: Abr 6

É impressionante como o Governo atual tem a capacidade de desmontar o sistema de Ciência e Tecnologia do Brasil espalhando a discórdia, usando argumentos equivocados e se aproveitando de confusões de entendimento entre os pesquisadores. Enfim, o que há de fato é uma guerra de informação. Isso é realmente típico entre os negacionistas e aqueles que defendem a pseudociência e agora podemos entender o impacto de colocar um pessoal com esse perfil à frente da maior agência de fomento à pesquisa do Brasil.


O presidente da CAPES, Dr. Benedito Aguiar, quer convencer a comunidade científica, de todas as formas, de que o novo modelo de distribuição de bolsas anunciado em 20 de fevereiro e cuja implementação foi acelerada em 18 de março, não terá impacto sobre o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) e que as pessoas que estão criticando o modelo possuem uma visão parcial do sistema.


Eu e meu amigo Paulo Inácio Prado (vice-coordenador do Programa em Ecologia da USP) já discutimos em detalhes o modelo definido nas portarias do dia 20 de fevereiro na nossa postagem do dia 8 de março, e fizemos uma análise detalhada avaliando a sua aplicação imediata e as consequências desastrosas em médio-longo prazo. Entretanto, no dia 18 de março a CAPES editou uma nova portaria AMPLIANDO os limites de perda (que anteriormente estavam restritos a 10%). Essa é a Portaria 34 de 2020, datada de 9 de março (notem a data). Com isso, o número de cotas de bolsas que o programa tem vai se aproximar mais rapidamente dos valores esperados pelas portarias. Ou seja, o cenário catastrófico que Paulo Inácio e eu desenhamos para os próximos anos se concretizou de imediato. O que a nova portaria fez foi acelerar o desmonte, e o presidente da CAPES, de forma absolutamente cínica, escreveu no ofício de encaminhamento das cotas revisadas:


“Consoante orientação central do Ministério da Educação (MEC) e considerando a alta receptividade do modelo de redistribuição de bolsas publicado no final de fevereiro deste ano, foi identificada a conveniência de ampliar a velocidade de sua implantação, privilegiando com maior vigor os cursos mais bem avaliados”.


E vejam, em 3 de março a CAPES DISPONIBILIZOU as cotas destinadas a todos os PPGs do Brasil e estes se organizaram para distribuir essas cotas, de modo que os alunos que tinham em geral acabado de se matricular foram avisados da sua situação (em termos de receber bolsas ou não). Alguns contemplados já mudaram de suas cidades para os cursos de destino, ou se já estavam lá renovaram seus contratos de aluguel, por exemplo...em alguns casos mais drásticos alguns pediram demissão dos seus empregos para assumir a bolsa. Entretanto, antes que as bolsas pudessem ser implementadas, a nova portaria foi publicada e os cortes foram ampliados! Muitos desses alunos, assim, se viram em uma situação desesperadora...Isso no meio da pandemia da covid19!!! Mas já explorei tudo isso no vídeo publicado no domingo, dia 21/03, no YouTube e que vocês podem encontrar no final da postagem. Vejam abaixo a comunicação oficial da CAPES ao nosso PPG em Ecologia & Evolução da UFG.





Em função da crise e da comoção nacional em torno da pandemia da covid19, não é de se estranhar que esses cortes não tenham tido grande repercussão na grande mídia. Algumas notícias começam a aparecer de forma tímida em alguns jornais como a Folha de São Paulo e nas webpages de algumas Universidades, como por exemplo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mais importante, quase que de imediato o Fórum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP) e a SBPC se manifestaram e pediram a revogação imediata da Portaria (sendo que a nota da SBPC foi endossada por mais de 60 entidades científicas). A ANPG, claro, fez o mesmo! Talvez até mais importante, os Coordenadores das 49 Áreas de Avaliação da CAPES e a Associação dos Servidores da CAPES (ASCAPES) também se manifestaram oficialmente no mesmo sentido, mostrando um conflito sério na própria instituição.

Essas duas últimas manifestações realmente não me surpreendem (ou, melhor, me surpreendem de forma extremamente positiva, inclusive pela coragem!), pois ao longo desses quase 25 anos em que estou envolvido com o SNPG, seja como coordenador de curso, membro de comitês de avaliação da DAV/CAPES e Pró-Reitor de Pós-Graduação, sempre pude constatar a dedicação e empenho de muitos técnicos da CAPES em melhorar e aprimorar sempre o SNPG! Em termos de avaliação, não resta dúvida de que os coordenadores de área sempre tiveram um papel fundamental em termos de liderança e de aprimorar a qualidade da pós-graduação no Brasil, como discuti também na minha postagem recente sobre a Plataforma SUCUPIRA.


Por enquanto todas essas manifestações não tiveram sucesso, inclusive porque a CAPES já reabriu o Sistema de Concessão de Bolsas (o SCBA) no dia 20 à noite, já com as cotas reduzidas. E, como faria um bom negacionista, a despeito de todas essas manifestações altamente qualificadas, o Presidente da CAPES continua insistindo que o modelo não trará prejuízo, que não houve cortes de bolsas e que aqueles que estão criticando o modelo e sua implementação possuem “uma visão parcial do sistema”.


O ministro da Educação Abraham Weintraub vai na mesma linha, espalhando as mesmas mentiras (como se ele soubesse o que é um mestrado e um doutorado, inclusive...). Na sua conta no twitter, Weintraub fez hoje um video e continua na linha de que

"...a distribuição das bolsas seguia um padrão histórico. Agora há um modelo transparente e objetivo, que prioriza áreas de relevância, cursos melhor avaliados, IDH, etc. Alguns cursos no Brasil podem perder vagas, porém, a maioria ganhará. O saldo é positivo em 6.000 bolsas."


Ontem à noite, no dia 23 de março, a CAPES soltou uma nota “esclarecendo” a aplicação do novo modelo e insistindo na mentira. A minha resposta mais curta ao Presidente da CAPES Benedito Aguiar seria algo como "A carta é mentirosa e perniciosa, usando informações falsas e distorcidas". Para a frase de Weintraub a resposta seria ainda mais curta ("é só mentira mesmo, nenhuma sentença é verdadeira"). Mas vou responder a cada um dos pontos da carta abaixo, em detalhes, do mesmo jeito que fazemos quando retornamos um artigo revisado em um periódico científico (o texto da portaria está em itálico, e minhas respostas em negrito).



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A respeito da portaria 34 a CAPES esclarece que:


Como parte do esforço para a alocação de bolsas de mestrado e doutorado de forma equânime para todos os cursos de pós-graduação stricto sensu, a CAPES publicou as portarias 18, 20 e 21, em fevereiro deste ano, por meio de modelo inédito de distribuição de bolsas.


Em março foi publicada a portaria 34, que tratou apenas do estabelecimento de pisos e tetos de concessão de bolsas para os cursos, não alterando os critérios de concessão de bolsas e assegurando a aplicação de regras isonômicas, com critérios objetivos mensuráveis.


De fato, a portaria trata “apenas” dos pisos e tetos e, como destacamos na postagem anterior, isso apenas acelera a convergência do modelo (como está dito mesmo no primeiro parágrafo do ofício de encaminhamento das cotas revisadas do dia 18). O modelo continua o mesmo, ruim e sem sentido...Mas como eu disse ao meu amigo e Pró-Reitor de Pós-Graduação da UFG, Professor Laerte Guimarães Ferreira Jr., que ironicamente eu acho que o que aconteceu agora foi até mais “honesto”, pois isso mostra realmente qual é o objetivo final do modelo (na minha opinião, o desmonte do SNPG). Muitas pessoas não entenderam bem as consequências da aplicação do modelo em longo prazo e podem ter achado as conclusões às quais Paulo Inácio e eu chegamos especulativas ou precipitadas...Agora fica mais claro o que vai acontecer.

Não foi feito corte algum, muito pelo contrário. Em fevereiro de 2020, quando a CAPES anunciou o modelo de concessão de bolsas, havia ao todo 81.400 bolsas no País, distribuídas por mais de 350 instituições de ensino superior – públicas e privadas – que abrangiam mais de 7 mil cursos. Um mês depois, em março, com a implementação do modelo, este número passou para 84.786 benefícios para mestrado e doutorado. O aumento foi necessário para atender os cursos mais bem avaliados.


Essa é a parte mais crítica, vou gastar mais tempo e espaço aqui nessa resposta (e fica redundante em relação às outras). Não tenho os números atuais da CAPES, até porque a transparência do sistema é bastante questionável agora. Os cortes em 2019 foram e voltaram, com critérios diferentes, e é difícil avaliar exatamente o que aconteceu. Mas fala-se em uma perda em torno de 10000 cotas no sistema...Isso bate com os números acima, já que o Presidente Benedito fala de 81000 bolsas em fevereiro. Agora, por definição, se olharmos a convergência do modelo, é IMPOSSIVEL que depois da aplicação da portaria 34 de 18 de março o sistema tenha subido para quase 85000 bolsas...Ele pode estar falando da aplicação inicial do dia 3, ai talvez seja verdade...Mas o que estamos discutindo agora é a portaria do dia 18, sobre a aceleração! Ou seja, mais uma tentativa de ludibriar a compreensão e apresentar números parciais ou falsos. A Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG) já tinha chamado atenção para esse problema da perda de bolsas na convergência final do modelo, em sua nota de 28 de fevereiro. Há muitos números estranhos ai, e de qualquer modo vocês vão ver abaixo que precisaríamos ver para onde estão indo essas bolsas, onde está acontecendo o milagre, pois nos nossos grupos e instituições as perdas são brutais (ele justifica isso dizendo que as visões são parciais, mais ao final da nota).


Em primeiro lugar, chamo atenção novamente que o problema não é tanto o número total de bolsas, mas sim a sua distribuição. De acordo com as portarias e sua implementação em 20 de fevereiro, realmente a perda no sistema deveria ser pequena. As nossas análises mostram perdas da ordem de 2% apenas, mas como nossos dados eram de 2018, eles não incluíam os cortes que já haviam sido feitos em vários momentos em 2019, de modo que os números iniciais reais seriam menores (diminuindo a perda relativa). Assim, é possível que as perdas com as portarias 18, 19 e 20 fossem realmente próximas a zero mesmo.

Entretanto, de saída já podemos ver o problema do modelo no sentido de que não há benefício para os PPGs de excelência ou privilegiando regiões mais carentes do Brasil, foi isso que mostramos na postagem. Isso por que, com os limites de ganhos e perdas, o que houve é que os cursos menores e mais novos ganharam poucas bolsas, enquanto os cursos maiores, mais antigo e mais consolidados, que em geral estão acima dos valores esperados pelas portaria 18, 19 e 20, tendem a perder muitas bolsas. Ou seja, as poucas bolsas que esses cursos recebem não vão, de fato, ajudar em curto-médio prazo, pois não mudam a realidade dos PPGs. Ao mesmo tempo, as perdas com certeza desestabilizam os PPGs consolidados, sem necessidade...


Entretanto, a situação com a portaria 34 do dia 18 de março é bem diferente, porque amplia as faixas de perda para até 50% (e os ganhos permanecem em geral em 10%, exceto para os PPGs nota 7 que passam a ter ganhos ilimitados – mais uma mentira, por definição – os limites são os valores esperados, que são baixos).


Não temos os dados consolidados de todo o Brasil, mas nas análises de convergência do modelo (que agora está bem mais próxima) vemos perdas de 18% a 20% nos Doutorados. Mas podemos pensar em alguns números, como exemplo. A UFG perdeu (em termos líquidos) agora 150 bolsas de mestrado e 78 bolsas de Doutorado (228 cotas de bolsas). Dos 43 doutorados da UFG, 26 receberam notas cotas de bolsas, mas estes são em geral PPGs novos e receberam em média 1,7 bolsas (2 cotas, arredondando). Por outro lado, os outros 17 doutorados perderam em média 7 bolsas! Dentre os cursos 5, 6 e 7, cursos consolidados, a média dos 6 PPGs que ganharam bolsas é de 3,5 cotas, e 50% desses cursos são Doutorados novos e que passaram para nota 5 na última quadrienal, há 2 anos atrás. Por outro lado, os 6 cursos que perderam bolsas de Doutorado são os doutorados mais antigos, que perderam em média 9 bolsas. A situação para os 67 mestrados é diferente e mais drástica...Dos 67 PPGs, 39 perderam em média 4,5 bolsas, enquanto os 26 que ganharam ou se mantiveram com as mesmas cotas tiverem, em média, um incremento de 1 bolsa. Esse é o jogo...


A UFG está entre as 20 primeiras Universidades do Brasil, variando um pouco de acordo com o ranking utilizado, e duvido que essas perdas sejam devido a seu baixo desempenho acadêmico como instituição. Na realidade acho que ela perdeu proporcionalmente pouco, isso porque a maior parte dos seus cursos foi criada há menos de 10 anos e possui poucas bolsas (e com os limites de perda, os valores absolutos não são muito grandes). Mas veja a situação em outras IES mais ou menos do mesmo porte, como UFSC e a UFPR, que anunciaram a perda de 572 e 597 bolsas, respectivamente.


Então, sem considerar mais informações, a não ser que a UFG, a UFSC e a UFPR sejam bastante atípicas, estamos falando realmente de perdas em torno de 20% para os mestrados e 15% para os Doutorados.


Uma outra amostragem que consegui fazer refere-se aos PPGs nos quais os membros do nosso Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia (INCT) em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio) orientam. O INCT é um dos programas de maior prestígio em termos de pesquisa e inovação do país e no nosso caso o EECBio é uma rede de pesquisa ampla, com dezenas de pesquisadores nas mais renomadas instituições de ensino e pesquisa do Brasil. O mesmo padrão descrito acima aparece em uma enquete rápida em 34 PPGs nos quais os pesquisadores do nosso INCT orientam. Passaram à categoria de "empréstimo" (ver a seguir) um total de 114 bolsas de Doutorado, de modo que perda "líquida", já descontando as 20 bolsas que foram recebidos por 6 dos 34 PPGs, foi igual a 19%. Para o Mestrado a situação foi similar, com uma perda até menor, de 16%. Mais uma vez, as perdas se concentram nos PPGs 6 e 7 (em média 5 bolsas de Doutorado por PPG).


De acordo com os principais indicadores estabelecidos – nota da avaliação e número de titulados – o modelo aponta se há, em determinado curso, falta ou excedente de bolsas. No segundo caso, as bolsas excedentes permanecem no curso a título de empréstimo, a depender do seu desempenho, essas bolsas poderão ser reincorporadas à sua origem.


Essa é mais uma ENORME mentira. A CAPES usa de fato a categoria “empréstimo” quando uma bolsa está ocupada (sendo usada por um discente) mas, por qualquer razão, o curso perdeu essa cota. Entretanto, a falácia aqui é que o SCBA da CAPES estava fechado até dia 20 de março, e os cálculos foram feitos em fevereiro. Como há uma grande concentração de defesas agora em março, abril, e os prazos de bolsas de 24 meses para Mestrado e 48 para Doutorado terminam agora. Portanto, esse empréstimo vai ser pago rapidamente. Vejam o meu exemplo aqui no PPG em Ecologia & Evolução da UFG. Na portaria do dia 3 de março perdemos 5 cotas de Doutorado (10% de 47 cotas, igual a 4,7, arredondando para 5), mas a perda se ampliou para 9 cotas com a revisão da portaria 34. Quando abri o SCBA no dia 20 de março, as cotas de 9 alunos que estavam encerrando suas vigências em fevereiro de 2020 (a maior parte já defendeu suas teses desde fevereiro) já apareciam como EMPRÉSTIMO, de modo que quando eu titulei esses alunos, as cotas desapareceram do sistema. Não devo mais nada à CAPES, mas ao invés de 47 cotas temos agora 38 (voltem à Figura acima). E vejam que já havíamos feito a seleção dos 10 alunos em dezembro (contando com as 10 cotas que estariam liberadas em março), e com as cotas anunciadas em 3 de março, apenas os 5 melhores classificados no processo seletivo teriam bolsa. Agora, com a portaria 34, só temos 1 bolsa para implementar para a turma de 2020 (e temos apenas 1 bolsa do CNPq, que está sendo liberada agora). Depois de todas as bolsas implementadas, vejam como fica a nossa cota, agora na Tela do Sistema de Bolsas da CAPES, o SCBA.





No final, temos 2 alunos com bolsa em 2020 (1 CNPq + 1 CAPES). No e-mail de encaminhamento do ofício do dia 18 a Diretoria de Bolsas e Programas (DPB) sinalizou a possibilidade de converter mestrados em doutorados, antes era possível fazer isso na proporção de 3 mestrados para 2 doutorados. Isso vai poder ajudar, porque de fato ganhamos 6 bolsas de mestrado (já que o nosso número de cotas de mestrado, em relação ao esperado pelo modelo, era pequeno, pois fomos gradualmente priorizando o Doutorado nos últimos anos). Deixamos 4 cotas de mestrado vazias, por enquanto, para tentar essa conversão. No PROEX é possível também utilizar recursos de custeio para pagar cotas adicionais (mas não da Demanda Social, para os cursos 3,4 e 5), mas não há perspectivas em relação à disponibilização desse recurso para 2020, ainda mais agora com a pandemia. Vejam também que mesmo com 38 bolsas ainda estamos acima do número esperado de 26, de modo que ainda perderemos 8 bolsas em 2021, e segue. E se convertermos cotas de mestrado em cotas doutorado, entramos nesse ciclo sem sentido de perder doutorados e reconverter as cotas (mas pelo menos resolvemos o problema dessa turma, sem perspectivas de novos alunos para 2021). Isso não está escrito, mas é a lógica...


Mas o Prof. Benedito diz que se o PPG pode melhorar seus indicadores e reduzir as perdas, com as cotas de empréstimo voltando ao PPG, como está no final desta frase que estamos comentando. Do que ele está falando? Ele não entende a dinâmica da agência e do SNPG que ele comanda? Isso é muitíssimo improvável (um eufemismo para impossível!) e é só mais uma tentativa de enganar e ludibriar as pessoas. Pelo modelo, isso pode ser feito se o PPG mudar de nota, aumentando os números-base, mas isso só vai acontecer, na melhor das hipóteses, no 2º. Semestre de 2021, quando forem publicados os resultados da nova avaliação quadrienal referente aos anos de 2017, 2018, 2019 e 2020. O outro fator é o IDH do município, que deve mudar pouco e, de qualquer forma, está fora do nosso controle (a não ser que nós desejemos que nosso município piore e muito a sua qualidade de vida para podermos aumentar o número-base; mas como eles pegaram dados de 2010, não sei qual é a tendência, mas de qualquer modo tudo isso é ridículo...). Finalmente, podemos pensar em aumentar a titulação, mas isso não é possível em curto prazo, pois envolve cálculo de médias por um período longo de 4 anos (foram usados dados de 2015-2018). Mesmo que a CAPES atualize isso, ampliando um ano (2016-2019), existe uma “inércia” forte e dificilmente um PPG vai mudar de faixa, porque os dados são basicamente os mesmos e o número de alunos defendendo um doutorado, na realidade, é determinado pela seleção do PPG 4 anos atrás! Ademais, essas faixas são muito amplas, de modo que, por exemplo, se na Ecologia & Evolução quisermos sair da faixa de titulação "média" e ir para a faixa de titulação "alta", teríamos que passar a ter mais do que 17 defesas por ano (nossa média atual está em torno de 11, e pode aumentar só um pouco se incluirmos 2019 no cálculo). Isso não acontece da noite para o dia e, de qualquer modo, como vamos fazer isso com as bolsas sendo reduzidas? Então, mesmo que seja possível (e não é...), essas mudanças ocorrem a longo prazo e, nesse tempo, os alunos atualmente com cotas emprestadas defendem e as cotas somem. Ou seja, esses EMPRÉSTIMOS são PERDAS, é preciso ter isso muito claro!

Ressaltamos que a adoção do modelo não vai retirar a bolsa de estudantes que têm, atualmente, o benefício. O Modelo, como qualquer outro que utiliza critérios isonômicos, trará reduções de futuras bolsas para uma parte dos cursos, como aqueles que já estão com nota 3 (o menor dos níveis) por três ou mais avaliações consecutivas, e elevará o quantitativo de auxílios a outros cursos, a exemplos dos considerados de excelência, com notas 6 e 7 na avaliação. O modelo corrige um cenário de intensa distorção.


Claro, se um PPG perdeu 15 bolsas (como temos um caso aqui na UFG com nota 5), e apenas 10 alunos estão defendendo agora em fevereiro ou março de 2020, o PPG perde de imediato essas 10 bolsa e CONTINUA DEVENDO 5 cotas à CAPES. Quando esses alunos terminarem, no meio do ano ou em 2021, essas bolsas serão removidas da cota do PPG. Além disso, como já mencionei, o modelo vai ser aplicada até a convergência, de modo que esse PPG vai perder mais cotas e a DÍVIDA com a CAPES aumentará...É isso!


Já comentei a situação dos PPGs 6 e 7, que terão, segundo a carta, seu quantitativo de bolsas elevado! Simplesmente MENTIRA, ponto final...Na área de Ecologia dentro do comitê de Biodiversidade, por exemplo, TODOS os PPGs nota 6 e 7, incluindo os PPGs das Universidades mais bem avaliadas do Brasil, como USP, UNICAMP e UNB, perderam cotas de Doutorado (há um única exceção, o PPG da UFBA, que por alguma razão já tinha um pequeno número de cotas de bolsas). Em geral, na área de Biodiversidade, um levantamento inicial, com algo em torno de 50-60% dos PPGs com Doutorados, mostra uma perda média de 4 bolsas, com um número um pouco mais alto (por volta de 5 bolsas) quando separamos os PPGs nota 6 e 7. Já mencionei acima o caso da UFG e do EECBio também.

De acordo com as portarias, os cursos de pós-graduação historicamente mal atendidos passam a receber mais bolsas. Por outro lado, aqueles que vinham recebendo, há anos, cotas em patamar muito fora da curva em relação aos padrões isonômicos, terão diminuição.


O problema é definir o “padrão isonômico”, pois o modelo é muito ruim principalmente porque os números-base são MUITO baixos e é difícil “escapar” deles pensando nos multiplicadores de IDH e titulação, porque as faixas são absurdas. É um engodo, como discutimos extensivamente na postagem original...


Entre os exemplos de aumento de bolsas estão os casos da Fiocruz, que recebeu um incremento de 73 bolsas de mestrado e de 85 de doutorado, igualmente a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que recebeu 211 novas bolsas de mestrado e 257 de doutorado, a Universidade de São Paulo (USP) com 257 bolsas de mestrado e 518 de doutorado e a Universidade de Campinas (Unicamp), que receberá mais 102 bolsas de mestrado, e 108 bolsas de doutorado.


Pode ser, parabéns para essas instituições. Mas vejam, a questão é qual a proporção desses números em relação ao total que essas instituições tinham? Muito pequeno...De qualquer modo, os cursos de Ecologia da UNICAMP e da USP perderam 6 e 4 bolsas de Doutorado, respectivamente. Aqui na UFG perdemos 9 bolsas, mas imagino que eles entendam que somos uma “instituição periférica”, perdida no meio da região Centro-Oeste...Mas o nosso PPG em Ecologia & Evolução da UFG é o único PPG nota 7 da região Centro-Oeste, se não considerarmos a UnB. Claro, pode ser que eles, de modo mais geral, considerem que Ecologia e Evolução são áreas não prioritárias, e que somos em geral “ciência degenerada”, faz sentido com as ações desse Governo e com as crenças do presidente da CAPES. Mas isso não está no modelo, de modo que a interpretação mais parcimoniosa é que o Presidente da CAPES simplesmente está mentindo mais uma vez. Mas não tenho os números gerais das instituições mencionadas...

A Fiocruz, por exemplo, teve aumento de bolsas nos seguintes Programas de Pós-Graduação (PPG): Saúde Pública (16), Biologia Celular e Molecular (14), Medicina Tropical (20) e Epidemiologia (18). São cursos que, neste momento de crise sanitária, decorrente do coronavírus, apresentam relevância ainda mais acentuada.


Essa resposta é “fascinante”, como diria o Sr. Spock...A portaria 34 publicada no dia 18 de março está datada de 9 de março e, certamente não foi escrita no mesmo dia (pode até ter sido, até porque está muito mal escrita e com erros). De qualquer modo, eles vão então usar a pandemia do covid19 para dizer que estão privilegiando a ciência brasileira? Infelizmente no dia 9 estava se falando muito pouco da pandemia, tínhamos “apenas” 30 casos confirmados no Brasil nessa data. E como já ressaltamos na postagem original, o modelo sempre foi esse, eles só aceleraram agora. Agora então esse é o nosso "sacrifício" para a ciência auxiliar a resolver a pandemia? É brincadeira?


Esses cursos, a exemplo de outros, receberam mais bolsas porque são cursos bem avaliados e têm alto índice de titulação. Historicamente vinham sendo fomentados com quantitativos desproporcionais em relação a outros cursos.


Sem comentários...Já está acima!


Não houve cortes. A rigor, a parcela de bolsas que deixa um curso de menor qualidade passa para cursos com melhores indicadores.


Sério? Já coloquei os argumentos antes, o que mostra que a carta está se repetindo de forma retórica e vazia...


Para todos os cursos, ocorreu uma aproximação das curvas do número de bolsas para padrões mais próximos de um patamar isonômico, cuja implantação sequer ocorreu completamente, uma vez que as normas do modelo previram pisos e tetos de movimentação. É disso que trata o ajuste de percentuais disciplinado pela portaria 34.


Isso é verdade, finalmente! O problema é, como já falei (de novo...) os números-base são muito baixos e esse patamar isonômico é baseado em um modelo ruim....


Entendemos que as reclamações relativas às mudanças de limites de piso e teto, estabelecidas pela portaria 34, são naturais, mas, com o devido respeito, revelam uma visão parcial do problema.


Visão parcial em que sentido? Eu não estou reclamando porque o PPG em Ecologia & Evolução perdeu 9 cotas de Doutorado...Eu estou reclamando porque a UFG perdeu 78 bolsas de Doutorado, nos cursos com melhor avaliação mais consolidados e que fizeram seu trabalho nos últimos anos, estou reclamando porque praticamente todos os PPGs da área de Ecologia e todos os PPGs associados ao INCT que coordeno perderam bolsas de Doutorado. E assim sucessivamente, vamos falar da UFSC, UFPR e UnB, que já se pronunciaram...Eu sinceramente não me vejo tendo uma visão parcial do SNPG, sei que há problemas na distribuição de bolsas etc, e discutimos isso na postagem anterior.


Se esses grupos ou instituições de alguma forma são atípicos, que a CAPES mostre realmente quais são as perdas em todo o sistema de forma clara e transparente, embora seja difícil acreditar em qualquer informação vinda da CAPES, considerando essa nota. Prefiro VER as planilhas que foram enviadas a cada Pro-Reitoria e a cada coordenação de curso de Excelência no PROEX e avaliar com meus próprios olhos. Espero que o FOPROP tenha energia para fazer esse levantamento diretamente com as instituições, pelo menos as mais importantes, e compilar os dados.

Por fim, ressaltamos que a Fundação está aberta ao diálogo com a comunidade acadêmica e à sugestões quanto ao aperfeiçoamento do modelo de concessão de bolsas.


Um pouco estranho, pois o diálogo requer abertura dele...Como ele continua insistindo nas qualidades do modelo e na efetividade de sua aplicação, , difícil falar em diálogo. Quantas instituições e grupos de pesquisadores já se manifestaram contra a Portaria 34? Ele não estava ciente quando publicou essa nota ontem à noite, dia 24?




Enfim, espero que tenha ficado claro, pelas comentários detalhados acima, que de repente a resposta mais curta seria suficiente...Weintraub e Aguiar simplesmente estão mentindo. Aguiar pelo menos sabe o que ele está fazendo e sabe que está usando argumentos falaciosos. Eu realmente não esperaria menos de alguém que defende a pseudociência.


Quando Aguiar foi indicado, apareceram várias críticas à sua conduta e à sua defesa do "Design" Inteligente, e estávamos todos preocupados se ele poderia querer impor visões criacionistas ou semelhantes. Mais uma vez, santa ingenuidade...O problema não é a questão técnica-científica "em si", e sim a atitude perante a evidência. A condução desse processo e as respostas de Aguiar mostram como ele é capaz de distorcer todas as informações a fim de enganar as pessoas e impor seu ponto de vista. Negacionismo e pseudociência, simples assim...






ATUALIZAÇÃO EM 06-04-2020


Continuando a "novela" da concessão de bolsas da CAPES em 2020, após toda a pressão da comunidade acadêmica que discutimos na postagem acima sobre a aplicação do modelo (descrito da postagem anterior por mim e por meu amigo Paulo Inacio Prado), de forma “disfarçada”, em um ofício comunicando a abertura do Sistema de Concessão de Bolsas (o SCBA), a CAPES informou que houve um “erro” no sistema e que estava devolvendo mais de 6000 bolsas em todo o Brasil!


Na realidade não houve erro algum, como pode ser constatado pelas postagens anteriores. O modelo foi aplicado exatamente como descrito (apesar dos problemas de redação e de clareza...) nas portarias de fevereiro e na portaria 34, sendo que esta último acelerou sua aplicação e fez com que as pessoas percebessem de forma mais clara os problemas e começassem a reagir! Mas Weintraub e Aguiar jamais assumiriam isso, ou seja, que recuaram diante dessa pressão e que tiveram a sensibilidade de reconhecer que prejudicaram realmente milhares de estudantes. Continuam postando mentiras e meias verdades no Twitter...


Mesmo com a "devolução" das cotas agora houve muito estresse, desânimo, incerteza e tomadas de decisões equivocadas por muitos alunos. Isso tudo sem nenhuma necessidade, bastaria que a CAPES tivesse discutido de forma mais honesta, clara e ampla com a comunidade científica e seus representantes (o FOPROP principalmente), o novo modelo e sua implementação!


Além disso, e mais importante, vamos ver a seguir que não estamos (espero) no último capítulo dessa novela. Como os coordenadores dos PPGs notas 3-5 não conseguem ver as telas do SCBA, acho importante que todos olhem com atenção.


Hoje abri o SCBA para ver a minha cota e realmente recebemos de volta as nossas 9 cotas de Doutorado. Implementei 7 das 9 bolsas, pois um dos alunos já tinha conseguido bolsa em outro PPG e ficamos com uma cota adicional oriunda da conversão de recursos de custeio do PROEX em 2019 (e que iríamos "devolver" agora). Ficamos assim com duas cotas ainda a serem preenchidas. (teremos que fazer provavelmente um novo processo seletivo).


Entretanto, se vocês prestarem atenção na tela do SCBA copiada abaixo, não recebemos realmente as cotas de volta, pois tínhamos 47 cotas (sendo 46 da cota usual e 1 convertida agora utilizando custeio). Então, o SCBA foi aberto para que pudéssemos colocar as bolsas que tínhamos para essa turma (e para os quais todos a grande maioria dos PPGs já tinha se programado), mas DE FATO o modelo foi aplicado, inclusive com a portaria 34.



Chequei então nas cotas de “empréstimos” e, para minha surpresa, agora temos 18 COTAS na forma de empréstimo... A soma de 38 + 18 não faz sentido (ficam 56), mas desconfio que a portaria 34 esteja sendo foi aplicada sucessivamente para o total de bolsas e perdemos então essas cotas de imediato (seria 9 agora e 8 ou 9 no próximo ano, possivelmente, se o modelo fosse aplicado gradualmente com os limites de 20%). Então, com essa dívida em termos de cota, só poderemos ter novos bolsistas de Doutorado em 2022, considerando o fluxo de alunos que temos (assumindo que vamos preencher essas 2 cotas ainda este ano).





Em resumo, não houve erro nenhum, apenas uma "retirada estratégica" no meio da crise da pandemia do covid19, mais uma conjunto de mentiras nos Twitter e mais uma tentativa de disfarçar as más intenções da adminstração da CAPES. Com certeza fiquei feliz em poder resolver o problema dos nossos novos Doutorandos, mas ainda temos que discutir seriamente a conduta da CAPES, o modelo e sua aplicação, bem como o modo como essa “dívida” com a CAPES será paga. A portaria 34 que acelerou o modelo ganhou até mais força, visto que os 20% são aplicados para o total dos 2 anos, mas pelo menos ganhamos algum tempo para isso...



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