• José Alexandre F. Diniz F

Doutorado “sanduíche”: um estágio, muitas experiências

Elisa Barreto Pereira

Doutoranda em Ecologia & Evolução

Universidade Federal de Goiás


Qual a relação entre sanduíche, ciência e pós-graduação? Essa pergunta pode parecer o começo de uma piada sem graça, mas na realidade, “sanduíche” é o nome dado no Brasil a uma modalidade de doutorado em que o estudante realiza parte de sua pesquisa em uma instituição no exterior.


Geralmente esse intercâmbio dura de seis meses a um ano e acontece no meio do período de doutorado. Portanto, é como se o período no exterior fosse o “recheio” do doutorado. E, convenhamos, geralmente o recheio de um sanduíche é a melhor parte! Pelo menos essa foi a minha experiência após passar dez meses do meu doutorado no Instituto Federal Suíço de Floresta, Neve e Paisagem (WSL) com financiamento do governo brasileiro via CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).


Como em todo sanduíche, o recheio pode variar bastante. Metáforas à parte, é comum ouvir relatos positivos e negativos sobre o doutorado sanduíche e é normal que isso traga ansiedade e até um certo medo para os doutorandos. Será que vale a pena fazer um estágio no exterior? Como garantir que a experiência será positiva? Saber uma segunda língua (geralmente o inglês) é mesmo muito importante? Quão difícil é se ajustar culturalmente ao novo local? Os questionamentos são inúmeros e eu diria que as oportunidades que se abrem com o doutorado sanduíche também são. Minha experiência no exterior foi superpositiva e enriquecedora, e é muito claro para mim que o período que passei na Suíça foi um divisor de águas tanto na minha vida acadêmica quanto na vida pessoal. Quero aqui compartilhar um pouco do que aprendi com essa experiência.





A primeira pergunta que todo mundo me faz, e que eu também fiz a muitos colegas quando decidi tentar uma bolsa de doutorado sanduíche, é: vale a pena? Considerando minha experiência e a da maioria dos meus colegas, a resposta é um sonoro SIM!!! Vários estudos mostram que a mobilidade de pesquisadores para o exterior tem um grande impacto positivo tanto na carreira pessoal do cientista quanto na instituição e no país de origem, principalmente por fomentar a construção uma rede de interação científica entre várias nações (vejam por exemplo as análises interessantes de Sugimoto e colaboradores (2017) e de Petersen (2018), mostrando o impacto da mobilidade dos pesquisadores na ciência).


Pude perceber isso com muita clareza ao ver o quanto minha estadia no exterior rendeu e ainda rende diversas parcerias entre o Brasil e a Suíça. A rede de interação que começou pequena (meu orientador brasileiro, minha orientadora na Suíça e eu) se expandiu e agora inclui outros pesquisadores tanto da minha universidade de origem quanto da instituição onde eu estava no exterior. Ou seja, um país que investe em internacionalização não está investindo somente no pesquisador que está sendo enviado para o exterior, ele está investindo no sistema educacional como um todo, com inúmeros desdobramentos.


De fato, penso que o maior benefício que um doutorado sanduíche pode oferecer é a conexão com outros cientistas e instituições, o famoso networking. Criar uma boa rede de conexão é fundamental em vários aspectos da vida pessoal e profissional, e para um cientista isso não é diferente. Durante o sanduíche o aluno de doutorado tem uma oportunidade fantástica de conviver e ser orientado por um pesquisador que é referência mundial na área, de conduzir suas pesquisas em uma instituição diferente, de participar e divulgar seu trabalho em congressos internacionais, de assistir aulas e apresentações de pesquisadores de vários lugares e interagir com eles. Confesso que tudo isso dá muito frio na barriga, mas é extremamente recompensador! Ter a oportunidade de conhecer pessoalmente e discutir com pesquisadores cujo trabalho eu sempre admirei me fizeram sentir pela primeira vez mais como uma cientista do que como uma aluna. Receber o reconhecimento dos meus pares me fez sentir parte da comunidade científica, como se a partir de agora eu estivesse no mapa. E essa sensação de pertencimento veio acompanhada de uma autoconfiança que eu não imaginava possível. Mas para um networking de sucesso não basta apenas apertar mãos, é necessário de fato conhecer as pessoas e se fazer conhecer. Meus maiores aliados no estabelecimento dessas relações durante o doutorado sanduíche foram meus orientadores. Claro, é perfeitamente possível fazer essas conexões por conta própria, mas é muito mais fácil quando se é apresentado por alguém que admira seu trabalho e acredita no seu potencial, especialmente quando é alguém bem relacionado na comunidade científica.


Fazer um intercâmbio nos tira completamente da nossa zona de conforto e é fácil se sentir sobrecarregado com a série de mudanças que ocorrem de uma vez. Das muitas conversas que tive com colegas que também fizeram o doutorado sanduíche, dois fatores parecem aumentar muito as chances de uma experiência positiva: a escolha do orientador e do lugar de estudo. Para isso, é importante ponderar vários aspectos como o currículo e a disponibilidade do pesquisador, o grupo de pesquisa, o potencial de networking, o projeto a ser executado, a infraestrutura do instituto de pesquisa, o país e a cidade. Se possível, o ideal é conversar com pessoas que conhecem o pesquisador e/ou o instituto e discutir de antemão sobre o projeto, as expectativas com a orientação e com o intercâmbio. Sou muito grata por ter tido a oportunidade de fazer meu doutorado sanduíche com uma pesquisadora que é referência na minha área de pesquisa, que me acolheu muito bem, que me orientou cientificamente, que me apresentou para várias pessoas e que se preocupou com meu bem-estar e com meu futuro acadêmico. Essa escolha muito bem acertada só foi possível com o auxílio do meu orientador brasileiro, que ponderou todos esses aspectos e me indicou para a pesquisadora que me orientou no exterior.


Outra recomendação de ouro que não se aplica apenas ao doutorado sanduíche é: faça um bom trabalho! Na maioria dos países, ser aluno de doutorado é uma profissão. Isso significa ter um contrato de trabalho com a universidade ou instituto de pesquisa, ter direitos trabalhistas e ter cobranças similares as de uma empresa, com prazos e metas bem definidas e cobrados à risca (no Brasil a situação é um pouco diferente em termos funcionais e de contrato de trabalho, pois os doutorandos recebem uma bolsa, mas de fato a relação profissional e de pesquisa deveria ser a mesma...). Executar um bom trabalho durante o doutorado sanduíche, estabelecer um bom relacionamento e causar uma boa impressão não apenas no orientador, mas também nas outras pessoas que conhecer, pode dar origem a novas oportunidades de trabalho e parcerias. Tudo isso fica muito mais fácil quando já se sai do Brasil com uma boa experiência de pesquisa e um domínio do projeto a ser desenvolvido. Dependendo do caso, ir para o exterior com os dados já coletados ou pré-organizados libera mais tempo para discutir ideias, fazer análises e escrever. No meu caso, em função disso já consegui retornar do sanduíche com um trabalho aceito em uma das melhores revistas científicas da nossa área e outro trabalho praticamente finalizado!


Além disso, um aluno de intercâmbio não está representando apenas a si mesmo, mas também sua instituição e, até mais importante, está representando seu país de origem. O doutorado sanduíche é uma oportunidade fantástica de aumentar a visibilidade internacional da educação brasileira e das pesquisas feitas aqui. Neste quesito, me parece que estamos indo muito bem! A ciência brasileira é de altíssima qualidade e somos muito bem vistos e valorizados no exterior. Na Suíça, eu ouvia frequentemente vários elogios sobre os quão esforçados, inteligentes e eficientes os brasileiros são. É importante destacar que a maioria das oportunidades de doutorado sanduíche para alunos brasileiros são financiadas completa ou parcialmente por agências de fomento federais ou estaduais, que oferecem uma bolsa mensal, auxílio instalação, seguro de saúde e passagem aérea. Oportunidades como essa não são assim tão comuns em outros países.


Mas, para tudo isso, o inglês é fundamental! Pelo menos para quem estuda alguma STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). Nos últimos anos as agências brasileiras de fomento têm exigido comprovação de proficiência em inglês ou na língua nativa do país em que se pretende ir. Conseguir se comunicar em inglês facilita desde atividades acadêmicas, como debater ideias, assistir à palestras, participar de reuniões de laboratório, ler e escrever artigos e ser mais participativo; até atividades do dia a dia, como fazer amizades, resolver burocracias, encontrar um lugar para morar, utilizar transporte público... e não vou mentir, no começo é exaustivo se comunicar em outra língua o tempo todo. Isso sem contar o nervosismo e a inibição de conversar em uma língua que não é a nativa. No meu caso eu tenho a impressão que o nervosismo de conversar em inglês foi amenizado porque eu estava em um país cujo inglês também não é a primeira língua e quase todas as pessoas que eu convivi também estavam passando pelo mesmo esforço. A grande lição que tirei de toda essa experiência de falar em outra língua o tempo todo é que o importante é se comunicar! Cometer um erro gramatical ou ficar tímido é normal. O importante é estabelecer a comunicação: entender e se fazer entendido. Aprimorar o inglês e perder a inibição de se comunicar em outra língua é um dos objetivos do doutorado sanduíche! Portanto, apesar de saber inglês ajudar em uma adaptação mais suave, é igualmente importante não deixar com que o medo de se comunicar em uma segunda língua te impeça de viver a experiência fantástica que é fazer o doutorado sanduíche.


Além de todas essas vivências acadêmicas, o doutorado sanduíche também expande os horizontes em termos culturais. Viver em um outro país significa imergir em uma outra cultura, conhecer seu povo, sua comida, seus costumes, sua natureza, sua política, seus problemas e soluções. Na Suíça eu pude ver de perto um belo exemplo de como a reciclagem funciona quando toda a população se interessa pela causa. Todo mundo separa o lixo reciclável em vidro (por cor!), alumínio, papel, papelão, PET e outros tipos de plástico e os destina corretamente em cada uma das lixeiras específicas para cada material. A reciclagem parece funcionar bem porque o engajamento do suíço é admirável, mas também um pouco porque tudo o que não é reciclado tem que ser colocado em uma sacola específica da prefeitura e ela custa bem caro! Outro interessantíssimo sistema suíço que parece funcionar bem é o sistema político. A Suíça é o único país de democracia semidireta, em que toda sua população participa direta e ativamente nas tomadas de decisão (vale a pena uma pesquisada no google). Dentre todas as maravilhosas experiências culturais que tive na Suíça - e aqui eu incluo a pontualidade, o chocolate, o queijo e os Alpes - a melhor foi compartilhar com os suíços a paixão deles pela natureza e aproveitar ao máximo tudo o que a natureza tem para oferecer durante as quatro estações do ano: trilhas na primavera e no outono, passeios de trenó e snowshoeing no inverno e natação nos rios e lagos durante o verão.





Em resumo, gostaria de enfatizar que em um contexto político como o vivenciado no Brasil nos últimos anos, é de extrema importância que a gente reflita e reconheça os muitos benefícios oferecidos por programas de internacionalização científica como o doutorado sanduíche. Essa modalidade de doutorado tem um papel central em estimular a colaboração internacional entre pesquisadores, divulgar o excelente nível de pesquisa e educação das universidades brasileiras, contribuir para a formação e capacitação de recursos humanos e para a inserção de jovens pesquisadores no ambiente acadêmico internacional.





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