• José Alexandre F. Diniz F

A Crise na Universidade Brasileira em 2019: o que podemos fazer?

Atualizado: 26 de Jul de 2019

Temos tido, nos últimos anos (e particularmente nos últimos 6 meses...), uma situação extremamente complicada e de certo modo paradoxal no cenário da Educação Superior Brasileira. Por um lado, temos um claro crescimento quantitativo e qualitativo do ensino superior no Brasil, com uma grande expansão do sistema federal de ensino, associada a um aumento na inserção dos pesquisadores brasileiros na comunidade científica internacional, fazendo pesquisa de alta qualidade. Por outro lado, temos uma grande instabilidade econômica e social, a partir de uma polarização cada vez maior no espectro político, que se manifesta na forma de diversos retrocessos em termos de costumes e, mais importante no contexto deste trabalho, por uma crise na própria credibilidade da ciência (e esse é um fenômeno em escala mundial e que não está restrito ao Brasil). Essa crise parece estar, por sua vez, aparentemente associada a uma dificuldade crescente de filtrar a enorme quantidade de informação que chega pelas redes sociais e pela mídia de modo geral, tanto em função do simples volume quanto pela questão da frágil base educacional da população brasileira de modo geral. Com isso, fecha-se um ciclo que tem tornado difícil a manutenção do sistema nacional de ciência e tecnologia e do ensino superior público no Brasil.


É preciso entender de forma ampla esse paradoxo e tentar contextualizar sua origem, o que exige por sua vez a compreensão de uma série de outros aspectos e de outros termos e conceitos que têm aparecido com tanta frequência na mídia e nas redes sociais. Existe uma quantidade enorme de informação circulando sobre ciência, tecnologia, inovação e educação de modo geral, especialmente por meio da internet. Em muitas ocasiões as informações são passadas na forma de estatísticas e números, mas nós simplesmente não percebemos que essas estatísticas podem não fazer muito sentido para a maioria das pessoas. A minha percepção é que muito da crise atual, das críticas à Universidade como um todo e desse paradoxo sobre educação e ciência no Brasil se deve a uma série de incompreensões sobre o que é a Universidade e como ela funciona, quais atividades são de fato desenvolvidas ali. Se isso é verdade, acho que nós, docentes e pesquisadores brasileiros, temos que usar nossa experiência para tentar mostrar para a sociedade o que é a Universidade, o que é ciência, para que ela serve, enfim, porque ela existe...Temos que tentar explicar, da forma mais simples e direta possível, algumas questões ligadas à Universidade brasileira e à pesquisa científica no Brasil, e à própria ciência como atividade humana...Talvez essa seja uma visão ingênua, e talvez fosse melhor pensar nessa explicação para a origem dos problemas mais como uma esperança ou expectativa...Porque se for isso, a solução pode ser um pouco mais simples (e a alternativa é bem deprimente...).


Há um quantidade enorme de informação sobre ciência e tecnologia na internet, por exemplo, principalmente no que se refere à temas de importância econômica ou para nossa vida diária (especialmente saúde e ambiente), na forma de blogs, vídeos etc. Há muita coisa também sobre “curiosidades” cientificas sobre a natureza, por exemplo, desde questões amplas sobre cosmologia, como a origem do Universo e o “Big Bang”, até sobre a vida sexual dos insetos. Mas de fato tenho a impressão que se fala relativamente pouco sobre como, onde e quando todo esse conhecimento científico foi gerado. Isso pode ajudar a explicar algumas coisas...


Vamos pegar um exemplo em principio bem simples sobre a origem do conhecimento científico. Vamos supor que você leu ou ouviu um professor ou gestor de uma Universidade pública dizer que a sua instituição produziu, digamos, “...3000 artigos científicos por ano em revistas de alto impacto” (e encontrei algumas variantes de frases semelhantes a esta recentemente, motivadas por críticas e ataques à Universidade pública). Entender essa afirmação aparentemente simples e objetiva, que é transmitida no sentido de valorizar a instituição, exige uma série de conhecimentos prévios para que possa efetivamente ser compreendida. Por exemplo, o que é um “artigo científico”? O que é uma “revista de alto impacto”? Que impacto? Porque esse docente ou gestor está falando de artigos científicos para avaliar uma Universidade (afinal, o papel das universidades não é formar biólogos, médicos, advogados, engenheiros, professores etc?). Esse é um problema de compreensão básica da informação. Além disso, temos um problema de referência, nesse caso em particular: 3000 é muito ou pouco? Com o que podemos comparar esse número? Mais básico ainda, o que é uma Universidade pública, ou porque chamar atenção nessa afirmativa para o fato de que essa Universidade é pública? Assim, essa frase só é simples e objetiva para aqueles que estão na Universidade e trabalhando com pesquisa...


Muitas vezes não é difícil, com um pouco de paciência, encontrar as respostas para algumas dessas perguntas, pois temos muitas informações disponíveis hoje (mas nem sempre são informações de boa qualidade, então temos sempre que estar atentos à confiabilidade das fontes...). Mas mesmo assim temos alguns problemas. Primeiro, essa informação é desorganizada e está dispersa, é difícil mesmo entender e fazer as conexões corretas! Segundo, e acho que mais importante, precisamos ter alguma base conceitual para entender a informação. Em geral, achar a informação por si só não é suficiente...


Vamos pensar em outro exemplo: os currículos de todos os pesquisadores e professores universitários do Brasil são públicos e estão disponíveis por meio da chamada “Plataforma Lattes” do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq (ver www.lattes.cnpq.br). Eu consigo visualizar facilmente esse currículo e talvez até entender qual a área de atuação (científica) do docente ou pesquisador, mas o que eu vou olhar nesse currículo para poder avaliá-lo como cientista? Como eu vou interpretar as informações que estão lá? O que elas significam? Realmente são muitas perguntas...


Recentemente o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou o argumento de que, como um docente em uma Universidade Federal ganha entre R$ 10.000,00 e R$ 20.000,00 (?) e ele só está em sala de aula apenas durante 8 horas (que de fato é o mínimo exigido pela LDB – a Lei de Diretrizes e Bases da Educação), na verdade seria como se ele ganhasse R$ 140.000,00. De fato ele estava então questionando o que faz um docente em uma Universidade (e assumindo que os docentes não fazem mais nada além de dar aula; veja aqui um vídeo com uma rápida reflexão sobre o que fazem os docentes além da sala de aula). Será que, ao acessar um curriculum lattes, você conseguiria decidir se a conjectura do ministro Weintraub é verdade ou falsa? Vamos discutir em tempo o que faz um docente na Universidade (ou pelo menos o que ele poderia fazer...), mas esse é apenas um entre vários ataques, um entre vários que precisam de uma resposta! Esse é um exemplo claro em que a defesa é mostrar para a sociedade o que fazemos na Universidade e na Ciência.


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