• José Alexandre F. Diniz F

O pequi é nosso...por enquanto!


Em colaboração com


Luis Mauricio Bini


Rhewter Nunes


Mariana Pires de Campos Telles


Levi Carina Terribile



Levi Carina Terribile (acima, à esquerda) é professora na Unidade Acadêmica Especial de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Jatai, Rhewter Nunes (abaixo, centro) é bolsista DTI (Pós-Doutorado) associado ao INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade, Mariana Pires de Campos Telles (abaixo, à esqueda) é Profa. no Departamento de Genética da UFG e na Escola de Ciências Agrárias e Biológicas da PUC-GO, e Luis Mauricio Bini (à direita) é professor do Departamento de Ecologia da UFG.





Há alguns meses atrás, em meio à segunda onda da pandemia da COVID-19, aconteceu um incidente político curioso envolvendo o Estado de Goiás. Houve uma certa “disputa” entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o deputado Federal Marcelo Freitas (PLS-MG) e que apareceu brevemente nas manchetes de alguns jornais locais. Freitas apresentou um projeto de lei propondo o título de “Capital Nacional do Pequi” ao município mineiro de Montes Claros. Isso causou uma reação do Governador, que rapidamente acionou a bancada de representantes de Goiás na Câmara Federal para lidar com o problema. Segundo ele, isso seria um absurdo, já que todos (os goianos) sabem que o Pequi é o símbolo de Goiás. Em sua conta no Twitter, o governador Caiado disse no início de fevereiro que:


"Não tem base essa história de um deputado mineiro querer transformar Montes Claros (MG) na capital do pequi. Pequi está no DNA goiano. Muito mais que símbolo de nossa culinária, faz parte de nossa cultura".


E continuou dizendo que acionou o deputado José Nelto (Podemos-GO) para mobilizar a bancada goiana no Congresso Nacional, já propondo em tom de brincadeira um acordo:


"Já vamos fazer um acordo aqui: a gente deixa o 'trem' e o pão de queijo pra vocês mineiros, e, em troca, ninguém mexe no nosso pequi. Combinado?".


Então, brincadeiras à parte, sem dúvida o assunto é aparentemente importante, pelo menos importante o suficiente para causar uma disputa política no meio da segunda onda da pandemia.


O “pequi” é, na realidade, o fruto do pequizeiro (ou “pé de pequi”), uma árvore de grande porte típica da região do Cerrado do Brasil, mas cuja distribuição se expande um pouco mais para alguns locais no norte e nordeste do Brasil, ramificada, de caule tortuoso e aspecto escamoso. “Pequi” é um nome comum empregado aos frutos de espécies do gênero Caryocar e, dentre essas, Caryocar brasiliense (a espécie que ocorre em Goiás e Minas Gerais) é a mais popular. Em alguns estados (Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso), a polpa do pequi é bastante utilizada na culinária típica, de forma in natura ou de forma processada ou minimamente processada, como óleos, licores, picolés e conservas. Desde 2016 está listada como uma das espécies Flora Brasileira que tem valor econômico atual ou potencial. Estima-se que, em 2018, apenas a comercialização dos frutos e dos “caroços” de pequi tenha gerado algo como R$ 4,2 bilhões. Porém, essa planta possui uma riqueza de usos que vai além da culinária. Já foram relatadas na literatura científica várias propriedades medicinais potenciais, como antibiótico, cicatrizante e proteção gastrointestinal. Além disso, também há relatos do uso do óleo de pequi na indústria de cosméticos e na flotação de minérios (processo de separação de misturas necessário para a extração desses minérios).





Uma revisão recente da literatura científica sobre a família do pequizeiro (Caryocaraceae) mostra que a espécie Caryocar brasiliense tem sido estudada sob vários aspectos, inclusive quanto às suas propriedades medicinais e físico-químicas, aspectos agronômicos e alimentícios, aspectos ecológicos e sobre a sua importância para comunidades tradicionais e povos indígenas.


O pequi tem uma ampla distribuição na região central da América do Sul, abrangendo principalmente o bioma Cerrado. Entretanto, mesmo que a distribuição do pequizeiro seja bem ampla, aparentemente a sua utilização na culinária é mais restrita à Goiás e Minas Gerais, Tocantins, talvez um pouco no Mato Grosso, que concentram mais de 60% do que é extraído (embora em Minas Gerais apenas duas regiões concentram a produção – Norte de Minas e Jequitinhonha). Em relação à produção tecnológica, 59 patentes foram registradas para a espécie de pequi que ocorre no Cerrado, segundo informações presentes na base de dados Scopus. A grande maioria dessas patentes (57 delas, cerca de 96,61%) foi registrada nos últimos dez anos, indicando que a obtenção de produtos tecnológicos a partir do pequi está em franca expansão. Um dos projetos do nosso INCT em "Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade", com financimento do CNPq e da FAPEG/GO, envolve justamente a modelagem de distribuição e associação de padrões genéticos e ecológicos do pequizeiro, a partir da análise de dados genômicos e respostas adaptativas à mudança climática!


Certamente não faz muito sentido biológico ou ecológico pensar que uma espécie de animal ou de planta seria “goiana” ou “mineira” (divisões e convenções sociopolíticas) uma vez que as distribuições geográficas das espécies são definidas por múltiplos fatores ambientais e biológicos. De modo geral, o bioma reflete um pouco melhor os limites das distribuições geográficas, mas mesmo assim é comum encontrarmos espécies com distribuição restrita dentro de um bioma. Entretanto, além dos critérios relacionados com herança cultural (que não trataremos aqui porque não somos especialistas no tema), podemos utilizar análises ecológicas para contribuir com o incidente político relatado acima e pensar em algumas outras implicações...


Uma primeira ideia seria fazer um levantamento das ocorrências do pequi, utilizando os diversos bancos de dados disponíveis. A partir delas, podemos confeccionar um mapa com esses pontos, como vemos abaixo.


Fica claro, como colocamos anteriormente, que a distribuição do pequizeiro cobre tanto a região de Goiás quanto a região mais oeste e noroeste de Minas Gerais. Entretanto, esses registros são apenas uma aproximação inicial sobre a distribuição, tanto porque não são necessariamente “exaustivos” (ou seja, os registros são apenas amostras, e às vezes enviesadas, de todos os locais onde a espécie pode ocorrer) quanto porque não indicam a abundância da espécie. Esse último ponto é importante porque embora a espécie ocorra em uma determinada área, digamos, mais no extremo de sua área de distribuição geográfica, ela pode ser rara ali, ou seja, sua abundância é baixa. Não é muito fácil fazer levantamentos detalhados de abundância em grandes escalas geográficas, por causa das dificuldades operacionais e logísticas, mas podemos utilizar técnicas que podem ajudar nesse ponto.


Uma dessas estratégias consiste em usar os dados de ocorrência para construir modelos de distribuição geográfica a partir de características ambientais (usualmente climáticas), que chamamos de "modelos de nicho" ou "modelos de distribuição potencial" (ENMs, da sigla em inglês Ecological Niche Models), sinteticamente apresentada na figura abaixo (vejam também uma postagem anterior aqui no “Ciência, Universidade e Outras Ideias” sobre o tema). Há muitos detalhes técnicos envolvendo os ENMs, claro, mas eles têm sido amplamente discutidos e aplicados nos últimos 15-20 anos, sendo um dos tópicos mais explorados em ecologia, evolução e biologia da conservação atualmente, por várias razões. A ideia geral dos ENMs é verificar as associações entre os dados de ocorrência e ambientais (usualmente climáticas) para projetar a distribuição geográfica da espécie de forma contínua no espaço e, então, estabelecer quais as regiões seriam ambientalmente mais adequadas à sua sobrevivência.






Quando aplicamos os ENMs aos dados de ocorrência do pequizeiro encontramos o mapa abaixo, no qual as regiões mais vermelhas indicam regiões mais "adequadas" em termos de condições ambientais utilizadas no modelo (e podemos usar para avaliar melhor isso uma medida de "adequabilidade", que nesse caso varia de 0 a 1, sendo 1 a adequabilidade máxima). Podemos ver que Goiás concentra mais regiões de elevada adequabilidade ambiental para o pequizeiro, principalmente na região mais ao sul do Estado.



Em geral, a média da adequabilidade em Goiás de 0,74, enquanto em Minas Gerais ela é igual a 0,67. A adequabilidade pode estar correlacionada com a abundância, tanto no caso específico do pequizeiro, a partir de alguns dados de coleta, quanto em um contexto mais geral. Claro, como Minas Gerais é um Estado maior, tanto em área quanto em número de municípios, a adequabilidade total (a soma nos vários municípios) pode até ser maior do que Goiás, o que poderia ser um ponto importante a se considerar (mas a disputa estaria assim no nível de Estado e não de uma cidade ou município em particular e, de qualquer modo, as diferenças culturais na utilização do pequi estão concentradas mais à oeste de Minas também).


Distribuição das adequabilidades nos municípios de Minas Gerais (vermelho) e Goiás (verde). Há muito mais municípios em MG, com adequabilidades variando entre 0.15 e 0.96, com média igual a 0.67. Em Goiás, as adequabilidades variam entre 0,5 e 0.85, com média igual a 0.74. O histograma de Minas reflete o maior número de municípios no Estado.


Bom, essa seria então uma maneira de resolver o conflito entre o governador Ronaldo Caiado e o deputado Marcelo Freitas. Poderíamos dizer, a partir dos ENMs, que o pequizeiro é "mais goiano que mineiro", problema resolvido a favor de Ronaldo Caiado! Se quisermos refinar a discussão (apesar de algumas limitações conceituais), poderíamos dizer que a adequabilidade em Montes Claros (igual a 0.736, bem próxima à média de Goiás) está “no meio” da distribuição estatística das adequabilidades no Estado de Goiás (figura abaixo). Então, se Montes Claros merece o título de “capital do Pequi”, vários outros municípios de Goiás também poderiam reivindicar esse mesmo título (e mesmo outras cidades até em São Paulo, mas aí talvez faltem as questões culturais e econômicas ligadas ao uso efetivo da espécie).



Distribuição das adequabilidades nos municípios de Goiás, mostrando a posição de Montes Claros de MG dentre estes (seta vermelha).


Mas esperem, tem algo bem interessante que podemos fazer ainda com esses dados. Muito do interesse nos ENMs está no fato de que, uma vez que temos um modelo de distribuição da espécie a partir das características ambientais, podemos tentar avaliar como a mudança no clima poderá mudar essa distribuição geográfica no futuro! Apesar da insistência dos negacionistas, temos um problema sério com mudanças climáticas em escala global, com impactos potenciais em muitos padrões biológicos que, por sua vez, irão afetar a espécie humana.




No caso do pequizeiro, a projeção do ENM apresentada no mapa acima à direita mostra que, em 2080, as condições climáticas mais favoráveis para a distribuição do pequizeiro terão se deslocado para leste e sudeste, com uma provável diminuição da distribuição geográfica em geral e regiões de maior adequabilidade no leste de Minas Gerais, já próximo ao Espírito Santo e norte do Rio, e com grande redução de adequabilidade em Goiás, oeste de Minas e São Paulo. A adequabilidade média em Goiás se reduz de 0,74 para 0,61 enquanto a adequabilidade de Minas Gerais muda menos e passa de 0,67 para 0,69 (se tornando maior do que a de Goiás, portanto...). Em resumo, a mudança pode ser melhor visualizada na figura abaixo, com as médias e os desvios-padrao.





Então, alguma cidade no leste de Minas poderia tranquilamente reivindicar o título no futuro, sem competição! Ou seja, esse título teria que ser disputado então ano a ano, década a década, pois de fato as distribuições geográficas são dinâmicas ao longo do tempo, especialmente por causa da ação antrópica sobre o clima!


Alguns podem pensar, nesse sentido, que teremos poucas diferenças na distribuição em geral e isso pode se resumir a uma mudança relativamente "inofensiva" (embora possa frustrar as discussões entre Ronaldo Caiado e Marcelo Freitas). Como o pequizeiro é uma espécie de ampla distribuição e com limites de tolerância amplos (que atualmente já ocupa uma área geográfica enorme), ele não será extinto, em princípio. Entretanto, como nosso amigo João Carlos Nabout e colegas mostraram em um trabalho publicado em 2011 na “Natureza e Conservação” (atualmente Perspectives in Ecology and Conservation), existem algumas correlações importantes que não podem ser esquecidas. O que Nabout e colaboradores mostraram é que a adequabilidade do pequi está diretamente correlacionada à sua produção em nível de município, segundo dados do IBGE. Ou seja, mesmo que haja alguma possibilidade de aplicar técnicas agrícolas mais sofisticadas para essa espécie, a maior parte da geração de recursos hoje está em uma atividade extrativista. Mais importante, há uma correlação negativa (embora baixa) entre essa produção e o PIB dos municípios, de modo que, em termos relativos, a produção advinda do extrativismo do pequi representa uma maior fatia do PIB dos municípios mais pobres em termos proporcionais. Portanto, podemos dizer que um deslocamento da distribuição do pequizeiro para leste por causa de mudanças no clima vai reduzir a produção e aumentar a pobreza nesses lugares! Isso demonstra um potencial impacto socioeconômico das mudanças climáticas, algo efetivamente importante e que não se restringe à uma questão de "bichos e plantas", na opinião de alguns...


Além disso, vejam que não incluímos, nesse modelo e em sua projeção para o futuro, os efeitos da perda de habitat e de regiões nativas de Cerrado. Mesmo que possamos argumentar que os pecuaristas e agricultores não irão destruir o pequizeiro (já que ele é útil de qualquer forma), ele pode ser afetado por dificuldades de reprodução e dispersão, já que seus polinizadores e dispersores de sementes poderão ser mais diretamente afetados pela perda de habitat e pelo clima. Com a ausência (ou a baixa presença) de dispersores naturais, a dispersão das sementes de pequi muitas vezes é feita principalmente via gravidade, gerando uma concentração de indivíduos aparentados muito próximos geograficamente. No máximo, o que teremos é uma dispersão mediada pelos humanos, em processos mais locais ou esporádicos de produção de mudas (que, por sua vez, têm os seus problemas em termos de genética e demografia). De qualquer modo, na melhor das hipóteses, são muitas incertezas...


Então, para satisfação do governador Ronaldo Caiado, poderíamos dizer atualmente que o "...pequi é nosso"! Mas, como vimos acima, só por enquanto!!! Temos que trabalhar duramente para tentar minimizar e mitigar o efeito da mudança climática enquanto há tempo, se é que ainda há tempo! Isso inclui pensar de forma sustentável nos mais diferentes aspectos de nossa vida, eliminar a influência nefasta dos negacionistas e do setor produtivo ganancioso e com uma visão limitada da realidade, adotando uma visão ao mesmo tempo mais científica e mais humanista para lidar com tantos problemas que ameaçam o futuro da Humanidade!





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