• José Alexandre F. Diniz F

Mar sem fim...

Atualizado: 24 de Nov de 2020

Chegamos, em meados de novembro de 2020, há quase 9 meses de pandemia em Goiás e na maior parte do Brasil. Sem dúvida estamos todos cansados do isolamento e, embora cada indivíduo reaja de forma única à pandemia, estamos psicológica e emocionalmente afetados, em maior ou menor grau, por toda essa situação. Falamos em “cansados” na falta de uma expressão melhor, não sei se de fato é a mais adequada. Talvez a maior parte da sociedade tenha simplesmente “desistido” da pandemia e cada vez mais vemos pessoas que passaram a sair de casa, frequentar os bares e restaurantes, ir a shows e eventos (além dos muitos comícios relacionados às eleições municipais). Apesar das medidas de segurança e contenção da COVID-19 continuarem vigentes, é difícil avaliar o quanto essas medidas realmente estão sendo seguidas e, portanto, qual a sua efetividade a partir do momento em que há um maior número de contatos diretos entre as pessoas. Na verdade, as autoridades de saúde e o Governo de modo geral, nas diferentes instâncias e em meio a embates e grandes interesses políticos e econômicos, têm gradualmente flexibilizado as medidas de distanciamento social nos últimos 2 ou 3 meses em todo o país. Desse modo, não podemos culpar a sociedade como um todo por diminuir o isolamento, inclusive porque talvez muitas pessoas se sintam também seguras em retornar a muitas dessas atividades, achando que está tudo bem.


Então, dadas essas flexibilizações, não é de modo nenhum surpreendente que nesses últimos 10-15 dias tenhamos tantas notícias em toda a mídia sobre a chamada “2ª. onda” da COVID-19 no Brasil, na esteira do que vimos na Europa (e em parte nos Estados Unidos). Gradualmente começaram a chegar notícias, ainda em outubro, sobre a França implementando toque de recolher, a Espanha envolvida em disputas sobre um novo lockdown, dentre tantas outras. Mas, do mesmo modo que aconteceu no início da pandemia em fevereiro e março, parece que o Brasil simplesmente não vai prestar muita atenção ao que acontece no resto do mundo. Apesar da situação epidemiológica ainda não estar sob controle, a grande maioria dos Estados e municípios manteve as decisões de flexibilizar gradualmente o distanciamento social a partir de julho ou agosto. Mesmo que o número de casos, hospitalizações e óbitos, estejam de fato diminuindo em relação ao que tínhamos há alguns meses, os números absolutos ainda são em geral muito elevados, de modo que a situação pode rapidamente sair de controle novamente. O presidente já criticou essa “conversinha de 2ª. onda”, continuando sua atitude negacionista e incentivando que vários políticos, do alto dos seus palanques eleitorais, cheguem a dizer que o aumento nos casos não passa de “fake news”.


Sem dúvida, há muita incerteza e muita discussão sobre essa possibilidade de “2ª. onda” no Brasil, e até gostaria de acreditar que o discurso desses políticos é função dessas incertezas (mas acho pouco provável...). Existem evidências de aumento no número de casos e hospitalizações em várias capitais, mas muitos estão cautelosos em relação ao significado desse aumento e ao seu impacto de longo prazo. E não ajuda o fato de que no início de novembro tenham ocorrido sérios problemas nas bases de dados e nos sistemas do Governo Federal, inclusive no Ministério da Saúde, em função da ação de “hackers” invadindo esses sistemas. Os sistemas estão gradualmente voltando ao normal e os dados sendo lançados pelas secretarias de saúde, mas ainda é preciso ainda esperar um pouco para avaliar melhor o que está acontecendo e fazer as projeções e construir cenários a partir disso.


Entretanto, sob um ponto de vista teórico, em uma pandemia são esperadas realmente várias “ondas”. Elas foram observadas em todas as grandes epidemias e pandemias do passado. E, novamente, apesar das incertezas e da consequente dificuldade de fazer previsões, não é tão complicado entendermos do que estamos falando. Em primeiro lugar, precisamos entender o que está sendo chamado de 2ª. onda. Na verdade, não há uma definição precisa, pois na realidade o que vemos é um continuum de aumento ou diminuição de casos ao longo do tempo, mudanças rápidas de trajetórias, em função da dinâmica epidemiológica que envolve as transmissões e as recuperações em diferentes grupos da sociedade e/ou de diferentes regiões geográficas que vão sendo gradualmente atingidas pela epidemia.


É questionável se temos realmente uma 2ª. onda no Brasil e nos EUA, já que, como falamos, de fato o número de casos e eventos nunca ficou realmente baixo, apesar das reduções (ainda tínhamos em outubro uma média de algo como 400 óbitos por dia no Brasil, cerca de 40% do máximo no pico). Além disso, no caso da COVID aprendemos que as transmissões não ocorrem de forma muito “continua”, no sentido de que as transmissões são muito agregadas e a maior parte dos casos deriva de poucos eventos de “super-propagação”, o que pode criar surtos que vão se espalhando na população, como se fossem realmente ondas de expansão no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo, quando pensamos, por exemplo, em um país de dimensões continentais como o Brasil, ou nas grandes metrópoles, é difícil pensar que a COVID-19 se espalha gradual e continuamente, de forma uniforme, pela população. Diferentes regiões geográficas e diferentes cidades permaneceram isoladas por tempos diferentes e possuem assim dinâmicas temporais assíncronas para a pandemia, e o mesmo vale para pessoas em classes de renda ou idades diferentes. Algumas pessoas, dependendo da atividade profissional e, em muitos casos, da renda, têm mais condições de permanecer em casa e trabalhar de forma remota, ou não precisam utilizar transporte público, estando assim menos expostas ao vírus. Nesse sentido, a pandemia poderia ser encarada, olhando de modo mais refinado, como uma sucessão de pequenas ondas que, quando somadas, criam o padrão geral que vemos (inclusive esses longos “platôs” que foram observados no Brasil, devido à heterogeneidade da forma dessas curvas em diferentes locais).


Então, se temos na realidade uma sucessão temporal e geográfica de várias ondas que constituem essa pandemia, em diferentes regiões, do que estamos falando quando pensamos em uma “2ª. onda”? Essa é uma das dificuldades de usar o termo aqui no Brasil e talvez o termo não seja adequado realmente. Mas, de qualquer modo, o que acontece é que, nos últimos meses, as várias ondas em diferentes partes do país começaram a “perder força” e o número de casos e hospitalizações começou a diminuir de forma geral, especialmente nos grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro. O número de novos casos e óbitos por dia começou a diminuir gradualmente de modo que a pandemia como um todo começa a ser expressar, acumulativamente, de forma mais logística (formando uma curva em forma de “S”), como podemos ver na figura abaixo (extraido do G1 em 20/11/2020).




Entretanto, os casos e hospitalizações aparentemente voltaram a aumentar nos últimos dias, em algumas das grandes cidades, desencadeando muitas discussões. Assim, de forma pragmática, podemos pensar que estamos falando em 2ª. onda quando o número de eventos (casos, hospitalizações ou óbitos) se reduzem significativamente, ou seja, a epidemia está claramente em uma fase de redução e praticamente no final, mas ela passa novamente a crescer e acelerar, mudando a trajetória das curvas de eventos. Vamos entender melhor isso, no sentido de por que isso acontece?


Vamos voltar ao nosso modelo SIR básico que já discutimos algumas vezes aqui no “Ciência, Universidade e outras ideias” e usar como exemplo uma cidade hipotética com 1.000.000 habitantes. Vamos imaginar que, no início de março, a cidade já tinha 1000 pessoas infectadas com a COVID-19 (casos ativos, transmitindo) e ainda não havia nenhuma medida de contenção ou controle implementada, de modo que a epidemia se espalha rapidamente com um R0 igual a 2,0 (ou seja, cada um desses infectados deu origem a dois novos infectados, de modo que ao final de cerca de 1 semana teríamos 2000 novos casos). Claro que a maioria desses infectados são assintomáticos e não desenvolvem sintomas mais graves e a pandemia continua, de certo modo, desapercebida. Vamos imaginar que apenas 2% dos infectados precisem de hospitalização, que destes 40% desenvolvam sintomas mais graves e precisem de UTI e que, destes casos mais graves, 50% venham a óbito. Com esses parâmetros gerais conseguimos simular a progressão da pandemia na cidade e seu impacto.


Vamos assumir que depois de cerca de 30 dias dessa situação inicial, logo no início de abril, as internações e UTIs e os óbitos começam a aumentar significativamente e as notícias sobre a pandemia fazem com que as autoridades de saúde implementem medidas de isolamento e distanciamento. Escolas e o comércio são fechados, em uma tentativa rápida de conter o avanço da epidemia. Com isso, o R inicial de 2,0 cai para, digamos, 1,2, que seria um valor esperado considerando uma série de fatores, como a redução dos contatos - muitas pessoas conseguem ficar em casa - e a adoção de medidas de higiene pessoal e uso de máscaras. Isso significa que a epidemia vai continuar a crescer, mas em um ritmo muito mais lento. Como foi muito discutido no início da pandemia da COVID-19 no Brasil e no mundo, o objetivo geral das medidas foi “achatar a curva” de modo que os sistemas de saúde e atendimento sejam capazes de receber de forma adequada às pessoas, em termos de pessoal técnico e de número de leitos e UTIs.


Podemos ver que, nessa simulação, a epidemia cresce e chegamos a cerca de 2800 óbitos depois de 8 meses, ao final de outubro. Na simulação, no pico da pandemia na cidade seriam necessários algo como 700 leitos de UTI ao mesmo tempo para atender aos casos mais graves. Mas vemos que, gradualmente, o número de eventos começa a diminuir e chega-se ao final de outubro com a epidemia praticamente sob controle, como aparece nas figuras abaixos.



Isso acontece porque, embora o R a princípio se mantenha em 1,2 em tese, na prática a probabilidade de novas infecções começa a diminuir já que o R efetivo diminui. Isso acontece porque se considerarmos que nenhuma medida adicional foi criada ou nenhum relaxamento observado, o número médio de contatos que cada pessoa tem com as demais na sociedade é o mesmo. Entretanto, à medida que algumas pessoas começam a se infectar (e assumimos que se tornam imunes a partir daí, o que ainda é uma incerteza...), isso significa que a chance de uma pessoa infectada transmitir a COVID-19 aos seus contatos diminui. Com isso, como mostrado na figura abaixo, o R inicial de 1,2 após as medidas de distanciamento, na verdade, resulta em um R efetivo menor e a epidemia se reduz. Na verdade, esse R efetivo já seria menor do que 1,0 a partir de meados de abril, coincidindo com a desaceleração no número de óbitos a partir de maio, como podemos ver comparando-se as linhas vermelhas e verde na figura abaixo.





De qualquer modo, o que acontece é que, à medida que a epidemia começa a desacelerar de forma mais clara, a partir de julho, as pessoas comemoram (com razão!) e gradualmente, lentamente, começam a abandonar o isolamento. Ao mesmo tempo, o próprio Governo também começa a avaliar a situação epidemiológica e as autoridades de saúde concluem que é possível começar a flexibilizar as medidas previamente adotadas para conter a pandemia. Na verdade, com isso o Re deveria aumentar, mas vamos assumir que, de fato, esse valor de "input" continua como 1,2, para facilitar o raciocínio.


Nesse sentido, precisamos entender o que explica a forma da curva de óbitos (usada aqui com um indicador da trajetória da pandemia). Vamos assumir que as medidas continuaram sendo adotadas e a atitude das pessoas foi mais ou menos a mesma ao longo dos 8 meses nessa simulação, de modo que a redução do Re foi causada apenas porque, de um mesmo número de contatos anteriores, a probabilidade de encontrar alguém que ainda não tivesse infectado diminuiu (mas veja que ela se estabiliza em um valor menor do que, já que o número de infectados também começa a se reduzir). Na realidade, no exemplo hipotético acima chega-se ao final de outubro com uma prevalência em torno de 35%, ou seja, nos 8 meses cerca de 350 mil pessoas (do total de 1 milhão na cidade) já teriam sido infectadas. Por isso é mais difícil a transmissão, isso assumindo que quem já foi infectado não se infecta novamente (e temos discussões ainda sobre isso, não está 100% claro que seja assim de forma geral).


O cenário hipotético descrito acima não é muito diferente do que aconteceu em muitas grandes cidades do Brasil e do mundo nos últimos meses. Claro, o mundo real é muito mais complexo, em diversos aspectos. Entretanto, é possível utilizar esse tipo de simulação para responder à seguinte questão: o que acontece se as pessoas abandonarem as medidas e o Governo flexibilizar totalmente as medidas de isolamento e distanciamento social? Para isso, precisamos tentar saber qual seria o efeito dessas flexibilizações sobre o R efetivo em um dado momento.


You Li, da Universidade de Edinburgo, e colaboradores, recentemente avaliaram o padrão de crescimento da pandemia da COVID-19 em diversos países e locais do mundo e fizeram uma análise extremamente interessante justamente sobre como a adoção ou flexibilização de diversas medidas afetam o Re. Em um artigo publicado na prestigiada revista The Lancet (Infectious Diseases), eles mostraram, por exemplo, que a abertura de escolas aumenta em média em 24% o R efetivo depois de cerca de 30 dias, mas com um intervalo de confiança entre 0% (ou seja, não há nenhum efeito adicional sobre o numero de transmissões) e 50%. As medidas mais significativas, em termos de flexibilização, foram o retorno às aulas e a liberação de eventos com mais de 10 pessoas e grandes eventos públicos (para os interessados, a síntese dos efeitos está na Tabela 1 do artigo). Um estudo semelhante foi também publicado na semana passada na Nature Human Behavior por Nils Haug e colaboradores, com uma análise detalhada do impacto das medidas de intervenção na redução do Re (mais uma vez mostrando a importância de evitar reuniões de pessoas – especialmente pequenas reuniões – e suspensão de aulas em instituições de ensino). Um ponto interessante é que Haug e colaboradores mostram que os efeitos são, certamente, combinados, apesar de algumas medidas terem um efeito mais claro e forte do que outras.


Podemos usar a ideia geral desses artigos e ver o que aconteceria na nossa cidade hipotética a partir de novembro, quando as atividades passassem a ser gradualmente liberadas. Vamos imaginar que o Re vai ser gradualmente aumentado nos 30 dias seguintes, ao longo do mês de novembro, em 50% ou 100%, o que pode ser interpretado de várias formas (por exemplo, com um aumento de 50% vamos imaginar que metade das pessoas que estavam isoladas voltam a trabalhar fora de casa e ter contatos, ou que cada uma das pessoas antes mais isolada passa gradualmente a aumentar seus contatos). Segundo Li e colaboradores, por exemplo, um aumento de até 50% no Re poderia ocorrer com a abertura de escolas ou liberação de eventos públicos (isso dependendo dos outros fatores e dos protocolos de segurança etc). Qual o impacto disso, e quanto tempo depois? Vamos prolongar o tempo de simulação aumentando o Re em 50% ao longo do mês de novembro, mas deixando agora que a simulação vá até final de fevereiro de 2021 com os novos valores, ou seja, um ano depois do início da pandemia. Podemos comparar as 3 curvas de número acumulado de óbitos (ou seja, mantendo o R “de entrada” na simulação como sendo 1,2 ou fazendo com que ele aumente 50% ou 100%) e ver o que acontece.


A linha verde representa a trajetória sem aumento do Re, e as linhas laranja e vermelha um aumento a partir de novembro de 50% e 100%, respectivamente. Então, um aumento no Re de 50% não teria praticamente nenhum impacto até o final da simulação (fevereiro de 2021), mas com um aumento de 100% seria possível verificar um aumento significativo no número de óbitos já no final de janeiro (mas na prática algumas semanas antes disso já seria possível detectar um aumento claro nas hospitalizações!). No caso de duplicar o Re, é como se a dinâmica da pandemia “recomeçasse” com um R0 até um pouco maior do que o inicial, na simulação, mas lembrando que, diferente do que havia naquele momento, já teríamos uma proporção de quase 40% de pessoas infectadas no final de março de 2021. Deste modo, o R efetivo já seria bem menor do que em março de 2020, mesmo com as medidas flexibilizadas. Por outro lado, o R0 de 2,0 pode ser baixo e algumas estimativas sugerem que o valor do R0 da COVID poderia ser bem mais alto nessas situações de falta total de controle.


Em um prazo maior, ampliando ainda mais o tempo de simulação até julho de 2021, vemos abaixo que a dinâmica do Re continua e a epidemia, apesar de crescer muito após a duplicação do Re ainda em novembro de 2020 – chegando a mais do que o dobro de óbitos observados em fevereiro/março - voltaria a desacelerar novamente a partir de abril ou maio de 2021. Com um aumento de 50% do Re em novembro de 2020, o aumento no número de óbitos só começaria a ser percebido em meados de abril de 2021, com um crescimento mais lento (curva laranja abaixo).

Claro que, em longo prazo, até 2021, o cenário de duplicação de Re gerando, em última instância mais do que o dobro de óbitos em meados de 2021, não seria aceitável (mas tudo pode acontecer no Brasil...). O que deve acontecer é que, quando o número de óbitos ou hospitalizações voltasse a subir no início de 2021, novas medidas de quarentena ou estratégias de controle (rastreamento de casos e contatos) deverão ser implementadas para reduzir novamente o Re, como estamos vendo na Europa agora. Não necessariamente lockdowns ou quarentenas, mas alguma coisa terá que ser feita...Se isso acontece, volta-se, digamos, para um Re igual a 1,2 a partir de março, quando os eventos a dinâmica mudaria e a trajetória voltar a desacelerar mais cedo (linha vermelha tracejada abaixo), mas ainda assim haveria um grande aumento no número de óbitos até que as novas medidas voltassem a fazer efeito.


Como coloquei antes, o mundo real é muito mais complexo do que as simulações de uma dinâmica SIR simples apresentadas acima, em diversos aspectos. Sabemos, por exemplo, que há heterogeneidade social nas grandes cidades, o que afeta diversos aspectos da pandemia, especialmente o número de pessoas expostas e as transmissões (e, portanto, a prevalência) nas diferentes classes sociais. É possível que as classes sociais mais abastadas, que conseguiram ficar mais isoladas, tenham um crescimento maior de casos, como houve no inicio da pandemia, mas é difícil dizer que não teremos efeito nas populações mais pobres, já que a prevalência dessas não é tão alta assim de qualquer modo e estamos, de modo geral, longe da chamada “imuniudade coletiva” ou “imunidade de rebanho” mesmo entre as classes sociais que se infectaram mais, como já discutimos. O mesmo vale para a questão da estrutura etária, com um grande efeito na mortalidade se a população mais idosa continuar mais protegida ou isolada (embora, por sua vez, a abertura de escolas possa aumentar a transmissão em crianças que, por sua vez, pode diminuir a proteção aos pais e avós). E, de fato, como mostrei na última simulação com uma reimplementação das medidas, estas vão reduzir novamente o Re e retomar todo o processo de desaceleração (isso sem falar que, com a aplicação de vacinas, esperamos que a partir de 2021, a situação possa ser controlada de forma mais efetiva, apesar das dificuldades que coloca a seguir).


Além disso, considerando o cenário das simulações, no mundo real as medidas não foram flexibilizadas ao mesmo tempo e nem com a mesma intensidade, de modo que o Re não é de fato constante ou não muda de forma constante (então, o Re de fato flutua ao longo do tempo tanto em função da redução da probabilidade de contágio quanto por causa de variações no isolamento). A dinâmica se torna muito mais complexa e variável. Por exemplo, vimos nas últimas semanas muita discussão sobre o retorno das aulas presenciais e vários Governos Estaduais e Municipais regulamentando esse retorno com uma série de protocolos de segurança. Mas nem todas as escolas têm condições de implementar esses protocolos e, ao mesmo tempo, nem todas as famílias se sentem seguras de mandar os filhos de volta às escolas. Assim, mesmo quando há uma flexibilização das medidas governamentais, em última instância o que importa é a consciência individual e a maneira como as pessoas e as famílias lidam com a pandemia. Isso torna difícil antever qual o impacto das flexibilizações no aumento do Re, sendo assim importante fazer um monitoramento constante da situação epidemiológica em cada cidade. Todos esses fatores devem ser considerados se modelos do tipo SIR forem utilizados para avaliar situações reais.


De qualquer modo, pensando de forma cautelosa, podemos tentar sempre manter em mente, em termos de plausibilidade, o que poderia levar a um aumento de 100% no Re a partir, digamos, de outubro ou novembro deste ano. Segundo Li e colaboradores, esse aumento poderia ocorrer com a abertura (total e com poucos protocolos) das escolas e liberação de eventos públicos e agregações de mais de 10 pessoas, e já temos isso ocorrendo, pelo menos em parte, na maior parte do Brasil. Assim, um aumento de 100% no Re não está fora de cogitação, infelizmente...Por outro lado, no seu artigo Li e colaboradores não avaliam o efeito das máscaras e outras medidas de higiene, que podem bloquear o aumento das transmissões e não permitir que haja um aumento muito grande no Re (mas, como discutimos antes, com a flexibilização se torna cada vez mais difícil avaliar se as medidas mais individuais são seguida e se são efetivas). De qualquer modo, novamente, fica claro que é preciso manter a vigilância e monitorar qualquer os aumentos nos casos e hospitalizações, permitindo avaliar possíveis aumentos no Re.


Apesar desses vários pontos em relação ao realismo das simulações e à complexidade da dinâmica da pandemia, acho que podemos aprender algumas coisas com os resultados das simulações na nossa cidade hipotética apresentados acima, em termos de tomar medidas mais cautelosas e tentar conter uma 2ª. onda da pandemia da COVID-19 em nossas cidades. Podemos entender essas simulações, apesar de simples (em termos de realismo), como “conservativas”, ou seja, podemos pensar que o efeito mostrado aqui deve ser potencialmente menor do que o poderá ser observado no mundo real. As curvas mostradas acima não são muito diferentes, em termos de “forma”, do que observamos nos EUA e na Europa, por exemplo, de modo que os padrões gerais devem ser próximos a isso (embora, por exemplo, a mortalidade possa ser reduzida a partir da melhoria das práticas médicas nas UTIs, por exemplo). Desse modo, em termos de lições mais gerais, acho que podemos pensar que:


1. O tempo de percepção do crescimento da pandemia é muito, muito longo, como já ressaltamos várias vezes. Um aumento expressivo no Re em novembro, se a epidemia estiver bem controlada, só aparece de forma mais clara no final de janeiro! Como o número de novos casos (casos ativos) quando a epidemia já está sob controle é muito pequeno na fase de estabilização, mesmo um Re relativamente alto, aumentando em 100% ao longo do mês seguinte, demora muito a gerar uma mudança na trajetória da epidemia. É preciso, portanto, monitorar o Re e as hospitalizações continuamente, como tem sido feito em diversos locais do Brasil, inclusive corrigindo o efeito do atraso na notificação de novos casos (o nowcasting que discutimos anteriormente aqui no Blog). Mas, além disso, é importante avaliar os números absolutos de eventos, principalmente as hospitalizações, e fazer isso de forma transparente, alertando a sociedade e esclarecendo a todo o momento a situação epidemiológica da cidade;


2. Nas simulações feitas acima chegamos ao final de outubro com cerca de 35% da população da cidade infectada, o que pode ser um número extremamente alto comparado às estimativas que temos para várias cidades brasileiras, com raras exceções, mesmo considerando a potencial subestimativa das prevalências (que pode ser agora corrigida de forma estatística considerando o decaimento dos anticorpos, conforme proposto recentemente pela equipe do Imperial College de Londres), e isso sem considerar a subnotificação de casos e de óbitos. Quanto menor for a prevalência, mais rápido é o novo crescimento da pandemia, pois o Re se reduz mais lentamente, de modo que uma duplicação do R por flexibilização das medidas de isolamento e distanciamento teria, na verdade, um impacto maior e mais rápido do que o apresentado acima. Assim, é fundamental continuar investindo em testagens e avaliações epidemiológicas detalhadas, como as excelentes análises realizadas há algum tempo no Maranhão, por exemplo;


3. Continuando o raciocínio a partir da lógica de que a "2ª. onda" é caracterizada por uma nova expansão após uma situação de controle relativo, com poucos casos, o monitoramento do Re pode ser interessante como um primeiro alerta, pois se realmente estiver ocorrendo um novo crescimento espalhado na população (e não apenas concentrado em regiões ou em alguns grupos de pessoas – classes sociais ou etárias, por exemplo), é possível com poucos casos ampliar as estratégias de testagem e de rastreamento de casos e contatos. O ponto crítico é bloquear as cadeias de transmissão, reduzindo o Re de forma “cirúrgica” e evitando às vezes a necessidade de medidas mais drásticas e gerais, como novos lockdowns ou quarentenas. Mais uma vez, é preciso aproveitar o momento atual e investir, portanto, em vigilância e testagem. Embora isso tenha sido tentado no início da pandemia em alguns locais, acho que hoje isso é mais claro, há maneiras mais efetivas, rápidas e baratas para fazer screenings iniciais e talvez os tomadores de decisão estejam mais conscientes das relações custo-benefício entre essas estratégias locais e medidas mais drásticas de quarentena e lockdown;


4. As simulações mostram que, dependendo do impacto das flexibilizações que temos observado sobre o Re nos diferentes locais a partir de outubro ou novembro, uma nova aceleração da pandemia já seria claramente perceptível em março, muito provavelmente antes da aplicação efetiva das vacinas em larga escala no país. Embora essa discussão sobre as vacinas mereça atenção especial, existem alguns pontos importantes a destacar. Sem dúvida, mais uma vez houve uma resposta impressionante da comunidade científica internacional (e das empresas farmacêuticas...) desenvolvendo diferentes vacinas para a COVID-19 em tempo recorde. Entretanto, ainda há muitos desafios a serem vencidos, tanto sob o ponto de vista científico (pois existem diversas características imunológicas e médicas associadas à COVID-19 que não são bem compreendidas e que, portanto, podem gerar surpresas) quanto sob o ponto de vista logístico, em termos de saúde publica, na distribuição da vacina em um país de dimensões continentais e com tantas desigualdades quanto o Brasil. É preciso avaliar com cautela os resultados das aplicações e monitorar a capacidade da vacina de realmente imunizar uma parte considerável da população. Isso sem contar o efeito nefasto dos movimentos anti-vacina e uma série de “politizações” associadas a elas, como temos visto. Enfim, é preciso pedir mais paciência à sociedade e tentar manter por um tempo as medidas básicas de contenção, sob o risco de mesmo com a vacina aparecerem novos surtos (o que pode inclusive reforçar o negacionismo...). Sem querer ser pessimista em relação às vacinas, dada a maneira como o Governo, especialmente no nível federal, vem lidando com as políticas públicas em saúde, acho que as coisas podem ser complicar. Mas vamos aguardar e tentar lidar com serenidade com a situação em 2021.



Finalizando, para além desses quatro pontos específicos em relação às lições que considero mais relevantes para ficarmos atentos, e talvez até mais importante, é crucial entendermos que não podemos continuar no Brasil imersos no negacionismo e com uma atitude de descaso em relação à COVID-19. Nesse momento de redução da pandemia e com a ameaça de uma "2ª. onda", se é que podemos usar essa expressão por aqui, seria preciso na realidade aprender com o que estamos vendo na Europa (mais uma vez) e investir fortemente em vigilância, testagem e rastreamento de casos e contatos. Mas, ironicamente, as notícias sobre a 2ª. onda vêm acompanhadas de mais notícias sobre o descaso e inoperância de autoridades públicas em relação a milhões de testes de PCR que perderam a validade...Caso não haja uma mudança de atitude tanto dos indivíduos quanto dos Governos nos diferentes níveis hierárquicos, vamos vivenciar ondas contínuas de crescimento e estabilização da COVID-19, com mais e mais morte e sofrimento, à medida que novas pessoas se deixam levar pela ignorância ou são influenciadas por políticos e gestores inescrupulosos, se expondo ao vírus. Vamos seguir, para usar uma expressão famosa, ondas e mais ondas em um mar sem fim...




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