• José Alexandre F. Diniz F

A Formação Profissional em um Contexto Mais Amplo

Quando uma estudante ingressa na Universidade buscando uma formação profissional como bióloga, médica, advogada, professora, engenheira ou qualquer outra profissão, ela deve cursar todas as disciplinas que são obrigatórias e algumas disciplinas optativas. Como já coloquei várias vezes, em função da autonomia as diferentes Universidades possuem diferentes exigências e tipos de disciplinas, que são oferecidas em regimes diferentes (anuais ou semestrais), e às vezes em regimes especiais, por exemplo durante uma ou duas semanas de forma “concentrada” nos meses de verão ou de inverno. Alguns cursos são diurnos (vespertinos ou matutinos), mas várias Universidades possuem também cursos no período noturno (no caso das públicas especialmente para licenciaturas). Essa é a formação geral e mais “formal”, e uma vez que a estudante integralize o total de “créditos” (conjunto de horas) necessários para finalizar o curso, ela vai receber seu diploma de ensino superior. Em geral os cursos de graduação exigem algo em torno de 3.000-5.000 horas no total, em cursos e outras atividades complementares, de modo que todo o processo implica em 4 ou 5 anos de estudos (às vezes um pouco mais). A partir desse diploma a pessoa pode exercer a profissão escolhida, embora algumas áreas, como o Direito e Medicina, ainda possuam outras exigência para que isso ocorra (como o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB).


Entretanto, será que isso é suficiente para formar um bom profissional? Eu diria que não, e aí começamos a fechar o ciclo da importância do nosso princípio constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (ver postagem anterior). Em primeiro lugar, acho que todos têm uma ideia intuitiva de que ter aulas com um bom professor ou professora é muito importante na formação (embora ao mesmo tempo tenhamos, na nossa sociedade, uma desvalorização dessa profissão e uma imagem deteriorada do papel do professor...mas temos que reverter isso!). Claro que precisamos definir o que é um bom professor, e certamente existem várias qualidades desejáveis para essa definição, tanto pessoais quanto profissionais. Todos nós nos lembramos de alguns professores e professoras que marcaram nossas vidas, desde o ensino fundamental até o ensino superior, ou mesmo na pós-graduação!


Mas, especialmente no caso do professor universitário e no contexto da formação da nossa estudante em um contexto mais amplo, quero chamar atenção aqui para outro aspecto, começando a fechar o ciclo do nosso princípio do tripé. Uma vantagem importante para o ensino se dá se esse professor ou professora também estiver desenvolvendo na universidade outras atividades de pesquisa e extensão, além de “apenas” dar aulas. De fato, a carga horária mínima de um professor universitário pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) é atualmente 8 horas semanais, sendo que a máxima raramente será maior do que 16 horas, pelo menos nas Universidades públicas. O contrato do docente é de 40 horas semanais e usualmente com o que se chama de “Dedicação Exclusiva”, ou DE, de modo que o docente não pode ter outro vínculo empregatício. Claro, esse docente tem que preparar as aulas, organizar exercícios e corrigir as várias avaliações, mas de qualquer modo acho que o docente em uma Universidade pública tem um bom tempo livre para se dedicar a essas outras atividades (pelo menos se comparado a docentes em outras instituições, privadas ou públicas, e em outros níveis de ensino). Esse tempo vai permitir que esse docente se familiarize com os principais avanços no conhecimento da sua área, e vai poder então transferir isso para o ensino (essa é a ideia geral que já discutimos do tripé). Assim, por exemplo, ao invés de simplesmente replicar o que está nos livros didáticos (que, por melhor que sejam, tendem a se desatualizar rapidamente por conta da velocidade do aumento do conhecimento científico hoje), o professor pode trazer as novidades mais recentes da área. Vamos imaginar, por exemplo, um professor na área médica ou biomédica. Ele pode dizer para a sua aluna de graduação algo como “...neste livro a melhor maneira de tratar essa doença é essa, mas eu acabei de voltar de um congresso internacional e assisti a uma palestra na qual um novo tratamento muito mais eficiente foi apresentado...”. Ou então dizer “...saiu ontem um artigo na “Lancet” mostrando que esse tratamento não funciona tão bem nesses casos e que é preferível...”, ou ainda algo como “...ontem eu estava trabalhando no Hospital Universitário e chegou um caso interessante dessa doença cujos sintomas não estão listados nos livros-texto, e discutindo entre os colegas chegamos à conclusão que...”. Enfim, vocês já entenderam a ideia: um docente que está atuando em pesquisa e/ou extensão, realmente, passa por um processo constante de “reciclagem” e de atualização, que é algo fundamental para que possamos ter um bom profissional que vai, no seu dia a dia, lidar com desafios que nunca haviam sido experimentados antes! Em geral, isso significa também que esse professor vai ter concluído sua pós-graduação e possuir um Doutorado na sua área de atuação (ou pelo menos um Mestrado), já que atualmente é muito difícil (ou quase impossível, para ser sincero...) ser um bom pesquisador ou pesquisadora sem ter a formação no nível de Doutor(a), especialmente nas áreas científicas. Mas vamos discutir esse ponto sobre a formação com mais calma em postagens futuras... Mas, por enquanto, podemos presumir que uma boa universidade, portanto, vai ter no seu corpo docente uma grande proporção de professores com título de Doutor que estejam fazendo pesquisa e extensão (nas universidades federais a proporção de doutores no corpo docente está em torno de 65%, mas com muita variação entre regiões do Brasil; a média em todas as Instituições de Ensino Superior no Brasil está em torno de 40%; ver a situação mais recente da Meta 13 do Plano Nacional de Educação, que trata justamente da qualificação do pessoal de ensino superior).


Vejam que, nas universidades privadas, a carga horária em sala de aula dos docentes tende a ser bem maior e, além disso, o contrato em muitos casos é por hora-aula (como em uma escola de ensino médio). Assim, mesmo incluindo horas de preparação e apoio, se o docente quiser ter um salário minimamente adequado, ele precisa dar mais aulas e não vai sobrar muito tempo para se dedicar à pesquisa ou à extensão. Na minha opinião esse é o principal fator pelo qual um docente na maior parte das Universidades privadas não consegue minimamente se dedicar à pesquisa (já que os recursos financeiros para a pesquisa, independente do tipo de instituição, não são provenientes da própria Universidade, como muitos pensam, mas sim de captação do próprio docente – falamos um pouco sobre isso na postagem sobre o financiamento da Universidade, mas vamos discutir esse tópico do financiamento da pesquisa no futuro). Com essa falta de investimento de tempo para a pesquisa e com um quadro docente formado por uma proporção menor de Doutores, como colocado acima, é inevitável que o ciclo do tripé fique comprometido e que essas universidades, no geral, tenham menos destaque do que as universidades públicas, pelo menos atualmente.


Mas voltando à estudante que chega na Universidade...Além das disciplinas e cursos, se existe um tripé equilibrado, no Departamento ou Instituto ao qual o seu curso de graduação está vinculado, nossa estudante vai encontrar muitas outras atividades que podem contribuir para a sua formação profissional. Ela vai poder conversar com pesquisadores de outras Universidades do Brasil e do exterior que estão visitando o departamento e ministrando cursos ou palestras, por exemplo. Isso tende a acontecer com mais frequência se nesse local existe um bom programa de Pós-Graduação também. Ela vai poder rapidamente se envolver em projetos de pesquisa e de extensão dos professores ali (o que deve melhorar sua formação e capacidade de atuação profissional, mesmo que ele não venha a se dedicar à pesquisa depois). É muito comum que os alunos de graduação e da pós-graduação se aproximem tanto nos laboratórios como em outras atividades, como por exemplo cursos de extensão que são oferecidos pelos alunos de Mestrado e Doutorado, mais experientes, para os estudantes da graduação.


Nesse sentido, quero destacar aqui um outro ponto importante, que é um diferencial da graduação no Brasil em relação à oportunidades de pesquisa: o programa de iniciação científica, ou PIBIC ("Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica") que foi muito fomentado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, a partir dos anos 1990. A ideia é que as Universidades recebem, todos os anos, uma cota de bolsas para distribuir aos seus alunos, que devem desenvolver um projeto de pesquisa na sua área de interesse (e os pesquisadores também podem solicitar essas bolsas diretamente ao CNPq, em geral associadas a projetos financiados; vamos discutir isso oportunamente). Esse programa foi extremamente importante para melhorar a qualidade da formação científica no Brasil desde cedo e criar as condições para qualificar o ingresso nos cursos de pós-graduação e toda a atividade de pesquisa, que serão discutidas em mais detalhes posteriormente. Mais importante, desde o início da sua formação os estudantes podem ter contato direto com o processo de geração de conhecimento, e isso é importante mesmo que ele ou ela não vá seguir uma carreira acadêmica ou como pesquisador, pois faz parte do processo mais amplo de formação. Se um profissional vai trabalhar com informação científica (e é difícil pensar hoje em alguma área de atuação na sociedade que não lide com isso...), então é interessante que se saiba, de fato, de onde vem essa informação. É importante, por exemplo, que o conceito de evidência científica seja bem compreendido, mesmo que seja para sua vida em geral! Existem também outros programas análogos, como por exemplo o PROLICEN e o PET (da CAPES), que também fornecem excelentes oportunidades de envolvimento dos estudantes com as atividades acadêmicas, principalmente ligadas ao ensino e formação pedagógica.


Em um contexto ainda mais amplo, além das atividades mais acadêmicas na área profissional que ela escolheu, nossa estudante vai ter oportunidade de participar de movimentos culturais e artísticos que lhe interessem, de fazer cursos de outros idiomas, de conhecer pessoas de outros lugares...Claro que isso depende do interesse individual de cada estudante, mas o papel da Universidade é oferecer a todos essas oportunidades. E para que isso aconteça a Universidade tem que ser um espaço livre e autônomo e, ao mesmo tempo, deve investir muitos recursos financeiros e dispender pessoas para proporcionar aos estudantes todas essas atividades. Será que todas as IES e universidades fazem isso? Claro que existe aí um efeito de “tamanho” e de diversidade de pessoas, cursos e ideias ligadas a esse tamanho...Assim, acho que tudo isso dificilmente vai ocorrer em uma IES que só oferece 1 ou 2 cursos (e lembrem que cerca de 50% das cerca de 2000 IES do Brasil oferecem menos de 5 cursos de graduação!).


Enfim, nossa estudante de ensino superior pode passar por muitas experiências em um ambiente que seja intelectualmente e academicamente estimulante, e tudo isso vai torná-la uma profissional e uma cidadã melhor. Então, é importante prestar atenção nisso tudo antes de escolher uma Universidade e um curso...



Foto capa: Curso do pacote estatístico/computacional “R”, ministrado por alunos do Programa de Pós-Graduação em Ecologia & Evolução para alunos de graduação da UFG e de outras universidades, em julho de 2019

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